REGINA DINIZ
Reconhecemos
as nossas próprias forças e limites, que ampliamos superando as dificuldades,
esforçando-nos ao máximo, enfrentando desafios e provações até quando
fracassamos. Pode acontecer uma grande realização e esta pode afastar o medo.
Esse é o melhor caminho para alcançarmos a auto-estima sadia, a qual se baseia
não só na aprovação dos outros, mas também nas realizações e êxitos concretos e
na autoconfiança realista que daí resulta. Para que o crescimento e a
individuação sejam possíveis, é necessário compreender que as capacidades,
órgãos e sistemas orgânicos exercem pressão para funcionar e expressar-se,
assim como para serem usados e exercidos, e que tal uso é satisfatório, ao
passo que o desuso é irritante.
As
capacidades são necessidades, usá-las é estimulante ao crescimento pessoal. O
processo de individuação é o processo de vir a ser uma pessoa. Ser uma pessoa é
diferente. O crescimento pessoal possui não só recompensas e prazeres, mas
também muitas dores intrínsecas e sempre terá. O crescimento, a individuação
requer coragem, vontade, deliberação e vigor no indivíduo, assim como proteção,
complacência e encorajamento do meio em que vive.
O
ser humano necessita de uma estrutura de valores, de uma filosofia da vida, de
uma religião para que possa pautar sua
vida e compreensão, no mesmo sentido em que precisa de sol, cálcio ou afeto.
Necessitamos de um sistema usável e validado de valores humanos em que possamos
acreditar e a que possamos nos dedicar, porque são verdadeiros e não porque
sejamos exortados a crer. Nas pessoas individuadas, manifesta-se uma forte
tendência para que o egoísmo e o altruísmo se fundam numa unidade superior bem ordenada.
“Os
fenômenos paranormais como a telepatia, a premonição e a clarividência foram
comprovadas para merecerem o reconhecimento científico. Há provas de que a
maioria das pessoas são capazes de se descobrirem ou de se desenvolverem por si
próprias nestas habilidades. Acreditamos que é possível curar muitas de nossas
doenças através da participação intencional de nosso consciente e de nosso
inconsciente. O conceito de saúde integral vem aumentando a compreensão das
capacidades interiores da criatura. Atualmente observa-se um interesse
crescente pelos poderes espirituais e transcendentais do indivíduo. Os
cientistas que se dedicam ao estudo do ser humano confirmam a opinião de que
existe uma mente poderosa, com uma enorme capacidade de ação inteligente e que
existe completamente à parte da estrutura do cérebro”.
Atualmente
muitas pessoas possuem uma abertura para o mundo, tanto interior quanto
exterior. São abertas à experiência, a novas maneiras de ver, a novas maneiras
de ser, a novas idéias e conceitos. Brotou um desejo de inteireza, pois não
gostam de viver num mundo dividido em compartimentos – corpo e mente, saúde e
doença, intelecto e sensação, ciência e senso comum, indivíduo e grupo,
sanidade e insanidade, trabalho e lazer. Lutam pela totalidade da vida, onde o
pensamento, o sentimento, a energia física, a energia psíquica, a energia
térmica, estejam integrados à experiência.
Modernamente,
estas pessoas dedicam-se a autoridade interna, elas confiam em sua própria
experiência e desconfiam da autoridade externa. Fazem seus próprios julgamentos
morais, mesmo que isso implique desobedecer abertamente às leis que considerem
injustas. Não valorizam os bens materiais, são basicamente indiferentes ao
conforto e às recompensas materiais. O dinheiro e os símbolos materiais de
status não são o seu objetivo. Podem viver na abundância, mas isto não lhes é
necessário. Acreditam em Deus e se consideram almas em evolução
espiritual.
“Amar
o próximo como a si mesmo” coloca o amor próprio como um dado indiscutível,
como algo que sempre esteve ali. O amor-próprio é uma questão de sobrevivência,
e sobrevivência não precisa de mandamentos, já que outras criaturas não humanas
passam muito bem sem eles. Amar o próximo como se ama a si mesmo torna a
sobrevivência humana diferente daquela de qualquer outra criatura viva. Sem a extensão
da transcendência do amor-próprio, o prolongamento da vida física, e corpórea,
ainda não é, por si mesmo, uma sobrevivência humana, não é o tipo de
sobrevivência que separa os seres humanos das feras. O preceito do amor ao
próximo desafia e interpela os instintos estabelecidos pela natureza, mas
também o significado da sobrevivência por ele instituído, assim como o do
amor-próprio que o protege.
Há
milênios a invocação de amar o próximo como a si mesmo é um dos mais
importantes preceitos da vida civilizada. O amor ao próximo como a si mesmo aconselha
a todos se enternecerem diante dos sofrimentos alheios, a deixarem as lágrimas
correrem, porque esse sentimento irradiado torna-se um bálsamo para os que
sofrem, auxiliando a resignação e a esperança. Um grande gesto humano é
restituir a esperança a quem a perdeu, estimular a resignação são atos que tem
como conseqüência um prazer diferente ligado ao sofrimento de alguém, que é,
todavia, amenizado e suavizado.
Amar
o próximo como amamos a nós mesmos significa respeitar a singularidade de cada
um, o valor de nossas diferenças, que enriquecem o mundo que habitamos em
conjunto e assim tornar um lugar mais fascinante e agradável. Precisamos pensar
profundamente em atos sociais de união entre as pessoas porque quanto mais nos
destacamos de nossas vizinhanças imediatas, mais dependemos da vigilância desse
ambiente. Os lares de muitas áreas urbanas do mundo agora existem para proteger
seus habitantes, não para integrar as pessoas à suas comunidades.
Há
na ética levinasiana um fascínio que julgo tenha a ver com uma noção de
humanidade: ser humano é ser para o outro, não humanidade sem relação ética,
sem escuta e abertura aquilo que o rosto do outro tem para me dizer. Assim a
ética deixa de ser um conjunto de princípios morais a determinar a ação ou um
conjunto de virtudes a mediar a obtenção de fins bons, para se tornar um
acontecimento, um encontro quotidiano: eu e o outro face a face. Falar de ética
é falar desse encontro, do modo como o eu responde ao outro que o interpela.
Trata-se, portanto, de uma ética que exige, mais diálogo e ação. Se frente ao
outro eu nada fizer, não há relacionamento ético.
Sendo
o outro completamente exterior a mim, e situando-se a sua verdade num infinito que não domino,
resta-me acolhê-lo e esperar que ele me fale convidando-me à relação ética.
Acolher o rosto é, então, a apreensão, sem choque, daquilo que o outro tem para
me dizer, vindo de uma distância da qual
e sobre a qual nada posso. É por isso que, no encontro face a face,
todos aqueles a quem me disponho o acolher são iguais. Acolho-o de igual modo,
e os seus rostos significam de igual modo.
Na
verdade, o apelo do outro, que toca a minha interioridade, não pode ser
recusado, mesmo que isso não tenha diretamente a ver comigo, aliás, sou
igualmente responsável pelo que não depende diretamente de mim. Posso não ter
contribuído para a “fome” dos homens, mas as respostas a essa “fome”
incumbe-me. É a responsabilidade pelo outro o que constitui verdadeiramente o
indivíduo, o ser único que cada um de nós é, uma vez que, na decisão de ser
para o outro, ninguém pode ser substituído. É por isso que nada é mais digno do
ser humano que a responsabilidade por outrem. Aqui reside toda a ética e toda a
moralidade.

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