REGINA DINIZ
“De
fato, como poderia haver algo de errado com a felicidade? “Felicidade” não
seria sinônimo de ausência de erro? Da própria impossibilidade de sua presença?
Da impossibilidade de todo e qualquer erro? Sociedades como as nossas movidas
por milhões de homens e mulheres em busca da felicidade estão se tornando mais
ricas, mas não está claro se estão se tornando mais felizes. Parece que a busca
dos seres humanos pela felicidade pode muito bem se mostrar responsável pelo
seu próprio fracasso. Todos os dados empíricos
disponíveis indicam que, nas populações das sociedades abastadas, pode
não haver relação alguma entre mais riqueza, considerada o principal veículo de
uma vida feliz, e maior felicidade! ( Autor: Michael Rustin – Livro: What is
wrong with happiness? – 2007). Citação
de Zygmunt Bauman – Livro: A Arte da Vida).
A
intima correlação entre crescimento econômico e maior felicidade é amplamente
considerada uma das verdades menos questionáveis, talvez até a mais
auto-evidente. Desejamos sorte a todas as pessoas, esperando que seu sucesso
(ou seja aumentar nossas rendas, dinheiro a nossa disposição, o volume de
nossas posses, bens e riquezas) melhore a qualidade de nossas vidas e nos torne
mais felizes. O filósofo Robert Lane descobriu que, apesar do imenso e
espetacular aumento das rendas dos americanos, nos anos do pós-guerra, a
felicidade por eles declarada era menor.
A
estratégia de tornar as pessoas mais felizes, aumentando suas rendas aparentemente
não funciona. Por outro lado, um indicador social que até agora cresce de modo
espetacular paralelamente ao nível de riqueza, é a taxa de criminalidade:
roubos a residências e de automóveis, tráfico de drogas, suborno e corrupção no
mundo dos negócios. Surgiu uma desconfortável sensação de incerteza difícil de
suportar. É preciso valorizar a nossa coragem, sabedoria e cultura. É preciso
investir mais no que faz a vida valer a pena.
“Não
existe qualquer evidência de que, com o crescimento do volume geral (ou médio) de
consumo, o número de pessoas que afirmam que “se sentem felizes” também vá aumentar. Andrew, do Financial Times,
insinua que a tendência oposta tem mais
probabilidade de ser registrada. Sua conclusão é que os moradores de países
prósperos e bastante desenvolvidos, com economias orientadas para o consumo,
não se tornaram mais felizes ao ficarem mais ricos. Por outro lado, também se
deve notar que os fenômenos e causas negativas do desconforto e da
infelicidade, tais como estresse ou depressão, jornadas de trabalho prolongadas
e anti-sociais, relacionamentos deteriorados, falta de autoconfiança e
incertezas enervantes sobre estar estabelecido de maneira segura e “ter razão,
tendem a crescer em freqüência, volume e intensidade”. (Autor: Andrew
Osvald - Financial Times (Citação feita Zygmunt
Bauman - Livro – Vida para o Consumo).
A
possibilidade de povoar o mundo com gente mais afetuosa e motivar as pessoas a
terem mais afeto não figura nos panoramas pensados pela utopia consumista. O
filósofo Manuel Levinas vislumbrou ao refletir que, em vez de ser um dispositivo
destinado a tornar acessível o convívio humano pacífico e amigável a egoístas
natos, a “sociedade” pode ser um estratagema para tornar acessível a seres
humanos uma vida autocentrada e egoísta – embora cortando, neutralizando ou
silenciando aquela assustadora responsabilidade pelo Outro que nasce cada vez
que a face desse Outro aparece; uma responsabilidade de fato inseparável do
convívio humano.
A
falta de ética não é uma característica só da cultura brasileira, é uma
tendência da competição do mundo atual. Vivemos em uma sociedade que, de certa
forma, incentiva o vale-tudo, o levar vantagem, a eterna competição entre as
pessoas. A sociedade capitalista incentiva esse comportamento, que estimula a
essa competição, que gera a falta de ética nas relações. Precisamos debater os
valores éticos importantes como: respeito, gentileza, educação, bom senso,
honestidade, sinceridade, solidariedade, bondade, paciência.
“A
verdade provável é que escolhas morais sejam de fato escolhas, e dilemas sejam
de fato dilemas, e não os efeitos temporais e corrigíveis da fraqueza,
ignorância ou estupidez humanas. Os temas não têm soluções predeterminadas nem
as encruzilhadas direções intrinsecamente preferenciais. Não há princípios
fixos, que se possam aprender, memorizar e desenvolver para escapar de
situações sem bom resultado e poupar-se do amargo gosto posterior (chame-o de
escrúpulos, culpa, ou pecado) que vêm sem pedir na esteira das decisões tomadas
ou realizadas. A realidade humana é confusa e ambígua, e também as decisões
morais, diversamente dos princípios filosóficos éticos abstratos, são
ambivalentes. É nesse tipo de mundo que devemos viver; e, todavia como desafiando
aos filósofos angustiados que não conseguem conceber moralidade sem princípios,
moralidade sem fundamentações, demonstramos dia a dia, que podemos viver, ou
aprender a viver, ou tentar viver num mundo desse tipo, embora poucos de nós
estejamos preparados para expressar, no caso de sermos interrogados, quais
seriam os princípios que nos guiam, e
ainda menos tenham ouvido falar das “fundamentações” que, como se supõe, não
poderíamos dispensar para ser bons e gentis em nossas relações recíprocas”.(Autor:
Zigmunt Bauman – Livro Ética Pós-Moderna – Ed. Paulus – 1997- São Paulo.)
A
vida impõe decisões às pessoas o tempo todo, as pessoas as tornam de acordo com
seu valor, considerando as particularidades de cada situação. Valores são quaisquer aspectos da decisão
que: sejam considerados, desejáveis, indesejáveis, agradáveis, promissores,
seguros, justos, bons, corretos, fáceis, incertos... Nossos sistemas de
cognição moral, de valores éticos, e tomada de decisão evoluíram ao longo de
milhões de anos para proporcionar uma maior aptidão de sobrevivência, sucesso
reprodutivo e social, permitindo-nos desenvolver e aperfeiçoar critérios para
avaliar opções e comportamentos próprios e alheios, considerando seu valor
provável, sua aprovação e reprovação social, custos e riscos potenciais.
Para
a mente moderna, esses sentimentos pós-modernos representam perigo mortal para
a convivência humana. Tendo primeiro difamado e degradado os atos humanos que
só têm “paixões e inclinações espontâneas por causa, a mente moderna fica amedrontada
pela perspectiva de “desregramento” da conduta humana, de viver sem código
ético rigoroso e abrangente , de apostar na intuição moral humana e na
capacidade humana de negociar o modo e
os usos do viver juntos, antes de buscar apoio nas normas jurídicas e
despersonalizadas, amparadas por poderes coercitivos. A ética deve ser
refletida profundamente, porque além de
ser um instrumento indispensável para o bom funcionamento da sociedade e
integração dos indivíduos nela, também significa respeito à vida, a nossa vida
e à vida das pessoas no mundo e ao nosso redor.
A
Ética Universal de um mundo globalizado, a Ética da aldeia global, tem de
considerar tanto os deveres como os direitos individuais e defender que o
individualismo não só é compatível como pressupõe o altruísmo. Deve
rejeitar o egoísmo psicológico, o
egoísmo ético e o relativismo cultural. No campo espiritual deve considerar a
construção do templo humano, que é o Homem, um trabalho individual –
“conhece-te a ti mesmo” – que não pode ser feito sem o olhar do outro, que lhe
devolve o eco, a verdadeira luz, da sua natureza interior. A espiritualidade
assenta na condição sagrada da natureza humana (com a sua luz e a sua sombra) e
no seu respeito como dever universal. Unir num diálogo inter-religioso todas as
Tradições, incluindo todas as religiões (incluindo o ateísmo) e todas as
Culturas que respeitem o princípio da não-violência (como diz o Papa Bento XVI há
uma incompatibilidade entre a idéia de Deus e a idéia de violência) e da
Tolerância com base no sentido de Justiça, na verdade e na Razão.
Falar
sobre Ética modernamente nos lança em um complexo campo de definições sociais
culturais, educacionais, epistemológicas e, em certo ponto etimológicas de
difícil resolução. Como falar em Ética em uma sociedade que parece prezar pela
sua falta? Ética para quê? Para quem? Pode a sociedade capitalista se pautar
pela Ética, e, quando realizo esta pergunta, não estaria fazendo um claro
julgamento de determinado ponto de vista, que assumo sobre o Conceito de Ética?
Acredito
que a Ética Universal, a Ética da Globalização, deve ser uma Ética das
virtudes, - ser livre no sentido da compreensão de si, ser verdadeiro e justo,
ser tolerante e sensato; deve ser uma ética dos deveres – o dever para consigo
próprio, com a família, os amigos e a humanidade, o dever de cumprir com os
compromissos livremente assumidos; deve ser uma Ética dos afetos, tratamento
preferencial para com os seus familiares e amigos, embora o fim seja estender
esse tratamento a toda a Humanidade. Deve ser uma Ética de valores universais:
liberdade, igualdade, solidariedade e justiça, verdade e razão.Deve compreender
e aceitar a parcialidade dos afetos fraternais, familiares e amigáveis, comuns
a todas as culturas.

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