quinta-feira, 12 de junho de 2014

BONS E GENTIS EM NOSSAS RELAÇÕES RECÍPROCAS

REGINA DINIZ

“De fato, como poderia haver algo de errado com a felicidade? “Felicidade” não seria sinônimo de ausência de erro? Da própria impossibilidade de sua presença? Da impossibilidade de todo e qualquer erro? Sociedades como as nossas movidas por milhões de homens e mulheres em busca da felicidade estão se tornando mais ricas, mas não está claro se estão se tornando mais felizes. Parece que a busca dos seres humanos pela felicidade pode muito bem se mostrar responsável pelo seu próprio fracasso. Todos os dados empíricos  disponíveis indicam que, nas populações das sociedades abastadas, pode não haver relação alguma entre mais riqueza, considerada o principal veículo de uma vida feliz, e maior felicidade! ( Autor: Michael Rustin – Livro: What is wrong  with happiness? – 2007). Citação de Zygmunt Bauman – Livro: A Arte da Vida).

A intima correlação entre crescimento econômico e maior felicidade é amplamente considerada uma das verdades menos questionáveis, talvez até a mais auto-evidente. Desejamos sorte a todas as pessoas, esperando que seu sucesso (ou seja aumentar nossas rendas, dinheiro a nossa disposição, o volume de nossas posses, bens e riquezas) melhore a qualidade de nossas vidas e nos torne mais felizes. O filósofo Robert Lane descobriu que, apesar do imenso e espetacular aumento das rendas dos americanos, nos anos do pós-guerra, a felicidade por eles declarada era menor.

A estratégia de tornar as pessoas mais felizes, aumentando suas rendas aparentemente não funciona. Por outro lado, um indicador social que até agora cresce de modo espetacular paralelamente ao nível de riqueza, é a taxa de criminalidade: roubos a residências e de automóveis, tráfico de drogas, suborno e corrupção no mundo dos negócios. Surgiu uma desconfortável sensação de incerteza difícil de suportar. É preciso valorizar a nossa coragem, sabedoria e cultura. É preciso investir mais no que faz a vida valer a pena.

“Não existe qualquer evidência de que, com o crescimento do volume geral (ou médio) de consumo, o número de pessoas que afirmam que “se sentem felizes” também  vá aumentar. Andrew, do Financial Times, insinua  que a tendência oposta tem mais probabilidade de ser registrada. Sua conclusão é que os moradores de países prósperos e bastante desenvolvidos, com economias orientadas para o consumo, não se tornaram mais felizes ao ficarem mais ricos. Por outro lado, também se deve notar que os fenômenos e causas negativas do desconforto e da infelicidade, tais como estresse ou depressão, jornadas de trabalho prolongadas e anti-sociais, relacionamentos deteriorados, falta de autoconfiança e incertezas enervantes sobre estar estabelecido de maneira segura e “ter razão, tendem a crescer em freqüência, volume e intensidade”. (Autor: Andrew Osvald  - Financial Times (Citação feita Zygmunt Bauman  - Livro – Vida para o Consumo).

A possibilidade de povoar o mundo com gente mais afetuosa e motivar as pessoas a terem mais afeto não figura nos panoramas pensados pela utopia consumista. O filósofo Manuel Levinas vislumbrou ao refletir que, em vez de ser um dispositivo destinado a tornar acessível o convívio humano pacífico e amigável a egoístas natos, a “sociedade” pode ser um estratagema para tornar acessível a seres humanos uma vida autocentrada e egoísta – embora cortando, neutralizando ou silenciando aquela assustadora responsabilidade pelo Outro que nasce cada vez que a face desse Outro aparece; uma responsabilidade de fato inseparável do convívio humano.

A falta de ética não é uma característica só da cultura brasileira, é uma tendência da competição do mundo atual. Vivemos em uma sociedade que, de certa forma, incentiva o vale-tudo, o levar vantagem, a eterna competição entre as pessoas. A sociedade capitalista incentiva esse comportamento, que estimula a essa competição, que gera a falta de ética nas relações. Precisamos debater os valores éticos importantes como: respeito, gentileza, educação, bom senso, honestidade, sinceridade, solidariedade, bondade, paciência.

“A verdade provável é que escolhas morais sejam de fato escolhas, e dilemas sejam de fato dilemas, e não os efeitos temporais e corrigíveis da fraqueza, ignorância ou estupidez humanas. Os temas não têm soluções predeterminadas nem as encruzilhadas direções intrinsecamente preferenciais. Não há princípios fixos, que se possam aprender, memorizar e desenvolver para escapar de situações sem bom resultado e poupar-se do amargo gosto posterior (chame-o de escrúpulos, culpa, ou pecado) que vêm sem pedir na esteira das decisões tomadas ou realizadas. A realidade humana é confusa e ambígua, e também as decisões morais, diversamente dos princípios filosóficos éticos abstratos, são ambivalentes. É nesse tipo de mundo que devemos viver; e, todavia como desafiando aos filósofos angustiados que não conseguem conceber moralidade sem princípios, moralidade sem fundamentações, demonstramos dia a dia, que podemos viver, ou aprender a viver, ou tentar viver num mundo desse tipo, embora poucos de nós estejamos preparados para expressar, no caso de sermos interrogados, quais seriam os princípios  que nos guiam, e ainda menos tenham ouvido falar das “fundamentações” que, como se supõe, não poderíamos dispensar para ser bons e gentis em nossas relações recíprocas”.(Autor: Zigmunt Bauman – Livro Ética Pós-Moderna – Ed. Paulus – 1997- São Paulo.)

A vida impõe decisões às pessoas o tempo todo, as pessoas as tornam de acordo com seu valor, considerando as particularidades de cada situação.  Valores são quaisquer aspectos da decisão que: sejam considerados, desejáveis, indesejáveis, agradáveis, promissores, seguros, justos, bons, corretos, fáceis, incertos... Nossos sistemas de cognição moral, de valores éticos, e tomada de decisão evoluíram ao longo de milhões de anos para proporcionar uma maior aptidão de sobrevivência, sucesso reprodutivo e social, permitindo-nos desenvolver e aperfeiçoar critérios para avaliar opções e comportamentos próprios e alheios, considerando seu valor provável, sua aprovação e reprovação social, custos e riscos potenciais.

Para a mente moderna, esses sentimentos pós-modernos representam perigo mortal para a convivência humana. Tendo primeiro difamado e degradado os atos humanos que só têm “paixões e inclinações espontâneas por causa, a mente moderna fica amedrontada pela perspectiva de “desregramento” da conduta humana, de viver sem código ético rigoroso e abrangente , de apostar na intuição moral humana e na capacidade humana de negociar o modo  e os usos do viver juntos, antes de buscar apoio nas normas jurídicas e despersonalizadas, amparadas por poderes coercitivos. A ética deve ser refletida  profundamente, porque além de ser um instrumento  indispensável  para o bom funcionamento da sociedade e integração dos indivíduos nela, também significa respeito à vida, a nossa vida e à vida das pessoas no mundo e ao nosso redor.

A Ética Universal de um mundo globalizado, a Ética da aldeia global, tem de considerar tanto os deveres como os direitos individuais e defender que o individualismo não só é compatível como pressupõe o altruísmo. Deve rejeitar  o egoísmo psicológico, o egoísmo ético e o relativismo cultural. No campo espiritual deve considerar a construção do templo humano, que é o Homem, um trabalho individual – “conhece-te a ti mesmo” – que não pode ser feito sem o olhar do outro, que lhe devolve o eco, a verdadeira luz, da sua natureza interior. A espiritualidade assenta na condição sagrada da natureza humana (com a sua luz e a sua sombra) e no seu respeito como dever universal. Unir num diálogo inter-religioso todas as Tradições, incluindo todas as religiões (incluindo o ateísmo) e todas as Culturas que respeitem o princípio da não-violência (como diz o Papa Bento XVI há uma incompatibilidade entre a idéia de Deus e a idéia de violência) e da Tolerância com base no sentido de Justiça, na verdade e na Razão.

Falar sobre Ética modernamente nos lança em um complexo campo de definições sociais culturais, educacionais, epistemológicas e, em certo ponto etimológicas de difícil resolução. Como falar em Ética em uma sociedade que parece prezar pela sua falta? Ética para quê? Para quem? Pode a sociedade capitalista se pautar pela Ética, e, quando realizo esta pergunta, não estaria fazendo um claro julgamento de determinado ponto de vista, que assumo sobre o Conceito de Ética?


Acredito que a Ética Universal, a Ética da Globalização, deve ser uma Ética das virtudes, - ser livre no sentido da compreensão de si, ser verdadeiro e justo, ser tolerante e sensato; deve ser uma ética dos deveres – o dever para consigo próprio, com a família, os amigos e a humanidade, o dever de cumprir com os compromissos livremente assumidos; deve ser uma Ética dos afetos, tratamento preferencial para com os seus familiares e amigos, embora o fim seja estender esse tratamento a toda a Humanidade. Deve ser uma Ética de valores universais: liberdade, igualdade, solidariedade e justiça, verdade e razão.Deve compreender e aceitar a parcialidade dos afetos fraternais, familiares e amigáveis, comuns a todas as culturas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário