REGINA DINIZ
“O
Katrina revelou o segredo mais bem
guardado da civilização: que – como disse espirituosamente Timothy Garton Ash,
em um ensaio sob o título amplamente revelador de “Ele sempre está embaixo” – a
casca da civilização sobre a qual caminhamos é sempre da espessura de uma
hóstia. Um tremor e você fracassou, lutando por sua vida como um cão selvagem.
Não consigo deixar de sentir que haverá mais, muito mais disso, à medida que
nos aprofundamos no século XXI. Há tantos grandes problemas que poderiam empurrar a humanidade para
trás... se grandes extensões do planeta fossem atormentadas por tempestades,
inundações e mudanças de temperatura imprevisíveis, o que ocorreu em Nova
Orleans parecia um chá entre amigos”. ( Autor: Timothy Garton Ash – Livro:
Cartão de Crédito – pág.25 – 26).
O
caminho da Paz é fortalecer as bases elementares da vida civilizada – comida,
abrigo, água potável, um mínimo de segurança pessoal para evitarmos a guerra de
todos contra todos. Atualmente, mais de 162 mil mortos na Síria desde o início
do conflito há três anos entre as quais 53.978 civis, desde o início do
conflito em 2011, segundo um novo balanço divulgado hoje pelo Observatório
Sírio dos Direitos Humanos (OSDH). Dos civis, pelo menos 8.607 eram menores e
5.586 eram mulheres, informou a organização com sede no Reino Unido que tem por
base dados de uma vasta rede de militantes. Atualmente estão em guerras os
países - Kosofo, Irã, Iraque,
Afeganistão, Líbano, Palestina, Líbia, Israel. É necessário dedicarmos estudos
aprofundados sobre o processo civilizador.
Estranha-se
a ausência de estudos meticulosos sobre as bases elementares da vida
civilizada, da vida organizada, precisamente porque organizada – rotineira,
previsível códigos de comportamentos determinados). Seis em cada dez
brasileiros têm muito medo de assalto à mão armada e de assassinatos diz a pesquisa. Em todos os quesitos o
Nordeste (com mais de 70% das respostas,
indicando muito medo lidera os temores da violência. É alta a sensação de
insegurança no Brasil.
“Em
nosso mundo de furiosa “individualização” os relacionamentos são bênçãos
ambíguas. Oscilam entre o sonho e o pesadelo, e não há como determinar quando
um se transforma no outro. Na maior parte do tempo, esses dois avatares
coabitam, embora em diferentes níveis de consciência. No cenário da vida
moderna, os relacionamentos talvez sejam os representantes mais comuns, agudos,
perturbadores e profundamente sentidos da ambivalência. É por isso, podemos garantir,
que se encontram tão firmemente no cerne das atenções dos modernos
indivíduos-por-decreto, e no topo de sua agenda existencial”.(Autor: Zygmunt
Bauman – Livro Amor Líquido – Ed.Zahar – 2004).
O
mundo de hoje parece estar conspirando contra a confiança. A confiança deve
continuar sendo uma frente natural da “expressão soberana da vida”, entretanto
agora procura desesperadamente um lugar para lançar âncora. A confiança foi
relegada a uma vida cheia de frustração. Pessoas sozinhas, individualmente ou
em conjunto freqüentemente deixam de compensar a devoção. É raro serem modelos
de coerência e continuidade em longo prazo. A experiência individual aponta
obstinadamente para o EU como o eixo mais provável da duração e da continuidade
procuradas com tanta avidez.
Em
nossa sociedade supostamente adepta da reflexão, não é provável que se reforce
muito a confiança. Um exame equilibrado dos dados fornecidos pelas evidências
da vida sinaliza na direção contrária, mostrando repetidamente a perpétua
inconstância das regras e a fragilidade dos laços. Talvez isso significa que a
decisão de investir as esperanças da moralidade, na tendência endêmica à
confiança nos outros teria sido invalidada pela incerteza endêmica, que satura
os dias de hoje.
“Na
ausência de conforto existencial, agora nos decidimos pela segurança, ou pela
aparência de segurança, escrevem os organizadores da Hedgehog Review na
introdução de um número especial dedicado ao medo. O solo sobre o qual nossas
expectativas de vida têm de se apoiar é reconhecidamente instável – tal como
nossos empregos e as empresas que os oferecem, nossos parceiros e redes de
amizade, a posição que ocupamos na sociedade e a autoestima e a autoconfiança
dela decorrentes. O “progresso”, que já foi a mais extrema manifestação de
otimismo radical, promessa de felicidade universalmente compartilhada e
duradoura, deslocou-se para o pólo de previsão exatamente oposto, não tópico e
fatalista. Agora significa uma ameaça de mudança inflexível e inescapável que
pressagia não a paz e o repouso, mas a crise e a tensão continuas, impedindo
qualquer momento de descanso; uma espécie de dança das cadeiras em que um
segundo de desatenção resulta em prejuízo irreversível e exclusão inapelável”. (autor:Zygmunt Bauman - Livro: Vida Líquida – Ed. Zahar – 2009 ).
A
exclusão social é a chaga não só de nosso Brasil, mas de todo o mundo. É
importantíssimo trabalharmos pela paz. É obrigação nossa contrabalançar os
efeitos danosos de multidões em desarmonia e confusas, que causam malefícios a
si e aos outros. Muitas pessoas trabalham pela paz e não se deixam esmorecer.
Devemos vivenciar a paz em nossos relacionamentos, pensando no mundo todo, sem
cansar, trabalhando de todas as formas possíveis. É fundamental viver a paz
consigo mesmo para motivar as outras pessoas, acreditando que é possível
praticá-la.
Nós
precisamos aprender como colocar o bem-estar da família humana acima de
qualquer grupo específico. A fome e o sofrimento devem ser aliviados, da mesma
forma que o medo e o ódio. Nosso problema nacional número um é o ajustamento de
nossa economia a uma situação de paz. Precisamos de ministério da paz em nosso
governo para realizar, estudar, concentrar-se em pesquisas sobre maneiras
pacíficas de resolver conflitos. Quando inspiramos uma pessoa, ela tende a agir
de acordo com seus instintos mais elevados, sensível e racionalmente.
“Podemos
afirmar que a variedade moderna de insegurança é caracterizada distintivamente
pelo medo da maleficência e dos malfeitores humanos. Ela é desencadeada pela
suspeita em relação a outros seres humanos e suas intenções, e pela recusa em
confiar na constância e na confiabilidade do companheirismo humano, e deriva,
em última instância, de nossa inabilidade ou indisposição para tornar esse
companheirismo duradouro e seguro, e
portanto confiável. Castel atribui à individualização moderna a responsabilidade
por esse estado de coisas; sugere que a sociedade moderna, tendo substituído as
comunidades e corporações estreitamente
entrelaçadas, que no passado definiam as regras de proteção e monitoravam sua
aplicação pelo dever individual do
interesse, do esforço pessoal e da auto-ajuda, tem vivido sobre a areia
movediça da contingência. Numa sociedade assim, os sentimentos se insegurança
existencial e os temores disseminados de perigos generalizados são
inevitavelmente, endêmicos. (Autor: Robert Castel – Livro – L’Insécurité – 2003
).
A
recusa em confiar na constância e na confiabilidade do companheirismo humano,
deriva da inabilidade ou indisposição para tornar esse companheirismo duradouro
e seguro, portanto, confiável. A impotência socialmente induzida não garante de
maneira alguma a individualidade de fato, e muitos careciam dos recursos para estudarem, então
surgiu o medo da inadequação, que se tornou doença universal. A modernização
contínua esticou suas renovações além da capacidade individual das pessoas.
A
competição substituiu a solidariedade, os indivíduos se vêem abandonados aos
seus próprios recursos que são mínimos, Robert Castel assinala o retorno das
classes perigosas, que são constituídas do excedente populacional
temporariamente excluído, e ainda não reintegrados. A interpretação social
sadia seria a expectativa que no devido curso, eles seriam reintegrados, seu
ressentimento se dissiparia e seus interesses na ordem social seriam
restaurados. Entretanto a irrevogabilidade de sua exclusão e a fragilidade de
pedir ajuda é que transformou os excluídos contemporâneos em classes perigosas.
A incompetência para compreender a exclusão demonstra a decomposição do Estado
Social que não consegue saná-la, pois deveriam ser reeducados, reabilitados e
reenviados à comunidade.

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