quinta-feira, 3 de julho de 2014

O DEVER INDIVIDUAL DO ESFORÇO PESSOAL E SOCIAL

            
REGINA DINIZ

“O Katrina  revelou o segredo mais bem guardado da civilização: que – como disse espirituosamente Timothy Garton Ash, em um ensaio sob o título amplamente revelador de “Ele sempre está embaixo” – a casca da civilização sobre a qual caminhamos é sempre da espessura de uma hóstia. Um tremor e você fracassou, lutando por sua vida como um cão selvagem. Não consigo deixar de sentir que haverá mais, muito mais disso, à medida que nos aprofundamos no século XXI. Há tantos grandes problemas  que poderiam empurrar a humanidade para trás... se grandes extensões do planeta fossem atormentadas por tempestades, inundações e mudanças de temperatura imprevisíveis, o que ocorreu em Nova Orleans parecia um chá entre amigos”. ( Autor: Timothy Garton Ash – Livro: Cartão de Crédito – pág.25 – 26).

O caminho da Paz é fortalecer as bases elementares da vida civilizada – comida, abrigo, água potável, um mínimo de segurança pessoal para evitarmos a guerra de todos contra todos. Atualmente, mais de 162 mil mortos na Síria desde o início do conflito há três anos entre as quais 53.978 civis, desde o início do conflito em 2011, segundo um novo balanço divulgado hoje pelo Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH). Dos civis, pelo menos 8.607 eram menores e 5.586 eram mulheres, informou a organização com sede no Reino Unido que tem por base dados de uma vasta rede de militantes. Atualmente estão em guerras os países  - Kosofo, Irã, Iraque, Afeganistão, Líbano, Palestina, Líbia, Israel. É necessário dedicarmos estudos aprofundados sobre o processo civilizador.

Estranha-se a ausência de estudos meticulosos sobre as bases elementares da vida civilizada, da vida organizada, precisamente porque organizada – rotineira, previsível códigos de comportamentos determinados). Seis em cada dez brasileiros têm muito medo de assalto à mão armada e de assassinatos diz  a pesquisa. Em todos os quesitos o Nordeste  (com mais de 70% das respostas, indicando muito medo lidera os temores da violência. É alta a sensação de insegurança no Brasil.

“Em nosso mundo de furiosa “individualização” os relacionamentos são bênçãos ambíguas. Oscilam entre o sonho e o pesadelo, e não há como determinar quando um se transforma no outro. Na maior parte do tempo, esses dois avatares coabitam, embora em diferentes níveis de consciência. No cenário da vida moderna, os relacionamentos talvez sejam os representantes mais comuns, agudos, perturbadores e profundamente sentidos da ambivalência. É por isso, podemos garantir, que se encontram tão firmemente no cerne das atenções dos modernos indivíduos-por-decreto, e no topo de sua agenda existencial”.(Autor: Zygmunt Bauman – Livro Amor Líquido – Ed.Zahar – 2004).

O mundo de hoje parece estar conspirando contra a confiança. A confiança deve continuar sendo uma frente natural da “expressão soberana da vida”, entretanto agora procura desesperadamente um lugar para lançar âncora. A confiança foi relegada a uma vida cheia de frustração. Pessoas sozinhas, individualmente ou em conjunto freqüentemente deixam de compensar a devoção. É raro serem modelos de coerência e continuidade em longo prazo. A experiência individual aponta obstinadamente para o EU como o eixo mais provável da duração e da continuidade procuradas com tanta avidez.

Em nossa sociedade supostamente adepta da reflexão, não é provável que se reforce muito a confiança. Um exame equilibrado dos dados fornecidos pelas evidências da vida sinaliza na direção contrária, mostrando repetidamente a perpétua inconstância das regras e a fragilidade dos laços. Talvez isso significa que a decisão de investir as esperanças da moralidade, na tendência endêmica à confiança nos outros teria sido invalidada pela incerteza endêmica, que satura os dias de hoje.

“Na ausência de conforto existencial, agora nos decidimos pela segurança, ou pela aparência de segurança, escrevem os organizadores da Hedgehog Review na introdução de um número especial dedicado ao medo. O solo sobre o qual nossas expectativas de vida têm de se apoiar é reconhecidamente instável – tal como nossos empregos e as empresas que os oferecem, nossos parceiros e redes de amizade, a posição que ocupamos na sociedade e a autoestima e a autoconfiança dela decorrentes. O “progresso”, que já foi a mais extrema manifestação de otimismo radical, promessa de felicidade universalmente compartilhada e duradoura, deslocou-se para o pólo de previsão exatamente oposto, não tópico e fatalista. Agora significa uma ameaça de mudança inflexível e inescapável que pressagia não a paz e o repouso, mas a crise e a tensão continuas, impedindo qualquer momento de descanso; uma espécie de dança das cadeiras em que um segundo de desatenção resulta em prejuízo irreversível e exclusão inapelável”.  (autor:Zygmunt Bauman -  Livro: Vida Líquida – Ed. Zahar – 2009 ).

A exclusão social é a chaga não só de nosso Brasil, mas de todo o mundo. É importantíssimo trabalharmos pela paz. É obrigação nossa contrabalançar os efeitos danosos de multidões em desarmonia e confusas, que causam malefícios a si e aos outros. Muitas pessoas trabalham pela paz e não se deixam esmorecer. Devemos vivenciar a paz em nossos relacionamentos, pensando no mundo todo, sem cansar, trabalhando de todas as formas possíveis. É fundamental viver a paz consigo mesmo para motivar as outras pessoas, acreditando que é possível praticá-la.

Nós precisamos aprender como colocar o bem-estar da família humana acima de qualquer grupo específico. A fome e o sofrimento devem ser aliviados, da mesma forma que o medo e o ódio. Nosso problema nacional número um é o ajustamento de nossa economia a uma situação de paz. Precisamos de ministério da paz em nosso governo para realizar, estudar, concentrar-se em pesquisas sobre maneiras pacíficas de resolver conflitos. Quando inspiramos uma pessoa, ela tende a agir de acordo com seus instintos mais elevados, sensível e racionalmente.

“Podemos afirmar que a variedade moderna de insegurança é caracterizada distintivamente pelo medo da maleficência e dos malfeitores humanos. Ela é desencadeada pela suspeita em relação a outros seres humanos e suas intenções, e pela recusa em confiar na constância e na confiabilidade do companheirismo humano, e deriva, em última instância, de nossa inabilidade ou indisposição para tornar esse companheirismo  duradouro e seguro, e portanto confiável. Castel atribui à individualização moderna a responsabilidade por esse estado de coisas; sugere que a sociedade moderna, tendo substituído as comunidades e corporações  estreitamente entrelaçadas, que no passado definiam as regras de proteção e monitoravam sua aplicação pelo dever individual  do interesse, do esforço pessoal e da auto-ajuda, tem vivido sobre a areia movediça da contingência. Numa sociedade assim, os sentimentos se insegurança existencial e os temores disseminados de perigos generalizados são inevitavelmente, endêmicos. (Autor: Robert Castel – Livro – L’Insécurité – 2003 ).

A recusa em confiar na constância e na confiabilidade do companheirismo humano, deriva da inabilidade ou indisposição para tornar esse companheirismo duradouro e seguro, portanto, confiável. A impotência socialmente induzida não garante de maneira alguma a individualidade de fato, e muitos  careciam dos recursos para estudarem, então surgiu o medo da inadequação, que se tornou doença universal. A modernização contínua esticou suas renovações além da capacidade individual das pessoas.


A competição substituiu a solidariedade, os indivíduos se vêem abandonados aos seus próprios recursos que são mínimos, Robert Castel assinala o retorno das classes perigosas, que são constituídas do excedente populacional temporariamente excluído, e ainda não reintegrados. A interpretação social sadia seria a expectativa que no devido curso, eles seriam reintegrados, seu ressentimento se dissiparia e seus interesses na ordem social seriam restaurados. Entretanto a irrevogabilidade de sua exclusão e a fragilidade de pedir ajuda é que transformou os excluídos contemporâneos em classes perigosas. A incompetência para compreender a exclusão demonstra a decomposição do Estado Social que não consegue saná-la, pois deveriam ser reeducados, reabilitados e reenviados à comunidade. 

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