REGINA DINIZ
Karl Marx censurou os economistas
da época pela falácia do “fetichismo da mercadoria”: o hábito de por ação ou
omissão, ignorar ou esconder a interação humana por trás do movimento das
mercadorias. Como se estas, travassem relações entre si a despeito da mediação
humana. A descoberta da compra e venda da capacidade de trabalho como a
essência das “relações industriais”
ocultas no fenômeno “da circulação de
mercadorias”, insistiu Marx, foi tão chocante quanto revolucionária: um
primeiro passo rumo a restauração da substância
humana na realidade cada vez mais desumanizada da exploração
capitalista. A “subjetividade” dos consumidores é feita de opções de compra -
opções assumidas pelo sujeito e seus potenciais compradores; sua descrição
adquire a forma de uma lista de compras.
Então o que se deduz ser a
materialização da verdade interior do eu é uma idealização dos traços
materiais das escolhas do consumidor.
Quando chegarmos a nove bilhões de pessoas no planeta, que é para onde estamos
indo, aí o sonho americano está morto, porque não há como 9 bilhões de pessoas
viverem assim. Isso não significa, que não podemos vivê-lo por um tempo, mas no
fim das contas, o sistema irá quebrar, devido ao nível de desigualdade que é
necessário parta sustentá-lo.
Os nossos tempos nada tem a ver
com qualidade de vida. Na maioria dos casos estamos infelizes e a vida não está
melhorando para as pessoas ricas do mundo, aí procuramos nos distrair. O clima
está mudando, a economia não está mais funcionando, estamos afogados em dívidas,
a crise dos alimentos está piorando, o preço do petróleo só faz subir. O que
estamos vendo é todo um si8stema em colapso. Temos uma escassez de recurso0s
para continuar este tipo de vida. Não
ficamos mais felizes comprando coisas. O nosso desenvolvimento foi longe
demais, e ainda não o modificamos. Ainda somos dependentes dessa idéia central.
(Autor: Paul Gilding – Livro:
A Grande Ruptura).
Porque precisamos de coisas e
coisas? Todos teremos jatinhos? Todos teremos mansões? A característica mais
proeminente da sociedade de consumidores – ainda que cuidadosamente disfarçada
– é a transformação dos consumidores em mercadorias; Afogado no mar das
mercadorias conforme os esclarecimentos de Georg Simmel, os diferentes
significados das coisas, “e portanto as próprias coisas, são vivenciados como
imateriais”, aparecendo “num tom uniformemente monótono e cinzento” – flutuando
na corrente constante do dinheiro. A tarefa dos consumidores é sair dessa
invisibilidade cinza e monótona, destacando-se da massa de objetos indistinguíveis
e assim aparecer gloriosamente vivos.
Não existe qualquer evidência de
que, com o crescimento do volume geral (ou médio) de consumo o número de pessoas,
que afirmam que “se sentem felizes” também vá aumentar. Andrew Osvald, do
Financial Times insinua que a tendência oposta tem mais probabilidade de ser
registrada. Sua conclusão é que os moradores de países prósperos e bastante
desenvolvidos, com economias orientadas para o consumo, não se tornaram mais
felizes ao ficarem mais ricos. Por outro lado, também se deve notar que os
fenômenos e causas negativas do desconforto e da infelicidade tais como
estresse ou depressão, jornadas de trabalho prolongadas e antissociais,
relacionamentos deterioradas, falta de autoconfiança e incertezas enervantes sobre estar estabelecido de
maneira segura e “ter razão”, tendem a crescer com frequência, volume e
intensidade.” (Auto: Zygmunt Bauman – Livro: Vida para o consumo
Ed. Zahar – 2008 – Rio de
Janeiro.).
O triunfo do consumismo
desenfreado e individualizante sobre a
“economia moral” e a solidariedade social não foi uma conclusão precipitada.
Uma sociedade pulverizada em indivíduos solitários e famílias (em fragmentação) não poderia ter
sido construída sem que primeiro
Margareth Thatcher esvaziasse por completo o local da construção. Desabilitou as
associações de autodefesa daqueles que precisavam de uma defesa coletiva.
MargarethThatcher transformou
muitas expressões de solidariedade
desinteressada em crimes passíveis de punição; Desregulamentou o pessoal que
trabalhava em fábricas e escritórios, que antes eram estufas de solidariedade
social, transformando-o num agregado de indivíduos mutuamente suspeitos, competindo
ao estilo “cada um por si e o diabo contra todos, “completando o trabalho de
transformar os direitos universais de cidadãos altivos em estigmas de
indolentes ou proscritos acusados de viver “à custa do contribuinte”. As
inovações de Thatcher não apenas sobreviveram a muitos anos de governos
sucessivos – elas permaneceram pouco questionadas e quase intactas.
No momento, temos crescimento
econômico em algumas partes do mundo, mas a desigualdade piora. É evidente que
em algum momento, os mais pobres vão ficar furiosos e destronarão os ricos,
como vimos no Oriente Médio durante a Primavera Árabe. Não há como ter uma
sociedade forte com tanta desigualdade, que não aumenta a igualdade entre todas
as pessoas. Se isso acontecer 9 bilhões
de pessoas irão viver esse estilo de vida, voltado ao acúmulo material, o que
vai contra as leis da física quanto à disponibilidade de recursos. Não iremos
melhorar enquanto não aceitarmos esta situação. Já dá para afirmar que o
sistema está em colapso, mas nós ainda negamos isso.
O filósofo estoico Marco Aurélio,
cita alguns princípios que podem ser escolhidos por todos “sem qualquer
desculpa de falta de talento ou
aptidão”: integridade, dignidade, trabalho duro, abnegação, contentamento, frugalidade,
gentileza, independência, simplicidade, discrição, magnanimidade. “Lembre-se de
que sua mente reguladora
se torna invencível, quando se
recolhe à sua própria auto-suficiência.
A mente livre de paixões é uma fortaleza: não há lugar mais forte para
as pessoas se recolherem”.
Marco Aurélio cita o caráter e a
consciência pessoais como derradeiro refúgio das pessoas em busca da
felicidade: o único lugar em que os sonhos de felicidade, não tendem a serem
frustrados. A receita da felicidade oferecida por Marco Aurélio é autossuficiente
e auto-referencial. Ele afirma: “Conheça as falsas trilhas, evite-as, aceite os
limites impostos pela natureza e dos
quais ela não vai recuar. Para as paixões temos a nossa mente, uma arma
poderosa para desqualificar as paixões e tirar-lhes o poder. O segredo de uma
vida feliz é dar rédeas livres para sua mente”.
Todos nós desejamos a felicidade
e isto significa que cada um de nós, considera a busca da felicidade como nosso
desafio e tarefa , façamos dela nossa estratégia de vida. Minha busca de felicidade pode se concentrar
na preocupação com meu próprio bem estar, ou na preocupação com o bem-estar dos
outros. Preocupar-se com o bem-estar de um Outro, “Ser Bom” para um Outro,
também reforça o sentimento de estar bem. A evolução física, intelectual e
emocional requer nosso envolvimento construtivo com outras pessoas.
Praticando a solidariedade
incondicionalmente a vida nos parecerá mais suave e as recompensas serão muitas
e de longo alcance. O amor solidário é a força fundamental que conserva juntos,
a família, a sociedade e os amigos. O desejo de fusão interpessoal, de encontro
entre as pessoas é o mais poderoso anseio do homem. O conceito da ética pode
ser sintetizado em estimular a fraternidade, que é o que há de melhor no ser
humano. Aprendemos quem somos graças ao nosso envolvimento com os outros.

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