REGINA DINIZ
Uma grande transformação foi
feita pelo Dr. Denis Mukwege, quando resolveu criar em 1999, o Hospital de
Panzi, na república do Congo. Uma grande mudança foi liderada por Mary
Robinson, na Irlanda, no início dos anos de 1990, e levou o país a uma década
vertiginosa de desenvolvimento. Uma grande renovação para a democracia conduziu
Václav Havel, tal qual uma obra de arte, na República Theca, na chamada
revolução de Veludo. Na América Latina, talvez não haja uma grande inovação
como a feita pelo Chile contemporâneo, rumo a uma economia aberta e
desenvolvida. Na Ásia, o maior exemplo vem da Coréia do Sul, que, em quatro
décadas, se tornou uma potência tecnológica e um país modelo em termos de
educação (Autor: Fernando Schüler – Jornal Zero Hora –Porto Alegre – Fronteira
do Pensamento – 2016).
Em meio à “guerra digital”, a
transparente banalização das relações humanas e da cultura, nesta “civilização
do espetáculo” como bem define Vargas Llosa, não é hora de apostarmos na grande
arte, na criação estética, na possibilidade do diálogo intelectual e no
esclarecimento público? Tudo mudou no século XX. O século da vertigem, inaugurando
pela onda de inovações da segunda revolução industrial. O século da imagem em
movimento, da suprema aceleração que levou o homem do 14 Bis à conquista da Lua
em inacreditáveis 63 anos. Dos anos de 1960, herdamos a revolução cultural. A
ruptura definitiva produzida pela marcha dos direitos civis, a emancipação
feminina e a emergência do que o sociólogo Anthony Giddens chamou de “sociedade
reflexiva”. Qualquer cronologia, nesse âmbito é precária.
Quem sabe o maio de 68, a
“revolução de tudo e de coisa nenhuma”, o mito fundador em forma de flash mob,
a erupção do happening, da arte pop, “aldeia global” e da “cultura de mídia”
promovida pela divisão...A revolução cultural prefaciou o grande processo de
integração econômica dos de 1980, o amplo progresso das democracias nos anos de
1990, e o avanço exponencial da computação e logo, da internet nestas últimas
três décadas. Vem daí a “grande passagem” da escassez à abundância.
O mundo dos universais: acesso
universal à educação, à conectividade, a um nível básico de dignidade pessoal,
como sugerem as recém-anunciadas metas para o desenvolvimento sustentável da
ONU para 2030? O Brasil indiscutivelmente, precisa de uma grande virada,
admitindo que educar a população é uma obra distinta e nobre, necessária e
desafiadora, urgente e complexa. Requer determinação e clareza, disposição para
acolher diferenças, potencialidades e fragilidades. Implica respeito por
tradições e expressos culturais, particulares e regionais.
A Constituição Federal afirma que
a União, os Estados, o Distrito Federal e os municípios organizarão, em regime
de colaboração, os respectivos sistemas de ensino (Srt.211 enquanto a de
Diretrizes e Bases da Educação Nacional assegura que unidades escolares terão “progressivos
graus de autonomia pedagógica e administrativas e de gestão financeira
(Art:15). Não seria salutar garantir a progressiva autonomia dos sistemas e
unidades de ensino?
Uma sociedade mais educada e
culta tende a incorporar comportamentos mais evoluídos. Também eleva seu padrão
na escolha do sistema político e de seus representantes. São aprimorados os
conceitos de cidadania e o resultado final deve ser o mais próximo possível de
um objetivo comum para todos. Um modelo bastante razoável é aquele em que o
exercício político está alinhado com os interesses da comunidade, ali representados
por cidadãos. Nessa linha, fica evidente que não se pode exigir de políticos
aquilo, que não é ofertado ao cidadão.
Exigir formação acadêmica e
conhecimento cultural avançado como requisito para a vida pública é excluir
mais uma vez aqueles já prejudicados pelas precárias políticas públicas. A
qualificação da representação parlamentar deve ser consequente à prioridade da
educação em todos os seus níveis. A valorização dos trabalhos dos professores e
a consciência da sociedade sobre a necessidade de educar com princípios e
valores que motivem e preparem para a vida.
É imprescindível que haja vontade
política e determinação autêntica em benefício de educação e cultura, sob pena
de exacerbação do caos e da deterioração de toda uma sociedade. O
desenvolvimento do conhecimento, o incentivo à reflexão e ao pensamento crítico
e a ênfase em conceitos de integridade e dignidade podem transformar e
fortalecer todas as futuras gerações, amortizando o impacto desses dias turbulentos
e caóticos, hoje vivenciados em função de corrupção, violência e inépcia.
Indivíduos capacitados e
conscientes podem mobilizar uma sociedade para o progresso e, inclusive,
representá-la na vida pública. Não é justo que o estudo e a educação sejam
privilégios, pois são direitos que devem ser assegurados para sustentar o
presente e permitir o futuro. As crianças precisam ter a oportunidade de se
conhecer para perceber seus talentos, fazer as suas próprias escolhas e
perseguir seus sonhos e interesses.

Nenhum comentário:
Postar um comentário