sexta-feira, 30 de setembro de 2016

EDUCAR A POPULAÇÃO É UMA OBRA DISTINTA, NECESSÁRIA, URGENTE, NOBRE, E COMPLEXA



REGINA DINIZ

Uma grande transformação foi feita pelo Dr. Denis Mukwege, quando resolveu criar em 1999, o Hospital de Panzi, na república do Congo. Uma grande mudança foi liderada por Mary Robinson, na Irlanda, no início dos anos de 1990, e levou o país a uma década vertiginosa de desenvolvimento. Uma grande renovação para a democracia conduziu Václav Havel, tal qual uma obra de arte, na República Theca, na chamada revolução de Veludo. Na América Latina, talvez não haja uma grande inovação como a feita pelo Chile contemporâneo, rumo a uma economia aberta e desenvolvida. Na Ásia, o maior exemplo vem da Coréia do Sul, que, em quatro décadas, se tornou uma potência tecnológica e um país modelo em termos de educação (Autor: Fernando Schüler – Jornal Zero Hora –Porto Alegre – Fronteira do Pensamento – 2016).

Em meio à “guerra digital”, a transparente banalização das relações humanas e da cultura, nesta “civilização do espetáculo” como bem define Vargas Llosa, não é hora de apostarmos na grande arte, na criação estética, na possibilidade do diálogo intelectual e no esclarecimento público? Tudo mudou no século XX. O século da vertigem, inaugurando pela onda de inovações da segunda revolução industrial. O século da imagem em movimento, da suprema aceleração que levou o homem do 14 Bis à conquista da Lua em inacreditáveis 63 anos. Dos anos de 1960, herdamos a revolução cultural. A ruptura definitiva produzida pela marcha dos direitos civis, a emancipação feminina e a emergência do que o sociólogo Anthony Giddens chamou de “sociedade reflexiva”. Qualquer cronologia, nesse âmbito é precária.

Quem sabe o maio de 68, a “revolução de tudo e de coisa nenhuma”, o mito fundador em forma de flash mob, a erupção do happening, da arte pop, “aldeia global” e da “cultura de mídia” promovida pela divisão...A revolução cultural prefaciou o grande processo de integração econômica dos de 1980, o amplo progresso das democracias nos anos de 1990, e o avanço exponencial da computação e logo, da internet nestas últimas três décadas. Vem daí a “grande passagem” da escassez à abundância.

O mundo dos universais: acesso universal à educação, à conectividade, a um nível básico de dignidade pessoal, como sugerem as recém-anunciadas metas para o desenvolvimento sustentável da ONU para 2030? O Brasil indiscutivelmente, precisa de uma grande virada, admitindo que educar a população é uma obra distinta e nobre, necessária e desafiadora, urgente e complexa. Requer determinação e clareza, disposição para acolher diferenças, potencialidades e fragilidades. Implica respeito por tradições e expressos culturais, particulares e regionais.

A Constituição Federal afirma que a União, os Estados, o Distrito Federal e os municípios organizarão, em regime de colaboração, os respectivos sistemas de ensino (Srt.211 enquanto a de Diretrizes e Bases da Educação Nacional assegura que unidades escolares terão “progressivos graus de autonomia pedagógica e administrativas e de gestão financeira (Art:15). Não seria salutar garantir a progressiva autonomia dos sistemas e unidades de ensino?

Uma sociedade mais educada e culta tende a incorporar comportamentos mais evoluídos. Também eleva seu padrão na escolha do sistema político e de seus representantes. São aprimorados os conceitos de cidadania e o resultado final deve ser o mais próximo possível de um objetivo comum para todos. Um modelo bastante razoável é aquele em que o exercício político está alinhado com os interesses da comunidade, ali representados por cidadãos. Nessa linha, fica evidente que não se pode exigir de políticos aquilo, que não é ofertado ao cidadão.

Exigir formação acadêmica e conhecimento cultural avançado como requisito para a vida pública é excluir mais uma vez aqueles já prejudicados pelas precárias políticas públicas. A qualificação da representação parlamentar deve ser consequente à prioridade da educação em todos os seus níveis. A valorização dos trabalhos dos professores e a consciência da sociedade sobre a necessidade de educar com princípios e valores que motivem e preparem para a vida.

É imprescindível que haja vontade política e determinação autêntica em benefício de educação e cultura, sob pena de exacerbação do caos e da deterioração de toda uma sociedade. O desenvolvimento do conhecimento, o incentivo à reflexão e ao pensamento crítico e a ênfase em conceitos de integridade e dignidade podem transformar e fortalecer todas as futuras gerações, amortizando o impacto desses dias turbulentos e caóticos, hoje vivenciados em função de corrupção, violência e inépcia.

Indivíduos capacitados e conscientes podem mobilizar uma sociedade para o progresso e, inclusive, representá-la na vida pública. Não é justo que o estudo e a educação sejam privilégios, pois são direitos que devem ser assegurados para sustentar o presente e permitir o futuro. As crianças precisam ter a oportunidade de se conhecer para perceber seus talentos, fazer as suas próprias escolhas e perseguir seus sonhos e interesses.



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