REGINA DINIZ
“A mais macabra efeméride
literária deu-se a 7 de janeiro de 2015, quando Michel Houellebecq lançou seu
romance Submissão. Naquele dia, charge sua estampava a capa de revista Charlie
Eebdo em que ele dizia: “Em 2015 eu
perco os meus dentes, em 2022 eu faço Ramadã”. Às 11 horas e 30 minutos da
manhã daquele dia fatídico, enquanto o
autor ainda concedia entrevistas,
ocorreu o atentado à revista e as perseguições, que deixaram 11 vítimas fatais.
Tinha início a mais recente temporada de ataques terroristas contra Paris: em
23 de novembro do mesmo ano, mais 130 vítimas. Se alguém nasceu para ser polemista,
impossível cenário com maior carga dramática.
Mas não é por isso que alguém
encontrará Houellebeq, em livros e sim para pensar junto com um autor de
expressão de inteligente, elegante e cínica, com os olhos para o cotidiano de
mesquinharias que marca a intimidade do homem urbano. A prosa cética de
Houellebecq demonstra o lustro de narcisismos
cevados do imaginário da alta cultura européia, e fustiga, com essencial
perícia, o pequeno burguês, alvo histórico da literatura francesa, desde
Moliére e seu Burguês fidalgo, escrito em 1670.
Não á toa, Houllebecq é um dos
autores franceses mais lidos e traduzidos da atualidade, merecedor do prêmio
Gancourt de 2010, por seu O mapa e o
território e o território, onde a trama segue a vida de um artista, Jed Martin,
e disseca o mercado da arte e alta sociedade francesa. Outros quatro livros
completam a sua estante: Extensão do domínio da luta,
Partículas Elementares, Plataforma e a possibilidade de uma ilha.
Em submissão Houellbecq expõe em
primeira pessoa o pensamento e a saga de um professor da Universidade Paris,
especializado na obra do romancista francês J. K. Hwysmans (1848 – 1907)
desencantado com sua condição de decadente e solitário. O coração do livro, todavia é a ficção política
projetada para 2022, quando um candidato da União da Fraternidade Muçulmana,
apoiado pela esquerda e pela direita, vence a eleição presidencial francesa e
inicia um programa maometano de reformas
transformando a pátria do laicismo contemporâneo em uma teocracia islâmica.
Isso significa poligamia,
sujeição feminina, banimento dos professores ateus em prol dos fiéis e a
expansão da França para o Mediterrâneo, integrando-a aos
regimes islâmicos do norte africano e dando a esta a liderança de um novo
império europeu. Ironia das ironias, este destino reverte o feito épico de que
há séculos se ufanam os franceses: a vitória de Carlos Martel na batalha de
Poitiers, em 10 de outubro de 731, que barrou o avanço omíada na Europa
medieval e manteve o islã confinado na península ibérica.
Voltando àquele dia de janeiro,
em que à sombra desse livro perturbador o periódico iconoclasta banhou-se em
sangue evidenciaram-se a gravidade do conflito e, uma vez mais, o drama vivido
na França e no mundo. Separados por um oceano e muitas distâncias históricas,
que não sentimos tão intensamente o peso deste conflito entre islã a Ocidente
cristão (incluindo-se ateus e judeus, mas não sabemos que é um dos principais
problemas da era atual juntamente com a degradação ambiental e os exageros do
capitalismo globalizado.
A angustia histórica (“onde vamos
parar?”) ora não necessita de Sófocles, Shakespeare ou Sartre para ocupar a
cena cotidiana e pautar nossa reflexão. Melhor então que façamos com a
inteligência de bons autores, como Houellebecq, e melhor ainda se o drama
passar-se apenas em uma ficção especulativa, preocupante mas bela, como
concerto de idéias e paradoxos da civilização atual. (autor: Francisco
Marshall, Historiador e arqueólogo, professor do Departamento de
História e arqueólogo, professor do
Departamento de História da UFRCS – 2016 –
Fronteiras do Pensamento.
Paris, 2022: François,
investigador, universitário, cumpre desapaixonadamente o ofício do ensino
enquanto leva uma vida calma e impermeável a grandes
dramas, uma rotina de quarentão ocasionalmente inflamada pelos
relacionamentos passageiros com mulheres
cada vez mais jovens. É também com
indiferença que vai acompanhando os acontecimentos políticos de seu país. Às
portas das eleições presidenciais a
França está dividida. O .recém criado, partido da Fraternidade Muçulmana conquista cada vez mais simpatizantes, graças
ao seu carismático líder, numa disputa direta com a Frente Nacional.
O país obcecado por reality show
e celebridades acorda por fim e toma de assalto as ruas de Paris: somam-se os
tumultos, os carros incendiados, as mesas de votos destruídas. Afastado da
uni versidade pela nova direção,
deprimido, François retira-se no campo, onde espera deixar de sentir as ondas
de choque da capital. Regres-sa à Paris poucos dias depois de
desfecho eleitoral e encontra um país que já não reconhece. É tempo de
questionar-se sobre se deve e pode submeter-se à nova ordem.
O livro submissão convida a uma reflexão sobre o convívio e conflito entre
culturas e religiões, sobre a relação entre Ocidente e Oriente, sobre a relação
entre cidadãos e instituições. Um romance que, como é habitual na obra do
autor, adianta-se a seu tempo e coloca questões prementes, hoje mais relevantes
do que nunca.
Michell Houellebecq confirma-se
nestas páginas como um pensador temerário, capaz de detectar as grandes tensões
de nosso tempo, interpretando-as com lúcida ironia. Uma fábula política e moral
surpreende, Submissão é o romance mais visionário e simultaneamente mais
realista de Michel Houellebecq.
Como sempre Michel Houellebec
desenvolve temas candentes e fá-lo de uma forma clara e acessível a todos os
públicos. Desta vez, a-nalisa o peso cada vez maior do islamismo na Europa e em
França, em particular. A prova da atualidade desta obra é a coincidência do seu lançamento em França no mesmo
dia em que se deu o ataque ao Charlie
Hebdo. O autor especula sobre a possível eleição para presidente um muçulmano e
das suas consequências. Eu que gosto de ler ficção científica e utopia, vibrei
com esta leitura, pelo seu realismo e franca probabilidade de vir a acontecer,
quem sabe se não mais cedo do que o previsto do livro 2022.
Na verdade, as guerras nos países
de tradição islâmicas estão a provocar uma fuga maciça de refugiados para a Europa que, logicamente,
continuam a praticar a religião em que
foram criados, e vem aumentar drasticamente a percentagem de crentes do islamismo no espaço europeu,
que já não era pequena. Por outro lado, o descrédito cada vez maior nos
partidos tradicionais de centro esquerda
e centro direita, que tem alternado o poder nas últimas dé cadas, está a criar uma
deslocação dos eleitorados para as franjas e a permitir a emergência e
crescimento de partidos que, até há pouco tempo, ninguém pensava, que alguma
vez teriam qualquer expressão significativa.

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