Martha C. Nussbaum, filósofa
norte-americana, é uma influente intelectual da atualidade nos Estados Unidos. Seu
trabalho é reconhecido por reunir estudos dos clássicos da antropologia, da
psicanálise e da sociologia, na busca por eudaimonia, palavra originada do
grego que representa uma vida plena e próspera. Entre
as consagrações recebidas
estão o Premio Kijoto e a dotação Nacional para as Humanidades, honra concedida
pelo governo dos Estados Unidos. Em 2004 juntamente com o Premio Nobel de
economia Amartya Sen, fundou a Associação para o Desenvolvimento e Capacidade
humanos.
A filósofa e
classista norte-americana Martha Craven Nusbaum despontou para a consagração
internacional em 1986 com o livro ’’The fragility of goodness’’. Nas mais de
500 páginas deste tratado, Nussbaum examina tragédias gregas de Esquilo – Os
sete contra Tebas e Agamemnon-, Sófocles – Antigona – e Eurípides, Hécuba e
outras obras de Platão; Protágoras, República, banquete e Fedro, e Aristóteles
– Ética a Nicomano, Política, Poética e Retórica, em busca de argumentos para
examinar ética, razão, destino e felicidade. É obra de grande folego , que
Camille Paglia apontou como uma das mais altas realizações acadêmicas do século
20.
Publicado no
Brasil como ‘’ A fragilidade da bondade, o tratado examina respostas gregas
para os desafios éticos de se construir uma boa vida por meio de boas escolhas,
diante de ameaças do des-tino que ultrapassam nossa capacidade de controle e
provocam crises angustiantes. Os impasses da tragédia grega, aponta, levam a dilemas
em que os imperativos da práxis se impõem e exigem o cumprimento de deveres
éticos na esfera pública, com o que o leitor espectador encontra um amparo para
compreender as difíceis escolhas que a vida impõe, e a eventual falta de
soluções positivas.
Após
examinar tragédias, a vencedora do premio Kijoto em 2016 - a mais alta honraria japonesa – vale-se do
idealismo racionalista de Platão para contrastar o otimismo da filosofia diante
do peso da fortuna. Ao final, a filósofa, hoje professora de Lei e Ética na
Escola de Direito da universidade de Chicago, segue os passos de Aristóteles
para reconhecer o poder do destino trágico, ameaçando a vida mesmo que esta
possa guiar-se pela brusca prudente da felicidade, eudaimonia, mediante boas
escolhas, a grande meta da filosofia grega em sua era de maturidade.
A humanidade
vive, hoje, um momento de sua história marcado por grandes transformações. Em
‘’Sem fins lucrativos’’; por que a democracia precisa das humanidades. Martins Fontes – 2015, a filósofa
norte-americana Martha Nussbaum defende que a educação precisa resistir as
tentativas de reduzir o ensino a uma ferramenta do Produto Interno Bruto.
Lançada após a crise de 2008, em que diversos países do mundo cortaram verbas
da cultura e das artes, a obra foi escrita como um manifesto de alerta sobre os
objetivos mais profundos da educação. Martha Nussbaum afirma que priorizar aplicações
técnicas, em detrimento das humanidades, as democracias ocidentais solapam os
próprios fundamentos e aproximam-se do modelo cultural de regimes autoritários
como China e Cingapura.
A principal
advertência de Nussbaum, professora da Universidade de Chicago conhecida pelos
trabalhos sobre ética e identidade, é que os sistemas democráticos não
sobrevivem sem o estímulo á imaginação e ao pensamento crítico, faculdades que
segundo ela, são desenvolvidas de modo crucial [ainda que não exclusivo] pela
arte e filosofia. No centro desse argumento está a noção de imaginação
empática, a capacidade de colocar-se no lugar do outro que, para Nussbaum, é
uma condição para a construção de sociedades solidárias.
Atravessamos
uma crise de grande amplitude e de grande envergadura internacional. Não falo
da crise econômica mundial iniciada em 2008; falo da que, apesar de passar
despercebida, se arrisca a ser muito mais prejudicial para o futuro da
democracia; a crise planetária da educação. Profundas alterações estão sendo produzidas
naquilo que as sociedades democráticas ensinam aos jovens e ainda não lhe
aferimos o alcance. Ávidos de sucesso econômico os países e os seus sistemas
educativos renunciam imprudentemente a competência que são indispensáveis a
sobrevivência das democracias.
Se a
tendência persistir, em breve, haverá pelo mundo inteiro gerações de máquinas
úteis, dóceis e tecnicamente qualificadas, em vez de cidadãos realizados,
capazes de pensar por si próprios, de colocar em causa a tradição e de
compreender o sentido do sofrimento e das realizações dos outros. A verdade é
que as humanidades e as Artes perdem terreno sem cessar, tanto no ensino
primário e secundário como na universidade, em quase todos os países do mundo.
Consideradas pelos políticos acessórios inúteis, em uma época em que os países
precisam se desfazer do supérfluo para continuarem a ser competitivos no
mercado mundial, estas disciplinas desaparecem em grande velocidade dos
programas letivos, mas também do espírito e do coração dos pais e das crianças.
Aquilo que poderíamos chamar
de aspectos humanistas da ciência e das ciências sociais está igualmente em
retrocesso, já que os países preferem o lucro de certo prazo, através de
competências úteis e Contudo, para ser cidadão responsável, necessita de algo
mais; de ser capaz de avaliar os dados históricos, de manipular os princípios
econômicos e de exercer o seu espírito crítico, de comparar diferen
tes concepções de justiça
social, de falar pelo menos uma língua estrangeira, de avaliar os
mistérios das grandes religiões do mundo. Ser capaz de se referenciar em
relação a um vasto leque de culturas, de grupos e de nações e a história das
suas interações, isso é que permite as democracias abordar, de forma
responsável os problemas com os quais se deparam atualmente. A capacidade que
quase todos os seres humanos, em maior ou menor grau – de imaginar as vivencias
e as necessidades dos outros deve ser amplamente desenvolvida e estimulada, se
queremos ter alguma esperança de conservar instituições satisfatórias,
ultrapassando as múltiplas clivagens que existem em todas as sociedades
modernas.
altamente
aplicadas, adaptadas a esse objetivo. Procuramos bens que nos protegem,
satisfazem e consolam – aquilo que Rabindranath Tagore chamava de nosso ‘’invólucro’’ material. Mas,
parecemos esquecer as faculdades do pensamento e da imaginação, que fazem de
nós humanos e das nossas interações – as relações empáticas que não são simplesmente
utilitárias.
Quando
estabelecemos contatos sociais, se não aprendermos a ver no outro um outro nós,
imaginando-lhe faculdades internas de pensamento e emoção, então a democracia é
deixada a má sorte, porque ela assenta precisamente no respeito e na atenção
dedicados ao outro, sentimentos que pressupõem que os encaremos como seres
humanos e não como simples objetos. As escolas e as universidades do mundo
inteiro tem, por conseguinte, uma tarefa imensa e urgente; cultivar nos
estudantes a capacidade de considerarem membros de uma nação heterogênea [todas
as nações modernas o são] e de um modo ainda mais heterogêneo, bem como uma
noção da história dos diferentes grupos que povoam.
Se o saber não é uma garantia
de boa conduta, a ignorância é que infalivelmente uma garantia de maus
procedimentos. A cidadania mundial implica realmente o conhecimento das
humanidades. O indivíduo necessita certamente de muitos conhecimentos factuais
que os estudantes podem adquirir sem formação humanista memorizando, nomeadamente
os fatos em manuais padronizados ]supondo
que não contém erros].

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