A DEFESA DO ENSINO E
DA VALORIZAÇÃO
DOS CONHECIMENTOS
HUMANISTAS
Regina Diniz
aum dos mais
importantes estudiosos da Renascença. ‘’ A utilidade do inútil’’, que ela
lançou em 2012 [ em 2016 no Brasil], é um best-seller global. ‘’Estamos
corrompendo os nossos jovens’’. Nuccio Or-dine conquistou algo raro para um
acadêmico; a admiração do público não especializado. É que o professor da
Universidade da Calábria tem talento para expressar idéias sofisticadas sem
fazer uso de jargão. Um exemplo está em A Utilidade do inútil [ Zahar, 244
páginas, traduzido para 20 idiomas, e lançado no Brasil em 2016, no qual
defende a importância do conhecimento que não tem necessariamente valor de
mercado; a arte, a filosofia, mas também a pesquisa científica sem aplicação
prática imediata.
Nuccio Ordine, o saber nos torna
livres e nos faz avançar como sociedade. Em setembro, quando esteve em Porto
Alegre, ele recebeu Zero Hora para uma conversa com mediação e tradução da
professora de Língua e Cultura Italiana Ana Boff de Godoy e do professor de
Filosofia Luiz Carlos Bombassaro tradutor de a utilidade do inútil. Cada vez
mais parece estar tomando forma a idéia de que o mercado é a principal
instituição que designa valor para as pessoas e as coisas. Como o senhor
analisa esse paradigma...
Creio que hoje assistimos a uma
ditadura do mercado. Em qualquer âmbito, em qualquer situação, em qualquer
momento da nossa vida, é preciso levar sempre em consideração a que serve,
quanto se ganha, qual é o proveito disso. Penso que esta lógica destruirá a
humanidade.
O capitalismo se transformou
muito nas últimas décadas. Hoje, temos um capitalismo ávido, que quer ganhar,
muito dinheiro em pouco tempo. Que não se preocupa mais com o ambiente, com o
crescimento da sociedade, com o avanço cultural e social dos funcionários que
não trabalham nas indústrias. Preocupa-se somente com o próprio ganho, sem
pensar no que acontecerá depois. Esse tipo de capitalismo pode se autodestruir.
Pense no caso da Volkswagen, que, para fazer mais dinheiro, modificou o
soltware de controle de emissão, violando a legislação dos EUA.
Para um salão de atos
absolutamente lotado, o professor, filósofo e crítico italiano NUCCIO ORDINE
ministrou na manhã de hoje a aula magna de abertura do semestre letivo na
UFRGS, com o tema ‘’ a utilidade é grande especialista na obra de Giordano
Bruno. É defensor do ensino e da valorização dos conhecimentos humanistas na
formação dos estudantes de qualquer ária, A escola e a universidade não podem
ser administradas como se fosse uma empresa. Quando um ramo de uma empresa não
produz, corta-se esse ramo. Nas universidades, pelo contrário, temos o dever de
manter vivas também as coisas que não dão lucros.
Há muitas línguas antigas no
mundo; sânscrito, latim, grego. Se em uma universidade há um professor que ensina sânscrito para dois alunos, o
reitor poderá dizer; ‘’Não podemos nos permitir, o luxo de pagar um
professor para dois alunos’’. Então, cortam o sânscrito. Mas amanhã cortaram o
latim e depois o grego, a filologia, a arqueologia. O que acontecerá no mundo
daqui cem anos, quando os últimos conhecedores de grego, latim e sânscrito tiverem morrido...
Frente a uma
descoberta arqueológica, ninguém mais saberá ler uma inscrição. É uma ameaça
terrível para a democracia e para a liberdade. Quando não conhecermos mais o
passado, quando tivermos apagado tudo o que veio antes. Viveremos sem memória.
E quem vive sem memória não pode entender o presente, nem o futuro. Outro tema
importante é que no Brasil, como na Europa, as primeiras duas palavras que o
estudante aprende na universidade são ’’débitos e créditos’’. Que o problema
está sendo criado... É que os estudantes se tornaram clientes das
universidades. E o que fazem os clientes... Compram o diploma. Isso é um erro
terrível.
As
universidades não são feitas para vender diploma, e sim para oferecer aos
estudantes, uma cultura que possa torná-los livres. O mesmo discurso vale para
os bens culturais. Na Itália os
ministros chamam nosso patrimônio monumental de ‘’petróleo do país’’. É uma
ofensa enorme que se faz ao Coliseu e a uma estátua de Michelangelo. Porque a
beleza é exatamente o contrário do petróleo.
A beleza não
pertence a ninguém. Chamamos esses monumentos de patrimônio da humanidade. O
coliseu não é italiano; é brasileiro também. Os monumentos de Palmira não são
da Síria; são de todo o mundo. A beleza ensina que o mais importante não é
possuir, mas fruir. Posso ficar feliz, apenas
por ter visto o quadro. As meninas de Velásquez, no Museu do Prado e
porque as levo para casa. Não são se combate a corrupção somente com boas leis
ou com magistrados. Combate-se educando os jovens pelo amor ao bem comum. Hoje,
damos aos jovens outras indicações. Dizemos; Pense em seu egoísmo. ‘’Pense no
seu egoísmo’’. Pense em fazer dinheiro. Matricule-se na universidade não para
aprende, mas para apresentar um diploma ao mercado.
Muitos jovens
não escolhem a universidade com base nas suas paixões. Todos dizem a eles;
Escolha a faculdade que vai lhe fazer ganhar dinheiro. É assim que estamos
corrompendo os jovens. Como mudar isso... Precisamos educar os jovens a resistir corrupção. Por isso, penso que a educação e a
saúde pública são dois pilares da sociedade. Vejamos o que está ocorrendo no
Brasil; milhões de pessoas estão abandonadas
a si mesmas,
sem educação, saúde, sem nada. Que percepção da vida pode ter uma criança que
nasce nessas condições. Que dignidade humana podemos garantir a ela... Não
podemos viver bem em um mundo no qual as desigualdades são tão terríveis e
fortes. Antes, existia uma classe média. Depois dessa crise, que é mundial, a
classe média está se tornando pobre. Estamos destruindo o futuro da humanidade.
‘’Não é um
balizamento, mas é uma reflexão que nós queremos colocar a toda nossa
comunidade universitária. Para tanto convidamos o Doutor Honoris Causa pela
UFRGS, Nuccio Ordine, que leva o nome da instituição não só a Universidade da Calábria, onde ele leciona, mas em tantos
centros de pesquisas dos quais faz parte. Essa conferencia é para vocês’’.
Afirmou.
O pensador
italiano abriu suas reflexões com críticas, a lógica de mercado, infiltrada no
ambiente acadêmico, em que estudantes também pressionados pelos contextos
sociais e econômicos, procuram a universidade unicamente interessados em sair
de lá com um diploma, um título. ‘’Não se pode aplicar a lógica de uma empresa
no gerenciamento das universidades e de modo mais amplo a educação. Estudantes
não podem ser considerados clientes. É uma aberração’’. E alertou para os
perigos que só o desprezo pelos saberes humanísticos, considerados inúteis, trazem à educação em geral aos bens
culturais, á pesquisa científica, ás escolas. Ás universidades.
Estaremos
destruindo nossas memórias, pois não seremos capazes de reconhecer as culturas
antigas, de interrogar o que nos cerca, até avançarmos para uma total amnésia.
É uma humanidade sem memória perde o senso de identidade, sentenciou ORDINE. Na
opinião do professor, a orientação utilitarista na academia se faz perceber
também na queda dos investimentos em pesquisas não ligadas a uma finalidade
imediata. A pesquisa básica, teórica, fundamental é preterida pela pesquisa
aplicada que é considerada mais digna de receber dinheiro, porque proporciona a
realização de um produto. Mas as grandes revoluções científicas na humanidade
foram possíveis a partir da inquietação que a pesquisa básica avaliou.

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