sábado, 1 de setembro de 2018

A JUSTIÇA E A SOLIDARIEDADE HUMANA



NUCCIO ORDINE fala da importância do ensino dos saberes humanistas, das artes, da música. Critica a busca do conhecimento unicamente guiada pela lógica do lucro e diz que o diploma não é produto, não se vende. Para um Salão de Atos, absolutamente lotado, o professor, filósofo e crítico italiano NUCCIO ORDINE ministrou na manhã de hoje a aula magna de abertura do semestre letivo na UFRGS com o tema ‘’A Utilidade dos saberes inúteis’’. ORDINE é um dos maiores conhecedores sobre a Renascença na atualidade e grande especialista na obra de GIORDANO BRUNO. É defensor do ensino e da valorização dos conhecimentos humanistas na formação dos estudantes de qualquer área.

A mesa de abertura do evento contou com o reitor CARLOS ALEXANDRE NETTO, e o vice-reitor RUI VICENTE 0PPERMANN e o professor LUIZ CARLOS BOMBASSARO. Após solicitar um mínimo de silencio pelo recente falecimento do pensador italiano UMBERTO ECO, o Reitor lembrou ao público que a Universidade está resgatando nos últimos anos a tradição das aulas magnas, trazendo oportunidade de grandes reflexões por ocasião da abertura do semestre. Não é um balizamento, mas é uma reflexão que nós queremos colocar a toda nossa comunidade universitária. Para tanto convidamos o Doutor Honoris Causa pela UFRGS, Nuccio Ordine, que leva o nome da instituição não só a Universidade da Calábria, onde ele leciona, mas em tantos centros de pesquisas dos quais faz parte.
  
O pensador italiano abriu suas reflexões com críticas a lógica de mercado, infiltrada no ambiente acadêmico, em que estudantes, também pressionados pelos contextos social e econômico, procuram a universidade unicamente interessados em sair de lá com um diploma, um título. Não se pode aplicar a lógica de uma empresa no gerenciamento das universidades e de modo mais amplo a educação. Estudantes não podem ser considerados clientes. É uma aberração. E alertou para os perigos que o desprezo pelos saberes humanísticos, considerados inúteis, trazem a educação em geral, aos bens culturais a pesquisa científica, as escolas, as universidades.
  
Estaremos destruindo nossas memórias, pois não seremos capazes de reconhecer as culturas antigas, de interrogar o que nos cerca, até avançarmos para uma total amnésia. E uma humanidade sem memória perde o senso de identidade, sentenciou ORDINE. Na opinião do professor, a orientação utilitarista na academia se faz perceber também na queda dos investimentos em pesquisas, não ligadas a uma finalidade imediata. A pesquisa básica, teórica, fundamental é preterida pela pesquisa aplicada, que é considerada mais digna de receber dinheiro, porque proporciona a realização de um produto. Mas as grandes revoluções científicas na humanidade foram possíveis a partir da inquietação da pesquisa básica´’, avaliou. A pesquisa básica, teórica, fundamental é preterida pela pesquisa aplicada, que é considerada mais digna de receber dinheiro, porque proporciona a realização de um produto. Mas as grandes revoluções científicas na humanidade foram possíveis a partir da inquietação da pesquisa básica, “avaliou’’.

Citando o desperdício de dinheiro causado pela corrupção e evasão fiscal na Itália, NUCCIO sustenta que está na educação um fértil caminho para o enfrentamento a crise econômica que assola várias nações, inclusive o Brasil. ‘Essa crise não é só econômica. Sobretudo é moral. Mas se tivermos uma formação do jovem que considera o bem comum, capaz de opor-se a lógica do lucro a todo preço, que não se deixa corromper, teremos uma economia potentíssima capaz de financiar a manutenção da reflexão, dos saberes considerados inúteis’’. Investir em instrução, na cultura, significa educar o jovem no respeito a justiça, a solidariedade humana, a tolerância, a democracia finalizou.


O professor defende a valorização dos conhecimentos não ligados diretamente ao alcance de resultados práticos, os chamados saberes “inúteis”, mas que são fundamentais para sedimentar as bases para um pensamento crítico da sociedade. Também desaprova o que chama de “empresariamento” do conhecimento científico, orientado pela lógica da produtividade extrema dentro do universo acadêmico. Para ele, essa prática ameaça a possibilidade de conceber a universidade como um lugar no qual se reflete, se ensina, se faz pesquisa. De acordo com o filósofo, a ótica utilitarista e do culto a posse acaba diminuindo a essência das pessoas, pondo em risco não só a cultura, a criatividade e as instituições de ensino, mas valores fundamentais como a dignidade humana, o amor e a verdade,
  
A necessidade de consumir um volume cada vez maior de informação é igualmente contestado pelo professor italiano, Para Nuciou, uma forma de combater a ansiedade causada pela falta de tempo para estar informado de tudo que nos rodeia é contrapor-se a velocidade – ‘’ imposta pela internet, pela comunicação, pelo lucro e pelo empresariamento exasperado’’ – e estabelecer uma ode a lentidão. Da mesma forma a educação, segundo NUCCIO, não pode se apoiar na ilusão de que prepara jovens exclusivamente para o mercado de trabalho, porque os cenários estão em transformação constante. Essas e outras reflexões serviram de base para compor seu mais recente livro, A Utilidade do inútil- um manifesto’’, recém lançado no Brasil pela Editora  Zahar , com tradução do professor da UFRRGS, Luiz Carlos Bombassaro . Nascido na cidade italiana de Diamante, em 1958, o professor de Teoria da Literatura na Universidade da Calábria é reconhecido internacionalmente como um expoente da crítica da cultura e um dos mais importantes estudiosos do Renascimento. Sua vasta produção bibliográfica  foi traduzida para inglês, japonês , francês, alemão, romeno e russo.

O Brasil é um país imenso que tem tudo, para ser bem-sucedido em termos de riqueza nacional. Mas isso não é suficiente para ser bem-sucedido em termos de riqueza nacional. Mas isso não é suficiente para fazer a prosperidade de um país. O exemplo extremo é a Rússia, que sem dúvida é o país mais rico do mundo, mas é um desastre. Do lado de vocês há a Venezuela, que repousa sobre um tesouro de petróleo e está falida. A riqueza não é suficiente. O Brasil é bem sucedido em alguns aspectos, mas, como você sabe melhor do que eu, há um problema político. O sistema político não avança, há uma corrupção horrível, as pessoas não confiam mais. Dentro deste contexto, é um país que tem uma cultura acolhedora e alegre, mas, ao mesmo tempo, vejo brasileiros muito estressados por causa das dificuldades da vida em um pais que poderia ser muito mais bem   do que ele é. Penso que no Brasil há todos os recursos para se desenvolver, mas de novo não basta apenas isso. Mesmo que o Estado e a política sejam menos importantes do que no passado, eles continuam essenciais, É preciso fazer reformas, é preciso justiça e elites políticas de talento. Acho que o problema do Brasil não é a economia. Em primeiro lugar, há um problema considerável no domínio da política e provavelmente também da justiça social, com desigualdades insuportáveis.
  
Isso é evidente. No Brasil, a 200 metros de uma favela há um condomínio de luxo. As desigualdades não são más, não sou contra elas, mas elas não podem paralisar um país. Penso que há um enorme trabalho a ser feito para que os brasileiros acreditem que o futuro é para eles que devem se esforçar, mas que haverá justiça e que a corrupção, que é um enorme problema, seja reduzida.    


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