REGINA DINIZ
De modo ideal, a ética é um código de leis
que prescreve o comportamento “universalmente’’ correto, isto é, para todas as
pessoas em todos os momentos. Trata-se daquele comportamento, que separa o bem
do mal para todos, de uma vez por todas. É por isso que a enunciação de
determinações éticas deve ser uma tarefa de pessoas especiais, como filósofos,
educadores e pregadores. A autoridade dos especialistas em ética é legislativa
e judiciária ao mesmo tempo. Os peritos proclamam a lei e julgam se suas
prescrições foram seguidas de modo fiel e correto. [ Autor; Zigmunt Bauman –
Livro; Vida em fragmentos – ano – 1925].
Pessoas
afundadas até as orelhas na luta diária pela sobrevivência nunca foram capazes
nem sentiram a necessidade de codificar sua compreensão do bem e do mal sob a
forma de um código de ética. Afinal, os princípios dizem respeito ao futuro – a
como esse futuro deveria ser diferente do presente. Por sua própria natureza,
os princípios se encaixam bem no indivíduo moderno emancipado, desencaixado,
auto-aprimorador, que arrancou do peito a preocupação apenas utilitária de se
alimentar, abrigar e calçar, e assim poderia dedicar seu tempo a
‘’transcender’’ tudo isso.
A lei local da
civilização ocidental que se autodenominou modernidade poderia ser articulada e
sentida como universalidade do abraço com que o ocidente envolveu o resto do
que era humano do globo; foi a globalidade de sua dominação que permitiu aos europeus
projetar ’’ a civilização deles, a história deles, o conhecimento deles como
civilização, história e conhecimento em qualquer situação; perspectivas a
partir das quais as percepções são estabelecidas e reparadas pelo diferencial
de poder. O objeto da percepção é tão fraco e ocidental, quanto esmagador o
poder de mudá-lo ou movê-lo para fora do caminho.
Os princípios
são necessários para impedir a transcendência de sair do controle. A
sobrevivência pelo contrário, é essencialmente conservadora. Seu horizonte é
desenhado com tintas antigas. Manter-se vivo, hoje, significa não perder o que quer que ontem assegura-se
a vida – não mais que isso. O elemento da sobrevivência é as coisas não ficaram
piores que antes. Por conseguinte, seja como for que os juízos morais se façam
por pessoas sobrecarregadas com a tarefa de sobrevivência, eles tendem a ser
negativos, e não positivos.
’’A se confiar na seminal descoberta de
Barrington, Moore, a moralidade popular em momento algum se assemelhou do
código de princípios universais os quais a verdadeira ética, de acordo com a
filosofia moderna, deveria mirar. Isso não significa que as “massas’’ fossem
estranhas aos sentimentos morais e à sensibilidade moral, e que deveriam ser
ensinadas na moralidade ou forçadas a serem morais. Significa apenas que, fosse
qual fosse a moralidade que estas massas possam ter tido, ela em geral não era
aprimorada nem diminuída pelos esforços especializados para instalar princípios
heterônomos de distinção entre o bem e o mal, ou mesmo pela falta de esforços.
A crise da ética não necessariamente augura
uma crise de moralidade. E ainda menos obviamente o fim da “era da ética”
proclama o fim da moralidade. Um caso convincente poderia ser montado, em nome
da suposição oposta, o argumento de que o fim da “Era da Ética’’ serve de guia
para a “Era da Moralidade’’ – e de que a pós-modernidade ser vista justamente
como isso era.

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