Regina Diniz
“A maior contradição brasileira foi a escravidão. Havia a idéia de um império cristão sob a direção de um imperador cristão de Portugal. Mas como a maioria da população era de escravos e a contribuição em termos de impostos era muito grande, a escravidão continuava e continuava. O Brasil, então, foi o último país a abolir a escravidão. Tal postura conservadora se chocava com a doutrina liberal que, trazida ao Brasil no começo do século, foi absorvida pela Constituição de 1824. Havia, na lei, o ideal de uma democracia parlamentarista, mas com uma economia completamente baseada na escravidão.. Eis aí a maior contradição.”(Thomas Skidmore – Livro: Uma História do Brasil – 366 páginas ). Explorar o ser humano, jogando-o a uma miserabilidade extrema, foi uma prática inadmissível em todos os tempos, ainda mais nos dias de hoje. Sociólogos de países avançados observam estupefatos a condição desumana dos pobres no Brasil, sem o mínimo de incentivo à inclusão social. Ninguém entende tamanha ignorância social...
“A grande contradição no Brasil de hoje, em certo sentido, é a Constituição feita para a elite brasileira. Se a gente soma a classe média à elite, vai falar de 20 milhões de pessoas. Isso deixa de fora 140 milhões de habitantes. É uma divisão muito profunda. É um traço muito feio para o país. Todo mundo promete corrigir o imenso abismo entre as classes, mas ninguém cumpre nada.”( Thomas Skidmore – Livro: Uma História do Brasil – 366 páginas). No planejamento nacional nenhum segmento da população tem direito a opinar. As plataformas de Educação não saem do papel, surgem mil desculpas para não serem implementadas. Assim se passaram 510 anos.
Desde o governo de Juscelino Kubitschek a solução para o Brasil seria a industrialização. Em certo sentido, o país se industrializou, mas a distribuição de renda continuou mal, porque sempre houve negligência nos investimentos em educação e em saúde, coisas que chamamos de “capital humano”. Qual seria o interesse em manter de fora 140 milhões de brasileiros? A favelização dos centros urbanos escancaram perante o mundo, um sistema brutalmente impiedoso, que se realiza sadicamente na exclusão de seus próprios conterrâneos. Milhões de pessoas frustradas caem em profunda depressão...
É um fenômeno social extremamente psicótico o que acontece em nosso país. Desde a época colonial (510 anos atrás) a elite brasileira nunca teve interesse na educação. O sistema educacional é relegado intencionalmente. Por esse motivo, o Brasil exibe desvantagem abismal nos níveis de educação em comparação com outros países.
O modelo de capitalismo que vigora no Brasil dá ênfase ao consumismo, como, por exemplo, a classe média que possui acesso a shoppings centers e televisão a cabo. Mas é tudo restrito aos 20 milhões de pessoas dessa classe. O problema é que esse modelo não funciona para a outra parte (140 milhões de habitantes).
Seria interessante restringir o consumo para aumentar a poupança e o investimento, se acontecesse a inclusão social, que é a chave para o desenvolvimento econômico. Não entendo porque o Brasil importa a maionese. As multinacionais dominam totalmente o mercado dos alimentos, entre outros mercados. Deveríamos gastar em importações essenciais...
Sempre, na história do Brasil, os direitos humanos das classes mais pobres nunca foram respeitados. Nota-se que a capacidade de manipular as massas, com marolas de cordialidade e habilidosa sedução, engessaram as reivindicações da inclusão dos 140 milhões de brasileiros. Com o advento da cultura industrial (máquinas substituindo o trabalho braçal do homem) obrigatoriamente a educação deveria ter sido o ponto alto a ser alcançado. Não é surpresa para ninguém o desespero que tomou conta dos 140 milhões de excluídos, que explodem em violência, e que poderia ter sido evitada há séculos...
Quantas vezes já ouvi: - Não tenho direito a nada... – Não tenho cultura para fazer nada... – Não tenho força para mudar nada... A auto-estima não é cultural. A auto-estima é biológica. Somos obrigados a satisfazer e realizar as nossas necessidades básicas.
Movimentos de civismo como os de Betinho (o sociólogo Herbert de Souza, criador da campanha contra a fome) e as ONGS estão tentando mudar. Mas é preciso milhares de Betinhos e milhares de ONGS. É vital para a sociedade brasileira admitir que o nosso Brasil é de todos os brasileiros.
Cinco séculos de exclusão deixaram profundas marcas em nossa personalidade. “Muitos brasileiros de projeção dizem que o Brasil sofre de uma doença incurável:”fracassomania”. Os estrangeiros afirmam que o maior sintoma é o brasileiro dizer que “o Brasil não dá”. Qualquer coisa que dê errado, dizem logo que é coisa de brasileiro”. (Thomas Skidmore – Uma História do Brasil).
Não é sempre que nos sentimos competentes diante de importantes desafios. Precisamos ter a experiência da competência (auto-eficiência) se quisermos possuir um senso básico de segurança e força interior. É saudável nos sentirmos merecedores de amor, respeito e felicidade. Todos nós precisamos ter a experiência do valor próprio (auto-respeito), se quisermos cuidar adequadamente de nossos interesses legítimos.
É urgente o surgimento de uma nova mentalidade, que resgate 500 anos de total ausência de investimentos em educação para os 140 milhões de brasileiros, no bem maior do ser humano, que é construir-se como pessoa. É inadiável maior número de Universidades Públicas em todos os estados. É preciso valorizar os professores, remunerando-os condignamente. Cada um de nós deve exigir planos de inclusão social nas plataformas de candidatos a cargos eletivos.

Nenhum comentário:
Postar um comentário