REGINA DINIZ
O século XXI está diante de uma encruzilhada: - uma via que leva a uma sociedade totalmente mecanizada, em que o homem é prisioneiro da cultura de consumo, com muito medo da violência urbana e da guerra nuclear: - a outra via leva ao humanismo, que deseja uma sociedade, que coloque a técnica a serviço do crescimento do homem ético-espiritual. O ideal seria, que cada um de nós, incentivasse as suas próprias idéias originais, e as valorizasse nos outros indivíduos, estimulando desta maneira as potencialidades criadoras. É fundamental rejeitar a propaganda midiática (ideóloga da padronização de massa).
Através de profunda reflexão, poderemos encontrar as nossas soluções, com a ajuda da razão e com o amor apaixonado pela vida. Devemos nos perguntar diuturnamente, se admitimos, e se achamos benéfico para nós mesmos a irracionalidade e o ódio que permeia as culturas consumistas. A melhor opção é debatermos com afinco sobre a validade da qualidade de vida que desejamos, embasada no respeito pela razão, e por uma realidade emocional, que nos leve a dignificar a união entre as pessoas sem conflitos destrutivos.
Jamais poderemos depreciar o valor do pensamento tradicional, porque somos o prolongamento do passado. Não podemos progredir e acompanhar a cultura, desvalorizando as melhores realizações da mente humana. É desaconselhável às novas gerações começarem o seu desenvolvimento pessoal e social, partindo do conhecimento zero. Desde milênios atrás houve maravilhosas descobertas sobre as potencialidades da mente. É humilhante não construirmos os nossos projetos pessoais e sociais. A honradez desperta em nós, quando colaboramos com boas idéias.
O que significa ser humano? “A ciência do homem” aborda dados da história, Sociologia, Psicologia, Teologia, Mitologia, Economia e Arte, que são disciplinas indispensáveis para a compreensão do homem. Sempre houve seres humanos bastante audazes e imaginativos, para vislumbrar além das fronteiras da sua própria existência pessoal e social. O pensamento cujo propósito não é manipular, e sim compreender deu origem ao Homo Sapiens, como um conceito correto de ser humano.
Modernamente o homem tem sido definido como Homo Ludens, a palavra jogo quer dizer atividade não-intencional, com o objetivo de transcender as necessidades imediatas da sobrevivência. Desde as pinturas das cavernas até os dias atuais, o homem tem se dedicado a atividades não-significativas economicamente. A Arte através de sua prática estética demonstra o desejo do homem em sua relação transcendental.
O Homo Negans diz “Não”, embora a maioria diga “Sim”, quando a sua sobrevivência ou vantagem o exija. Popularmente fala-se muito no Yes-man, que literalmente significa “homem-sim”, o homem que concorda com tudo, mesmo sendo contra ele. O homem difere de todos os animais pela sua afirmação da verdade, do amor, e da integridade. A polêmica e o debate construtivo enriquecem a raiz comunitária. A prática da consciência crítica, com outras pessoas fortalecem as nossas forças intrínsecas.
A atual proposta de uma sociedade completamente mecanizada, dirigida para a máxima produção, unicamente para consumo de ostentação é o mesmo fantasma de sempre do capitalismo selvagem, porém bem mais violento. Não restam dúvidas, o homem foi transformado numa máquina total, não tão bem alimentado, mas distraído, passivo, não-vivo, com poucos sentimentos, para que não perceba a sua triste situação de escravo. A maioria das pessoas é tão “ativa” que não suporta não fazer nada: transforma o seu lazer em outra forma de atividade. É a sofisticada manipulação para a escravização, porque assim afasta-se totalmente de si mesmo e dos outros.
As pessoas imensamente ativas são impulsionadas pela obsessão de fazer algo, a fim de fugir à ansiedade, quando são confrontadas consigo mesmas. Quando o desejo de construir-se como pessoa desaparece, a vida sofre perdas irreparáveis na realidade ou potencialmente. A eterna busca do ser é um elemento intrínseco da estrutura da vida, da dinâmica do espírito do homem.
Ter fé em si mesmo é uma disposição interior que nunca gasta. O pensador Spinoza falava muito em coragem de viver com qualidade, que é encontrada na pessoa plenamente desenvolvida, que se apóia dentro de si própria e ama a vida. O ideal é estar em pleno conhecimento com a realidade dentro e fora de si mesmo.
O indivíduo que tente dirigir-se para o estado de ser, ele próprio sabe que, sempre que se dá mais um passo rumo ao autoconciência, há o despertar de uma emoção de força e alegria inconfundíveis. As qualidades essenciais da vida são a esperança e a fé em transformar-se, e pela sua própria natureza movem-se em direção à transcendência.
Neste alto estágio de questionamento é praticamente impossível viver uma existência inteira acreditando, que a suprema felicidade é através do consumo alto. Só a identificação com as coisas materiais deprime, e o que realmente gratifica é ter a certeza da finalidade da própria existência. Só o debate, só a compreensão de si, dos outros e do mundo através das verdades universais comprovadas é que ficaremos satisfeitos com as nossas próprias escolhas.
“Uma pessoa enfrenta o futuro com o seu passado e com o seu presente”.( Pearl S. Buck ). Reforçar o pensamento divergente construtivo é uma excelente solução para as culturas evoluírem, desatando os nós, que não deixam as pessoas sair do mesmo lugar. O inconformismo cultural saudável renova a nossa vitalidade. Afinar-nos com tudo o que existe eleva a mente, e aumenta a satisfação que nutre os atos criativos. Questionar os acontecimentos sociais nos traz júbilo.

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