REGINA DINIZ
“Que tipo de cultura poderia ser considerada conducente à saúde mental? – A pessoa mentalmente sadia é produtiva e inalienada; a pessoa que se associa ao mundo com amor, e que usa a sua razão para conhecer a realidade objetivamente; que se sente como uma entidade única e individual, e, ao mesmo tempo, una com seus semelhantes; que não é sujeita à autoridade irracional, e aceita, prazerosamente, a autoridade racional da consciência e da razão; que está no processo de nascimento enquanto vive, e considera a vida como a mais preciosa oportunidade que lhe é oferecida”. ( Erich Fromm – Livro: Psicanálise da Sociedade Contemporânea – Zahar Editores – 1979 – Rio de Janeiro).
O desejo de saúde mental, de felicidade, harmonia, amor, produtividade é de nossa natureza, é inseparável do ser humano que tenha nascido mentalmente sadio. São necessários poderosos investimentos culturais para que seja mantido e valorizado esse anseio inato de sanidade. A história humana avançada é pautada e reconhecida pelos objetivos de saúde mental que ela propõe. Nossa saúde mental e emocional é proporcional à nossa disposição
de assumir a responsabilidade pelas nossas reações diante da miríade de circunstâncias de nossa vida.
E qual seriam os projetos ideais, que favorecessem a transformação progressiva para uma sociedade sadia? – Que todas as propostas contemplassem estruturas educacionais sólidas, que girassem a favor da identificação e desenvolvimento dos dons, talentos, realização pessoal e de suas múltiplas competências. – Que o ser humano fosse considerado o centro principal de investimento, e na qual a economia e a política sejam subordinadas ao objetivo de seu crescimento como pessoa. Que o programa cultural tivesse como objetivo principal a motivação ao homem extrapolar dentro de dimensões dirigíveis e observáveis, e ser um indivíduo ativo e responsável da vida em sociedade, bem como senhor de sua própria vida.
“Uma sociedade sadia promove a solidariedade humana, e não apenas permite que seus membros se relacionem uns aos outros com amor, mas estimula esta prática; uma sociedade sadia promove a atividade produtiva de todos em seu trabalho, estimula o desvendamento da razão e permite ao homem dar expressão a suas necessidades interiores na arte e nos rituais coletivos”. ( Erich Fromm – livro: A Sobrevivência da Humanidade – Zahar Editores – 1984 – Rio de Janeiro.)
É necessário discutir uma revisão fundamental no supercapitalismo desumanizante, que só aumenta cada vez mais a patologia imanente ao capitalismo. Uma proposta saudável seria pensar uma nova ordem social que levasse a prática, por meio de providências concretas à solidariedade humana, a razão e a produtividade, sendo debatidas, aceitas e estimuladas. A emancipação do homem da alienação contemporânea propõe a união saudável caracterizada pela fraternidade e justiça.
Sociedades econômicas e sociais planificadas, em alto nível, desejam criar sociedades livres, fraternais e sustentáveis. As propostas do capitalismo contemporâneo agonizam gravemente, pois favelizaram o mundo inteiro. Ninguém agüenta mais incontáveis fracassos de ser. O procedimento correto seria gratificar o indivíduo pelas qualidades humanas. A presença de meios pacíficos para a realização humana é um objetivo, que há milênios planejamos.
“Está além de qualquer dúvida que os problemas de transformação social não sejam tão difíceis de resolver - teórica e praticamente – quanto os problemas técnicos que os nossos químicos e físicos resolveram. E também, não se pode duvidar de que necessitamos mais de um renascimento humano do que aviões e televisão. Até apenas uma fração da razão e senso prático usados pelas Ciências Naturais, quando aplicada aos problemas humanos, permitirá a continuação da tarefa de que tanto se orgulhavam os nossos ancestrais do século XVIII”. ( Karl Mannheim – livro: Man and Society in na Age of Reconstruction - Nova York, l941). Citação no livro: O Significado da Ansiedade – Autor: Rollo May - Zahar Editores – Rio de Janeiro – 1980)
Todas as pessoas se preocupam em redescobrir e enriquecer suas éticas individuais. Muitos riscam de sua ética determinadas paixões, que consideram prejudiciais a sua vida pessoal e social: - orgulho – vaidade – inveja – ambição desvairada – valorização pelo consumo ostentatório etc... Lutam para aumentar a constatação da existência de bens humanos superiores, que nutram a auto-estima: - liberdade – dignidade humana – verdade – justiça.
Todas as culturas, em todos os tempos, se comprometeram a construir o que estivesse ao seu alcance para praticar um mínimo ético comum na vida cotidiana. Na realidade, por séculos e séculos, se prometeram respeitos, aos outros plenamente às convicções, ou à ausência de convicções com os outros. Como cultura os seres humanos sempre desejaram se educarem. Até os dias de hoje, a maior satisfação é dispor de oportunidades para crescer como pessoa.
“Quando Deus perguntou a Caim onde estava Abel, Caim replicou, zangado, com outra pergunta:“ - Sou por acaso o guardião do meu irmão?”O maior filósofo ético do nosso século, Emannuel Levinas, comentou que dessa pergunta zangada de Caim, começou toda a imoralidade. É claro que sou o guardião do meu irmão; e sou e permaneço uma pessoa moral enquanto não pergunto por uma razão especial para sê-lo. Quer eu admita, quer não, sou o guardião do meu irmão por que o bem-estar do meu irmão depende do que eu faço ou do que me abstenho de fazer. E sou uma pessoa moral porque reconheço essa dependência e aceito a responsabilidade que ela implica. No momento em que questiono essa dependência, e peço, como fez Caim, que me dêem razões para que eu me preocupe, renuncio a minha responsabilidade e deixo de ser um ser moral. A dependência de meu irmão é o que me faz um ser ético. A dependência e a ética estão juntas, e juntas elas caem. (Zygmunt Bauman – Livro:A Sociedade Individualizada – Jorge Zahar Editor Ltda. 2008).
Caim rompeu com o amor familiar, rompeu com o afeto consigo mesmo, rompeu com a humanidade, rompeu com Deus, destruindo o objetivo que mais fortalece a existência humana, ou seja, o afeto. Possivelmente Caim mergulhou em profunda vergonha de si mesmo, além de se envolver em profundo sentimento de culpa. Como seres humanos devemos nos refinar na mediação construtiva, unindo-nos de uma forma ou de outra com todas as pessoas indistintamente. Amor, Coragem, Honestidade, Generosidade de Espírito – esses valores não mudam jamais, embora possam surgir em formas pouco conhecidas.
A experiência da aproximação, e a aceitação da nossa igualdade humana nos gratificam, a ponto de nutrimos a nossa personalidade de elevada auto-estima, envolvendo o nosso coração de paz, afastando a ansiedade e nos curando emocionalmente. A experiência de união nos proporciona a capacidade de usar saudavelmente as nossas capacidades intrínsecas. A interação sadia nos torna capazes de compreender o mundo, as coisas e as pessoas de modo ativo. O homem de todas as idades e culturas vê-se diante da solução de uma só e mesma questão: - de como superar a separação, e de como realizar a união, e de como transcender a própria vida individual e encontrar sintonia.

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