quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

MUROS ALTOS


Regina Diniz


                                   Enfrento obstáculos interiores...
                                   Questiono a base dos sentimentos...
                                    Supero as limitações emocionais...
                                    Decido pela qualidade de ser...

Hoje, encoberto e trovoadas,
Amanhã, trovoadas e chuvas,
A temperatura está extremamente baixa,
Faltando um mês para o inverno, as folhas secas
Rolam sem rumo pela rua,
Provando a transitoriedade irreversível da vida.
A natureza emudeceu.
Os pássaros já não mais cantam a alegria...
Um forte vento sul nos chicoteia sem tréguas,
Desafia o limite de nossa decidida resistência.
Estão descobertos dois pares de olhos.
Numa corrida, apostamos qualidade na adversidade.
É preciso fé pura para não duvidar da dor.
Após uma hora de duro embate físico,
Entramos num bar simples do trajeto,
Que servia chocolate quente e barato,
Olhei pela vidraça uma árvore, que dobrava,
Impiedosamente sob a tirania do vento...

Desejo descobrir o caminho certo...
Revejo o contexto dos meus tempos...
Invisto nos valores da imortalidade...
Tudo é jornada espiritual...

Em silêncio tomávamos nosso chocolate...
E nos olhávamos sem palavras.
Eduardo não aceitava mais que eu mentisse,
Compulsivamente, para ele e para mim mesma.
Afirmava que éramos mestres
Em nos esconder afetivamente um do outro,
Tudo era válido em nosso relacionamento,
Menos a transparência de sentimentos.
Um olhar profundamente penetrante
Incomodava, pois nos reduzia a pedaços...
A fragilidade de emoção era um estado de ser,
                                    Que requeria a solidez que não tínhamos.


Ensinaram-me
                                    A chorar na alegria...
Ensinaram-me
A sorrir na tristeza...

Conhecemo-nos numa discoteca,
Já lá se vão três anos.
Os amigos dizem que somos bailarinos,
Amamos a música.
No verão passado mergulhamos
Numa ilha deserta e paradisíaca.
Praticamos o turismo ecológico.
Apreciamos lugares selvagens,
Na busca frenética para descobrir novos rumos,
Que enriquecessem de significados nossas vidas.
O meu tio Mário uma vez me disse:
“O planeta terra saturou-se de pedreiros”.
Impressionei-me ao ouvir dele,
Que éramos mestres em erguer
Muros bem altos a nossa volta.
Então eu mesma admiti,
Construo muros sim...
Porque sou receosa...
Minha alma treme de medo...
É a desconfiabilidade...
Que irrompe triunfal do meu peito...
Vejo armadilhas a cada passo...
Vulnerável, temo fraquejar...
Entre muros procuro,
Proteger-me
De meus próprios sentimentos negativos...

Perdi a finalidade da existência...
Escaparam-me os bons objetivos...
Desesperada, busco a transcendência,
Que foi aniquilada dramaticamente.

O planeta terra está de luto...
O século XX I inicia violento demais,
Cruel demais...
É natural que se afundasse
No negativismo, na depressão, na descrença,
Da derrota de suas próprias teses...
- Eduardo – Veja bem:
- Só aparece euforia falsa...
- Só se vê sorriso estereotipado...
- Só se ouve frases sem emoção...
- Só vemos olhos sem vida...
- Bocas com ares de carinho e afeto,
- Fingindo...
- Sentir um amor que desconhecem...
- Todos se comportando do mesmo jeito,
- Desesperados procurando o rebanho,
- Em busca da identidade ilusória...
-Confusos porque se gratificam só no exterior,,,
-Como nós não conseguem revigorar valores internos...
-De seres humanos para seres humanos.

Pago um alto preço...
Pelo não investimento...
No reconhecimento transcendental...
Tudo ficou muito escuro...

- Eduardo... Olha o quadro na parede...
-Comunica a fartura virtual,
-Na exuberância dos alimentos.
-Que coisa séria...
-Só se pensa no alimento do corpo.
-Não passamos um centímetro
-Da rasa sobrevivência...
-Reunimo-nos só para comer,
-De preferência sem diálogo...
-É a ditadura da sobrevivência do corpo sem alma...
-Em seu apogeu...
-E acreditamos ser o nosso
-Maior triunfo...
-É a nossa maior ferramenta de status,
-Fazemos dele uma máquina,
-Escravo do trabalho escravo,
-Mas na realidade não o valorizamos,
-Tanto que teatralizamos a sua importância,
-Mentimos...
-Porque em horas decisivas,
-Nem titubeamos,
-Damos o nosso corpo,
-Mas não permitimos
-A posse de nosso espírito.

Tempos confusos...
Parece que supervalorizamos o transitório...
Mas a verdade é outra,
Escondemo-nos nele dos outros.

-Eduardo não adianta afirmares,
- Que o corpo
- É o santuário do espírito.
- Não respeitamos o corpo.
- Quando nos deprimimos
- Ele é sacrificado...
- Estamos tremendamente equivocados,
- Achamos que curando o corpo,
- Curamos a alma...
- E através de potente química
- Matamos a alma,
- E
- Liquidamos o templo do espírito,
-Que conscientemente é
- Destruído por nós...
- Paula... Tens medo
-De ser ferida, abandonada e rejeitada?
-Quando suprimimos as emoções,
-Sepultamos a alma...
- Fecha os olhos e respira fundo...
- Deixa os teus muros desabarem...

A ausência da identificação divina
Fragiliza-me...
Procurarei a união,
Na consciência da presença de Deus...

- Qual é o teu medo?
- Estás te protegendo de ti mesma?
- Como te curarás deste medo?
- Como te tornarás outra vez uma pessoa inteira?
- Compreenda as origens deste medo...
- E teu coração abrir-se-á outra vez...
- E sentirás grande alegria...
- Entenda o teu coração...
- Ele é teu amigo...
- Ele é a tua alma gêmea...
-O nosso barco está afundando...
-Diga-me por que?
-Sinto o vento da tempestade,
-Destruindo o afeto que não nasceu.
-Tens medo da proximidade,
-É preciso ter coração
-Para sentir emoção...
-Hoje é preciso coragem
--Muita coragem
--Para ver um sorriso brilhando,
-No rosto de nossos tempos...

Não sou apenas a matéria...
Sou os meus pensamentos...
Sou os meus sentimentos...
Dependo dos valores éticos milenares...

-É verdade tudo o que disseste...
-É extremamente profundo...
-Todo coração tem uma alma
-Que busca a força na vitalidade do afeto.
-Eu também quero viver
-E não ser vivida,
-Mas é grande a minha solidão,
-Tenho dificuldade em partilhar o amor...
-No meu território interior.
-Só eu posso deixar pegadas...
-Em nosso mundo violento de hoje,
-Sinto-me exposta.
-Caminho através da vulnerabilidade...
-Pela beira da estrada,
-Olhando para os lados e para a frente,
-E expiando desconfiada para trás...
-No momento, passo por negativismo incontrolável,
-Estou sob pesado estresse.
-Preciso isolar-me,
-Para reunir forças e continuar
-A minha compreensão da vida...
-Sei que a caminhada deve ser de qualidade...
-Que devo purificar tudo...
-Que é a essência que me falta...
-Para desembaciar o nublado da minha mente,
-Não sou uma folha de papel em branco...
-Não quero ser manipulada,
-Mesmo frágil e vulnerável
-É eu que quero escrever a minha história,
-Mas aguarde-me...
-Voltarei em breve
-Com a energia dos Deuses...

Não sou mendiga...
Sou filha de Deus...
Quero uma via mais humana,
Mais espiritual...

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