quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A COMPLEXIDADE DOS ACORDOS CONCILIATÓRIOS


REGINA DINIZ

O reconhecimento do “Outro”, como ser humano pleno e com os mesmos direitos elevou a qualidade de interação social em nossa pós-modernidade. Infelizmente, a chaga exposta da discriminação, que nos causa constrangimento, porque não entendemos ainda a inclinação pelas práticas de xenofobia, de racismo, de aversões étnicas, segregação etc... Através da interpretação essencialmente construtiva nos protegemos das identificações sociais negativas, e assim não nos envolvemos em desavenças desagregadoras por motivo de raça, riqueza, pobreza, educação, religião, nacionalidade.

Começa a surgir culturas humanizadas, que estão renovando as interações, apostando na conciliação, isto é na aceitabilidade dos novos valores, permitindo e incentivando as diferentes formas de auto-expressão. Este revigoramento atual significa aceitar o direito da individualidade do outro. As diferentes interpretações e atitudes dos indivíduos são vertentes naturais de idéias de prontidão criativa.

Os ideólogos da cultura padronizada perdem espaços significativos para a política cultural da diferença. Atualmente o nível da consideração pelo ser humano não admite força, violência ou dominação. O diálogo como mediação torna-se a grande possibilidade da negociação das diferenças de percepções originais. Admitir a autenticidade das idéias das outras pessoas, cujas opiniões e propostas foram dadas diferentes das nossas, para serem ouvidas e debatidas demonstram o surgimento de uma solução. Os pensamentos divergentes construtivos colaboram para as percepções mútuas e também facilitam surgimento de novas teses.

Modernamente, os indivíduos conquistaram relativa expressão, e liberdade de possibilidades de se manifestarem e interagirem. Persistem ainda discriminações, mas a conscientização e o reconhecimento do ser genuinamente humano está presente em todas as culturas. Aprender a conviver significa empatia, abertura e elevado grau de civilidade para as relações humanas, porque a nossa vida depende dos grandes e complexos elementos sociais, políticos e culturais.

O “aprender a conviver” exige consideração e habilidade pessoal autêntica para consentir a aproximação e não o isolamento formal do outro. O pensar padronizado foi o jeito de ser do passado. Hoje, surge um pensamento crítico e sempre estaremos interagindo no jogo das possibilidades diferentes e, portanto renovadoras.

A condição pós-moderna enfatiza os questionamentos sobre as diferenças cognitivas superiores. Diante de nossos pares, vivendo e pensando com teses diferentes de ser, devem ser reconhecidos e identificados como nós. A política central é pensarmos nas mudanças e renovações que devemos propor. A conversa franca e autêntica com os outros começa a se tornar realidade, precisamos refletir nesta possibilidade porque, este diálogo exige uma negociação complexa em acordos conciliatórios.

“A destruição da globalização: desemprego, aumento da miséria no Mundo, concentração de riquezas, bancarrota de países inteiros frente ao capital volátil etc... A sensação para todos os que alimentaram, senão utopias, ao menos esperanças num mundo melhor, muitas vezes é de completa derrota. O esgotamento das ideologias revela de forma bastante clara a exaustão das ideologias políticas recebidas. Vivermos em um mundo radicalmente danificado para o qual são necessários tratamentos radicais”. (Anthony Giddens – Livro: Para Além da Esquerda e da Direita – Edunesp, 1996).

Novos movimentos sociais vinculados à temas como paz, ecologia, direitos humanos surgem com características renovadas e se reorganizam como movimento social autônomo (completamente desvinculado dos sistemas ideológicos. Esses movimentos indicam que novos vínculos de identificação são possíveis e motivam novas relações solidárias que conseguem impulsionar a realidade de forma penetrante. O cosmopolitismo cria espaços e as possibilidades de interações transnacionais criadas pelo sistema mundial  ou seja fora das exigências do grande capital acontecem.

Da defesa do ser humano como idéia radical, nasceram os direitos coletivos, em que os indivíduos obtiveram créditos, frente à coletividade: o direito ao trabalho, à saúde, à educação. Evoluíram os critérios da autodeterminação dos povos: Tremulam bandeiras marcando o direito à paz, a um ambiente preservado, ao desenvolvimento, à proteção da família, ao reconhecimento de grupos étnicos. A plataforma atualizada dos Direitos Humanos em efervescentes idéias novas e emancipatórias acima das ideologias preconizam o respeito à vida como sua pedra fundamental.

“O território urbano torna-se o campo de batalha de uma contínua guerra espacial, que às vezes irrompe no espetáculo público de motins internos, escaramuças, rituais com a polícia, ocasionais tropelias de torcidas de futebol, mas travadas diariamente logo abaixo da superficie da versão oficial pública (publicada) da ordem urbana rotineira. Os habitantes desprezados de despojados de poder das áreas pressionadas e implacavelmente usurpadas respondem com ações agressivas próprias: tentem instalar nas fronteiras de seus guetos seus próprios avisos de “não ultrapasse”. Seguindo o eterno costume dos “bricoleurs”, usam para isso qualquer material que lhes caia em mãos- rituais, roupas estranhas, atitudes bizarras, ruptura de regras, quebrando garrafas, janelas ou cabeças, lançando retóricos desafios “à lei”. (Dick Hebdidge, Hiding in the Light (Londres, Routledge, 198) p. 18. – Citação feita por Zygmunt Bauman – Livro: Globalização – As Consequências Humanas – 1998 – Ed. Zahar – Rio de Janeiro).

Já está demorando demais o embate entre as forças conservadoras, que persistem em manter seu padrão de consumo e prosperidade, e que na realidade somam apenas 20 % da população mundial, e forças progressistas que lutam por uma civilização socialmente justa. Deste terrível conflito silencioso, resultam novas e profundas divisões entre nações, e as classes sociais e os partidos. Em todos os países desenvolvidos do mundo, reina enorme insegurança, porque todos eles estão 80% em estado de favelização.

A pós-modernidade para manter o seu paraíso de liberdade, dedica para a construção e manutenção das prisões um orçamento que ultrapassa de longe a soma total dos fundos estatais destinados às instituições de ensino superior. É de se perguntar: porque a pós-modernidade não operacionaliza a educação inclusiva rejeitando e desprezando as práticas de sustentabilidade social?...

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