sexta-feira, 14 de setembro de 2012

A RESPONSABILIDADE SOCIAL DA ECONOMIA


REGINA DINIZ

Atacar a insegurança na fonte é uma tarefa assustadora, que requer nada menos que repensar e renegociar algumas das suposições mais fundamentais do tipo de sociedade atualmente existente – suposições que se arraigam tanto mais rápido por serem tácitas, invisíveis ou indizíveis, para além  de qualquer discussão ou disputa. “Cornelius Castoriadis colocou que o problema maior com a nossa civilização é que ela parou de se questionar. Nenhuma sociedade que esquece a arte de questionar ou deixa que essa arte caia em desuso pode esperar encontrar respostas para os problemas que a afligem – certamente não antes que seja tarde demais e quando as respostas, ainda que corretas, já se tornaram irrelevantes. ( Zygmunt Baumann – Em Busca da Política – Jorge Zahar Editor Ltda – 2000).

A Globalização e a liberalização dos mercados do mundo precisam ser, detalhadamente, estudados e compreendidos em orientações mundialmente aplicáveis para garantir, que toda a humanidade possa usufruir destes benefícios sociais. O Desenvolvimento Econômico deveria respeitar os Direitos Humanos Fundamentais e se comprometer seriamente com a Justiça Social. A ONU trabalha para a manutenção de condições econômicas estáveis em uma base mundial, mas fracassa totalmente porque: - a política de trabalho pata todos, - a política alimentar para todos, - a política industrial para todos inexiste em todo o mundo.

Os Direitos Humanos são os Direitos Legais garantidos pelo Direito Internacional de pessoas em todas as nações, para proteger os seres humanos, e sua dignidade em tempos de guerra e paz. Existem fundamentalmente três tipos de Direitos Humanos: Direitos Civis e Políticos, ou seja, o direito à vida, à liberdade de reunião e liberdade de religião. Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, ou seja, o Direito ao Emprego, Educação e Segurança Social. Terceira Geração de Direitos, ou seja, o Direito a um ambiente saudável e desenvolvido para viver. É o maior dever do Estado, do País, debater, pensar, divulgar e garantir os direitos de seus cidadãos para a construção e proteção de garantias de justiça social. A elevada educação social de uma nação é geradora de respeito internacional. 

“Hans Peter Martin e Harald Schumann, especialistas em economia da revista alemã Der Spiegel, calculam que se a tendência atual persistir irrefreada, 20% da força de trabalho global (potencial) bastarão “para manter a economia funcionando”, o que quer que isso signifique, o que tornará economicamente supérfluos  80% da população mundial capacitada”. Pode-se pensar (e muitos o fazem) em maneiras de reverter, interromper ou pelo menos refrear essa tendência, mas a grande questão, hoje, já não é o que deve ser feito, mas quem tem poder e decisão para fazer. Por trás da insegurança crescente de milhões de pessoas que dependem da venda de sua força de trabalho está a ausência de um poderoso e eficiente agente que possa, com vontade e decisão, tornar menos insegura a situação em que vivem”.  (The Global Trap. Londres, Zed Books, 1997, e também Larry Elliot, “The weightless revolution”, The Guardian, 10 de novembro de 1997).

O Modelo de Globalização em vigor tem desencadeado resultados trágicos à maioria da população mundial. Há grandes desigualdades econômicas, tecnológicas e sociais entre os países no planeta, e ao longo do tempo, o processo de globalização tem contribuído de maneira direta, para o aumento em massa da pobreza, excluindo um número cada vez maior de pessoas. Atualmente, cerca de 1.5 bilhão de pessoas no mundo vivem, e sobrevivem com renda diária que não ultrapassa 1 dólar.

Grande problema social provocado pela globalização é o aumento acelerado do índice de desemprego em todo o mundo, resultado dos avanços tecnológicos, que tiram inúmeros postos de trabalho. Mas apesar do crescimento mundial na produção, o mesmo não acontece com o consumo,  porque esse deslancha  somente em países desenvolvidos, ou em populações elitizadas de países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, ou seja, em uma restrita parcela dos habitantes do planeta. A falta de emprego no mundo é alarmante diz a Organização Internacional do Trabalho. Desde o início da crise, em 2008, estão faltando, ou melhor, desapareceram 50 milhões de empregos.   

“A insegurança atual é semelhante à sensação que provavelmente teriam os passageiros de um avião ao descobrirem que a cabine de comando está vazia, que a voz amiga do piloto é apenas uma mensagem gravada. A insegurança sobre como ganhar a vida, somada à ausência de um agente confiável capaz de tornar  essa situação menos insegura ou que sirva pelo menos de canal para as reivindicações de uma segurança maior, é um duro golpe no coração mesmo da política de vida”. ( Zygmunt Bauman – COMUNIDADE – Jorge Zahar  Editor Rio de Janeiro – 2003)

Na contemporaneidade, os indivíduos são bombardeados por falsas promessas de felicidade, baseadas no consumismo, e ao mesmo tempo são obrigados a lidar com a insegurança econômica e com a frustração de não conseguir acumular todos os signos de consumo, que garantiriam a felicidade pessoal. Estas propostas enganosas de bem-estar deixam as pessoas inseguras, pois sentem que não estão vivendo, aquilo que queriam viver, passando muito longe da verdadeira vida feliz deixando-a ir embora... Cada vez mais prazeres materialistas, cada vez mais viagens, mais divertimentos, que não abrem as portas da alegria de viver...

A insegurança crescente de como ganhar a vida, da necessidade do indivíduo valer-se por si mesmo, de tornar-se competente num cenário de extrema competitividade, geram grandes sentimentos de insegurança e incapacidade. Trata-se de uma sociedade em que mais de 90% declaram serem muito felizes, e em que simultaneamente, as depressões, as ansiedades e o consumo de medicamentos psicotrópicos aumentam a um ritmo alucinante. Afinal, que felicidade é esta que também é desespero e desamparo?

Em recente ensaio, Jacques Attali explicou o sucesso fenomenal do filme Titanic com a notável semelhança que os espectadores vêem entre sua própria agonia atual e a parábola da vaidade humana, chocando-se contra um iceberg que, devido à arrogância do capitão e à docilidade da tripulação do navio, não foi (nem poderia ser) levado a sério e notado a tempo. O Titanic somos nós, a nossa sociedade triunfalista, cega, autocongratulante, hipócrita, impiedosa com os pobres – uma sociedade em que tudo é previsto, exceto os meios de prever... Todos nós supomos que há um iceberg à nossa espera, escondido em algum lugar no futuro nebuloso, contra o qual nos chocaremos para em seguida afundarmos ao som de música. (Jacques Attali – Le Titanic, le mondial et nous – Lê Monde, 3 de julho de 1998).

Jacques Atalli nos convida para uma séria reflexão. O problema é maior nos países desenvolvidos, especialmente os da Europa, onde o desemprego aumentou em 66% das nações. A organização não prevê recuperação do emprego na região até 2016.  O emprego informal aumentou em 26 das 50 economias avançadas analisadas. 50% dos países desenvolvidos também tiveram aumento do trabalho temporário. Os jovens são os mais atingidos pela crise trabalhista. Em 80% dos países ricos houve aumento do desemprego juvenil, problema que afetou 66% dos emergentes. Em metade dos países ricos, mais de 40% dos desempregados estão fora do mercado há mais de um ano. São os chamados desempregados de longo prazo. Desde 2007, apenas seis países ricos tiveram aumento de postos de trabalho: Alemanha, Israel, Malta, Polônia, Luxemburgo e Áustria.

Precisamos discutir o iceberg consumista, com muita seriedade, pois em qualquer que seja a nossa condição em matéria de dinheiro e crédito, nós não vamos encontrar num shopping, o amor e a amizade, os prazeres da vida com a família e com os amigos, a satisfação que vem de cuidar os entes queridos ou de ajudar um vizinho em dificuldade, a simpatia e o respeito dos colegas de trabalho e outras pessoas a quem nos associamos. A identificação pregada pela sociedade consumista faz com que o indivíduo se perca, pois impera a falta de investimentos nos ideais, nas causas coletivas e nas relações gerando uma libido em seu próprio ego, mantendo-o em estados emocionais narcísicos. Freud afirmou: “Nossa felicidade depende diretamente de nossa capacidade de amar”.

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