quarta-feira, 26 de setembro de 2012

A CRENÇA NA PRÓPRIA IDENTIDADE

REGINA DINIZ

“O homem moderno está bem alimentado, bem trajado, satisfeito e, contudo sem personalidade, sem qualquer contato com seus semelhantes a não ser o mais superficial possível. “Quando o indivíduo sente, a comunidade vacila”; “Nunca deixes para amanhã o prazer que podes ter hoje, ou, como afirmativa culminante: “Todos agora são felizes”. A felicidade do homem, hoje em dia, consiste em divertir-se. E divertir-se consiste na satisfação de consumir e “obter” artigos, panoramas, alimentos, bebidas, gente, conferências, livros, filmes – tudo é consumido, engolido. O mundo é um grande objeto de nosso apetite. Somos os eternamente em expectativa, os esperançosos – e os eternamente decepcionados. Nosso caráter é engrenado para trocar e receber, para transacionar e consumir: tudo, os objetos espirituais como os materiais, torna-se objeto de troca e consumo”. (Aldous Huxley – Admirável Mundo Novo- 1a. Edição – 1976 – Cia.Editora Fon-Fon e Seleta – Rio de Janeiro).

Como se preocupar menos com o consumismo e com o dinheiro? Como manter a mente sã nesta cultura materialista e totalmente escravizante? Como encontrar o trabalho ideal? É importante salpicar reflexões sobre a vida cotidiana. Uma tremenda insanidade tomou conta dos indivíduos nas nações,  onde reina a civilização capitalista. O consumismo grave como bandeira da felicidade trouxe consigo misérias individuais e sociais, que há dois séculos martirizam a humanidade que se tornou muito infeliz. A comunicação de massa exclui a cultura e o saber. O conteúdo genuinamente cultural só aparece como conotação e função secundária. Nota-se que o indivíduo contemporâneo fatigou-se de reciclar-se todos os anos, todos os meses, todas as estações, no vestuário, nos objetos e no carro.     

Entretanto, começamos a viver no meio de uma revolução em nossos tempos, que é o nascimento da sociedade pós-industrial, que valoriza a produção de bens materiais e prioriza os produtores de idéias, já sem tempo surge a excelência criativa. A ação conjunta do progresso tecnológico e da escolarização difusa ocasionou uma enérgica redução do tempo humano necessário para a produção de bens e serviços. A conseqüência é que para um  número crescente de pessoas o tempo livre prevalece sobre o tempo absorvido pelo trabalho. Chegamos a um ponto de inversão de rota, ou seja, o tempo livre e a capacitação de valorizá-lo determinam o nosso destino cultural como também econômico... Finalmente teremos tempo de pensar e fazer um bom investimento em termos de crescimento pessoal, cultural e social.

“A perda do eu aumentou a necessidade de conformar-se, pois dela provém uma dúvida recôndita a respeito da própria identidade. Se eu não sou mais do que aquilo que julgo que devo ser – Quem sou eu? A identidade do indivíduo tem sido um problema capital da Filosofia moderna desde Descartes. Hoje, fiamo-nos em que somos nós mesmos. No entanto, a dúvida acerca de nós mesmos ainda subsiste ou até mesmo aumentou. Em sua famosa peça teatral – Como me queres –Luigi Pirandello – parte da pergunta: Quem sou eu? Que prova tenho eu de minha própria identidade... Não tenho identidade, não há ego que não aquele que é o reflexo do que os outros esperam que eu seja: eu sou “como você me quer”. (Erich Fromm – O Medo à Liberdade – 14ª edição – Zahar Editores – Rio de Janeiro – 1983).

Na elaboração da identidade equilibrada é fundamental a presença da liberdade e da independência, para que os homens seja livres, críticos, independentes, tornando-os parte integral da humanidade. A liberdade e a independência são fortes pilares que sustentam a realização de seu ego, para que ele tenha forças emocionais para ser ele mesmo, idealizando suas próprias propostas para consigo mesmo, e também para a própria cultura.  Filósofos idealistas acreditam que a realização individual é alcançada através da percepção intelectual.

Acredita-se que a busca da independência e da liberdade para que o homem se torne uma forte individualidade é um objetivo social de grande valia. A liberdade e a independência são potencialidades que se encontram em todas as pessoas, e só se tornam reais quando são manifestadas. A liberdade positiva consiste na atividade espontânea da personalidade integrada em sua totalidade. Se o indivíduo realiza seu eu por meio de atividade espontânea, relacionando-se assim com o mundo, ele elimina as suas dúvidas a respeito de si próprio e do sentido da vida. Descobre-se como um indivíduo ativo e criador,  reconhece que só há um sentido para a vida: o próprio ato de viver construtivamente para si e para o mundo.

“Esse fascínio suscitado pelo exibicionismo e pelo voyeurismo encontra terreno fértil em uma sociedade atomizada por um individualismo com beiradas narcisistas, que precisa ver sua bela imagem refletida no olhar alheio para ser. Essas forças tendem a esfacelar todos os nós sociais que poderiam propiciar uma ultrapassagem das tiranias da intimidade. No entanto, uma eventual reformulação em chave contemporânea daqueles laços cortados pela experiência moderna possibilitaria, talvez, enxergar o outro como outro, em vez de fagocitá-lo no inchaço do próprio eu sempre privatizante”. (Paula Sibilia – O Show do Eu – A intimidade como espetáculo – Editora Nova Fronteira S.A. – S.A. – Rio de Janeiro – 2008).

Percebem-se, nos programas televisivos, cinematográficos, artísticos, reality shows, biografias e renovadas formas de diários íntimos uma carência desmedida por mostrar-se. Neste clima, pautado pelo imenso desejo de visibilidade total, e pelo culto à personalidade usam diversas ferramentas disponíveis online para expor sua intimidade e criar, assim, uma personalidade que lhes pareça grandiosa e ostentosa. Neste processo histórico e cultural tão desconcertante, quanto espantoso, em que o velho slogan “faça você mesmo” vem sendo substituído pelo “mostre-se como for” e o verbo “ser” torna-se um efeito de parecer.

Neste século XXI, está sendo marcado por fortes mutações nas formas como nos construímos como sujeito. Houve um profundo deslocamento na base central que alicerça a experiência de si. Em vez daquelas subjetividades tipicamente modernas, dedicadamente elaboradas no silêncio e na solidão construtiva do espaço privado (caráter introdirigido) explodiu  absurdamente de maneira crescente as personalidades alterdirigidas, voltadas não mais para dentro de si, mas para “fora”, visando a captação dos olhares alheios em um mundo saturado de estímulos visuais.   

“O que conta hoje em dia não é a diferença entre os que crêem e os que não crêem, mas a diferença entre os que se interessam e os que não se interessam. Essa nova atitude com relação à vida pode ser expressa mais especificamente nos seguintes princípios: O desenvolvimento do homem requer sua capacidade de transcender a estreita prisão de seu ego, da sua cobiça, do seu egoísmo, da sua separação do seu próximo e, por conseguinte da sua solidão básica. Esta transcendência é a condição para ser franco e ligado ao mundo, vulnerável, embora com uma experiência de identidade e integridade; da capacidade de gozar tudo o que é vivo, de verter suas faculdades no mundo que o cerca, de ser “interessado” em suma ser em vez de ter e usar são conseqüências do passo para superar a cobiça e a egomania”. (Erich Fromm – A Revolução da Esperança – Por uma tecnologia Humanizada – Zahar Editores – 1981).

Uma das maiores alegrias da vida numa época tão confusa é a possibilidade de sermos obrigados a tomar consciência de nós mesmos. A sociedade contemporânea, nesta fase de decadência, de propor estados primitivos de padrões e valores, não nos dá uma visão do que somos e do que devemos ser, então não temos outra escolha a não ser a busca de nós mesmos. A realidade é que muitas pessoas lutam para resolverem os seus próprios problemas, é uma luta íntima e profunda para alcançar uma nova integração.

Existem potencialidades no nosso íntimo, que só são liberados quando tomamos uma decisão consciente. É urgente entronizar a ética, que jamais deveria ter se ausentado um minuto sequer de nossa civilização e de nossos pensamentos. As decisões de caráter ético devem ser, permanentemente ações pensadas e afirmadas pela pessoa, uma expressão profunda de seus motivos e atitudes interiores. Para agir de maneira ética será sempre preciso lutar, duvidar, entrar em conflito. Isto quer dizer que a pessoa se esforçou por agir, tanto quanto possível, a partir do âmago de si mesma.”Segundo Sócrates, cada indivíduo é o seu próprio centro e o universo gira à sua volta porque o conhecimento de si mesmo é o conhecimento de Deus”. 

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