quinta-feira, 22 de novembro de 2012

A EDIFICAÇÃO DE UM MUNDO MELHOR



REGINA DINIZ

“Pode-se dizer que o “consumismo” é um tipo de arranjo social resultante da reciclagem de vontades, desejos e anseios humanos rotineiros, permanentes e por assim dizer, “neutros quanto ao regime, transformando-os na principal força propulsora  e operativa da sociedade, uma força que coordena a reprodução sistêmica, a integração e a estratificação sociais, além da formação de indivíduos humanos, desempenhando ao mesmo tempo um papel importante nos processos de auto-identificação individual e de grupo, assim como na seleção e execução de políticas de vida individuais. O “consumismo” chega quando o consumo assume o papel-chave que na sociedade de produtores era exercido pelo trabalho. A menos que saibamos por que as pessoas precisam de bens de luxo, ou sejam bens que excedem as necessidades de sobrevivência e como os utilizam, não estaremos nem perto de considerar com seriedade os problemas de desigualdade”. (Mary Douglas – In the  Active Voice. Routledge and Ke Kam Paul – 1998. (Citação:Zygmunt Bauman – A Transformação das Pessoas em Mercadorias – Ed. Jorge Zahar – Editor Ltda – Rio de Janeiro – Brasil – 2007 ).

Segundo Lipovetsky, o período compreendido entre as duas últimas décadas do século XIX até a Segunda Guerra Mundial, foi marcado por um aumento vertiginoso da produção industrial. O avanço tecnológico permitiu que as indústrias produzissem em abundância e de uma forma muito mais veloz. É quando os mercados locais dão lugar aos grandes mercados nacionais, favorecendo o desenvolvimento do transporte e do comércio. No capitalismo do consumo o lucro dá-se pelo volume de vendas do que pelo preço unitário dos produtos.

Foi tudo muito bem planejado, pois esta primeira fase inventou o marketing de massa, bem como moldou o consumidor moderno. Inteligentemente inventou a “marca” e o nome dos produtos e concomitantemente os grandes magazines. Aumentou extraordinariamente o volume de vendas e surgiu triunfal o “glamour” ao consumo com as técnicas de marketing que inauguraram o “consumo-sedução” e o “consumo-distração” que perduram até hoje. Foi apresentado o consumo de massa como um modo de vida: bens duráveis, lazeres, férias, modas, deu o poder de compra às classes sociais mais simples antigamente associados somente às elites sociais mais elevadas. Rapidamente as políticas de diversificação dos produtos bem como, o processo visando reduzir o tempo de vida das mercadorias foram colocados em prática dando verdadeiro golpe na economia do mundo.

“A produção de corpos supérfluos, não mais exigidos para o trabalho, é conseqüência direta da globalização”, como aponta Hauke Brunkhorst. Ele acrescenta que a peculiaridade da versão globalizada da “superpopulação” é a maneira como ela combina, com grande rapidez, a crescente desigualdade com a exclusão dos “corpos supérfluos do domínio da comunicação social”. “Para os que caem fora do sistema funcional, seja na Índia, no Brasil ou na África, ou mesmo, hoje, em muitos distritos de Paris ou Nova York, todos os outros logo se tornam inacessíveis. Suas vozes não serão mais ouvidas, e muitas vezes eles são literalmente emudecidos”. (Hauke Brukhorst, “Global Society as the Crisis of Democracy”, in Mikael Carleheden e Michael Hviid Jacobsen (orgs.), The Transformation of Modernity:  Aspects of the Past, Present and Future of an Era, Ashgate, 2001, p.233). Citação de Zygmunt Bauman – Vidas Desperdiçadas – Jorge Zahar Editor Ltda. 2005).

A produção de seres humanos refugados, considerados “excessivos” e redundantes, que não puderam ser reconhecidos, é um resultado inevitável da modernidade. É um efeito colateral da construção da ordem, que elimina totalmente, parcelas da população considerando-as “deslocadas”, inaptas ou indesejáveis, que estão a margem do “progresso humano” que não pode ocorrer sem eliminar, sem degradar e desvalorizar os modos efetivos de “ganhar a vida”, privando-os  dos meios de subsistência. A remoção destes seres humanos considerados refugo, nas partes modernizadas do globo, foi o  mais importante objetivo da colonização e das conquistas imperialistas e que eram a causa da desigualdade  de desenvolvimento, em outras palavras pobres e atrasados culturalmente.

Há milênios estas deportações foram praticadas, mas a globalização aumentou mais do que nunca a produção de pessoas refugadas. Agigantaram-se em quantidades enormes os seres humanos destituídos de formas e meios de sobrevivência. Os temores relacionados a segurança surgiram na lógica das lutas pelo poder ao Direito da Igualdade. Os problemas do refugo (humano) e da remoção do lixo humano que se tornaram no maior desafio sobre a “moderna e consumista cultura da individualização. “Houve uma época, é claro, em que nós cinco não conhecíamos um ao outro... Ainda não conhecemos um ao outro, mas aquilo que é possível e tolerável para nós cinco possivelmente não será tolerado por um sexto. Em todo caso, somos cinco e não queremos ser seis... Longas explicações poderiam resultar que o aceitássemos em nosso círculo, de modo que preferimos não explicar e não aceitá-lo”. (Franz Kafka, Amizade)      

“Para a EUROPA, o resto do planeta não era uma fonte de ameaças, mas um tesouro de desafios. Por muitos séculos, a Europa foi uma exportadora de seus próprios excedentes de história, incitando, forçando o resto do planeta a tomar parte como consumidores. Esses longos séculos de comércio unilateral, iníquo, agora se rebatem sobre a Europa, colocando-a face a face com a tarefa desanimadora de consumir localmente o excedente da história planetária. Esses séculos foram registrados nos livros europeus de história como “a era das descobertas geográficas”. Descobertas européias são claras: realizadas por emissários da Europa, e em benefício desta. Vastas terras jaziam prostradas, esperando que as descobrissem.  Descobrir significava desnudar os tesouros até deixá-los vazios, subutilizados ou malbaratados, ou empregá-los de todas as maneiras erradas, extravagantes ou irracionais; tesouros desperdiçados por nativos ignorantes de seu valor, veios de riquezas, clamando para serem extraídas e então recolhê-los e transportá-los para outros lugares onde poderiam ter uso melhor e mais sensato”.(Zygmunt Baumann – Europa: uma aventura inacabada – Jorge Zahar Editor Ltda – 2006).

Há milênios, sempre a Europa desejou e precisou de grandes riquezas para preencher os esvaziados cofres reais como também necessitou das terras estrangeiras para acomodar homens e mulheres, cuja ambição social não correspondia ao nível suficiente em sua terra natal. A Europa sempre sonhou em cultivar homens destemidos, empreendedores que sabiam o valor dos metais preciosos e como extraí-los dos minérios. E sempre havia pessoas prontas a lutar por um rápido enriquecimento. A Europa sempre soube que havia espaços vazios nos quais “o problema social humano” poderia ser despejado. Durante séculos e séculos a Europa sentiu-se a rainha do planeta.

A Europa planejou e vivenciou o modo de vida superior, mais culto, seguro e rico, construtivo e mais digno. A conquista européia jamais foi questionada, entretanto hoje o papel de dinastia iluminada o papel de realeza, e a condição de monstro foi arrancada das mãos da aventura intitulada Europa. A Europa ficou grisalha num mundo que cada vez se torna mais jovem a cada ano que passa. A Alemanha, Grã-Bretanha e França a pouco tempo atrás eram gigantes econômicos, mas rapidamente perderam posições no ranking mundial. Crise Européia, FMI repete apelo que veio das ruas. Em Tóquio, Fundo propõe mudanças nas políticas de austeridade para tirar economias do atoleiro. Não são mais nas ruas que se erguem apelos para a mudança nas políticas de austeridade que devastam a Europa.  Precisam recalibrar as metas para arrancar a economia do atoleiro, proclama o Fundo Monetário Internacional (FMI), diante do risco de mais um ano, o quinto, de estagnação, desemprego alto e tensão social.

“Sabemos que, por trás da opaca nuvem de nossa ignorância e da incerteza de resultados detalhados, as forças históricas que moldaram o século XX continuam a operar. Vivemos num mundo conquistado, desenraizado e transformado pelo titânico processo econômico e tecnocientífico do desenvolvimento do capitalismo, que dominou os dois ou três últimos séculos. Sabemos, ou pelo menos é razoável supor, que ele não pode prosseguir ad infinitum. O futuro não pode ser uma continuação do passado, e há sinais, tanto externamente quanto internamente, de que chegamos a um ponto de crise histórica. ( Eric Hobsbaium  - A Era dos Extremos – O breve século XX – 11914 – 1991 -  Editora Schwarcz S.A. - São Paulo – Brasil 2012.).

A integração de economia mundial acentuou-se a partir dos anos 1990 com a revolução tecnológica. A Internet revelou-se a mais inovadora tecnologia de comunicação do planeta. As trocas de informações tornaram-se quase instantâneas, o que acelerou em muito a integração das atividades econômicas. Segundo as soluções, o modelo do FMI  e do Banco Mundial a presença estatal na economia inibe o setor privado e freia o desenvolvimento. Tendo algumas características como: - livre circulação de capitais, com a abertura da
economia e a eliminação de barreiras a investimentos estrangeiros – amplas privatizações – redução de subsídios e gastos sociais por parte dos governos – desregulamentações do trabalho, para reduzir os custos das empresas, aconteceram mudanças significativas na economia no mundo.

Quem acreditaria que países como Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha formassem o grupo na posição mais delicada dentro da Zona do Euro, pois foram os que atuaram de forma mais indisciplinada nos gastos públicos e se endividaram excessivamente. Estes países possuem pesados déficits orçamentários ante o tamanho de suas economias. Não possuem formas de recurso (superávit), entraram no radar da desconfiança dos investidores... Quem imaginaria que a Europa, como um dos maiores  mercados consumidores do mundo diminuiriam o ritmo de importação de bens e serviços e prejudicaria a dinâmica econômica global? A humanidade quer edificar um mundo melhor e como estamos vendo não podemos nos espelhar na continuidade do passado ou do presente. Recebemos herança destrutiva. Precisamos planejar o mundo com visões evolutivas construtivas para todos, esta é a mudança de sociedade que almejamos.                                          

Nenhum comentário:

Postar um comentário