quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

A LIBERAÇÃO DO PODER CRIATIVO HUMANO

            
 REGINA DINIZ

“Analisando Tolstoy, Baudelaire, Marx ou Kroppotkin, constataram que eles tinham um conceito religioso e moral do homem. O homem é um fim, jamais devendo ser usado como um meio; a produção material deve servir ao homem, este jamais deverá servi-la; o objetivo da vida é a liberação do poder criador do homem; o objetivo da História é a transformação da sociedade em coisa governada pela Justiça e pela Verdade, estes os princípios em que se basearam, explicitamente, todas as críticas ao capitalismo moderno”. (Autor: Erich Fromm – Livro: Psicanálise da Sociedade Contemporânea – 9ª. Edição – Zahar Editores – Rio de Janeiro – 1979).

No século XIX, os homens de visão identificaram o processo de decadência e desumanização por trás dos encantos, da prosperidade e poder político da sociedade ocidental. Alguns deles se mostraram resignados com a necessidade dessa marcha para o barbarismo, outros enunciaram algumas alternativas. Mas com esta ou aquela atitude, sua crítica se baseou um conceito humanista de homem e sociedade. Criticando a sua própria sociedade, eles a transcenderam.
Não foram relativistas a dizer que, enquanto a sociedade funciona, ela é equilibrada e sadia, e que enquanto o indivíduo está ajustado à sua sociedade ele é equilibrado e sadio.

A razão maior da existência homem é desenvolver o sua introspecção, para evoluir e se tornar em humanidade saudável e construtiva. Todos os processos civilizatórios procuraram conquistar a tão almejada harmonia com ele próprio e com seus semelhantes. Através de buscas intermináveis  o capitalismo, o poder econômico reconhecerá, que nenhum ser humano poderá prosperar sem liberdade e educação. Quando admitirmos o seu princípio e base criadora, incentivaremos em todos os graus possíveis as suas potencialidades.      

“A ficção da igualdade de oportunidades deixou de ter suficiente fundamento para alcançar o consenso social. Em um mundo imprevisível e em rápida transformação, um mundo de mobilidade social para baixo, rebelião social e crônica crise econômica, política e militar, as autoridades deixaram de servir efetivamente como modelos e guardiões. As suas ordens perderam a persuasão. O lado pedagógico, protetor e benevolente da autoridade social e paterna não mais temperam a sua face punitiva. Sob tais condições, nada se ganhará pregando contra o hedonismo e a auto-indulgência”. (Autor: Cristopher Lasch – Livro: O Mínimo Eu – Sobrevivência Psíquica em tempos difíceis – 4ª. Edição – Editora Brasiliense – 1987).

Atualmente, a nossa sociedade necessita de iluminação ética. É prioritário o investimento que privilegie pessoas com força interior, capazes de sugerirem juízos morais entre a grande variedade de escolhas disponíveis, e não de indivíduos que se comportam como escravos, que acatam as ordens, e se adaptam sem refletir nos dogmas morais propagados. É bom lembrar, que a essência da tradição liberal e humanista, com seu respeito pela inteligência humana e pela capacidade de auto-regulamentação é possível. A política e a filosofia moral sempre reconheceram que a consciência não se funda no medo, mas no alicerce emocional muito mais sólido da lealdade e da gratidão. Precisamos prover a segurança e a proteção inspiradoras de confiança, respeito e admiração.

Para apreciarmos a realidade cultural contemporânea são imprescindíveis decifrar as distensões tradicionais entre esquerda e direita, liberalismo e conservadorismo, políticas reformistas, progressistas e reacionárias, que se desmoronaram face às novas questões relativas à tecnologia, ao consumo, aos direitos da mulher, à deterioração ambiental, e muitas outras questões para as quais ninguém dispõe de respostas.  Os indivíduos que ocupam posições de liderança moral obteriam êxito, se ensinassem as habilidades da sobrevivência, cultuando a esperança de que a engenhosidade, a persistência emocional, a força interior possam habilitar as gerações mais jovens a suportar  e ultrapassar as tempestades do futuro. As sociedades pluralistas, dinâmicas e democratas devem construir a sua sabedoria moral no presente.

“O meu grupo principal de hipóteses é que os chamados valores superiores, valores eternos etc... são aproximadamente, o que apuramos como livres escolhas, na boa situação, daquelas pessoas a quem chamamos relativamente sadias (maduras, evoluídas, auto-realizadas, etc...), quando se sentem no auge de sua forma e vigor. Ou, para usarmos palavras mais descritivas, tais pessoas, quando se sentem fortes, se realmente for possível uma livre escolha, tendem espontaneamente para escolher o verdadeiro e não o falso, o bem e não o mal, a beleza e não a fealdade, a integração e não a dissociação, a alegria e não a tristeza, a vivacidade e não a apatia, a singularidade e não o estereótipo, e assim por diante, para o que já descrevi como S-Valores”( Autor: Abraham H. Maslow  -  Livro: Introdução à Psicologia do Ser  -  Livraria Eldorado Tijuca Ltda  -  Rio de Janeiro – 2ª Edição ).

As tendências para escolherem os valores sadios são notadas, levemente na maior parte dos seres humanos, mas são vistos com mais clareza e vigor nas pessoas sadias. Em nossos tempos, padronizou-se e deslegitimou-se a ética, porque as pessoas não são estimuladas a se lançarem na busca de idéias morais e a cultivar valores morais. Os políticos, impensadamente dispensaram as utopias e os idealistas tornaram-se pragmáticos, aceitando as formalidades da boa sociedade.

Foi comprovado que as pessoas sadias apreciam e valorizam não só a verdade, o bem e o belo, mas também os valores de sobrevivência e também os homeostáticos da paz e da quietude, do sono e do repouso, da dependência e segurança. Quanto mais saudável, mais forte, e sadia for a pessoa, mais ela procurará os valores de crescimento pessoal. Os grandes temas da ética como:
Direitos Humanos – Justiça Social – Equilíbrio entre cooperação pacífica e auto-afirmação pessoal – sincronização da conduta individual e do bem-estar coletivo, não perderam nada de sua atualidade. Apenas precisam ser vistos e tratados de maneira nova.   

“O homem é o ser que consegue ser consciente e, portanto responsável por sua própria existência. É esta capacidade de tornar-se consciente do próprio ser que distingue o ser humano dos outros seres. O homem é considerado não somente como um ser “existente em si próprio” como os demais seres, mas também “existente para si próprio., e que significa “a pessoa-que-é-responsável-por sua própria-escolha-existencial”. Ser é a potencialidade pela qual a semente se torna uma árvore ou cada um de nós se torna aquilo que realmente é”. (Autor: Rollo May – Livro: A Descoberta do Ser – Editora Rocco – Rio de Janeiro – 1988).

O sentimento de ser cria uma base para a auto-estima, que não é somente o reflexo das opiniões alheias sobre o indivíduo. Os nossos dons são parcialmente descobertos por nós dentro de nós próprios. E também são criados e escolhidos pela própria pessoa. Quase todas as necessidades, capacidades e talentos podem ser satisfeitos de diversas maneiras. A procura da identidade é essencialmente, uma busca dos valores intrínsecos e autênticos da própria pessoa.

Paul Tillich afirma: “A auto-afirmação de um ser fica mais forte à medida que ele absorve mais o não-ser”.O autoconhecimento ou conhecimento de si é a finalidade de uma busca ética.  O mundo é um padrão dinâmico no qual desde o momento em que possui autoconsciência, está em processo de planejar e projetar. A existência humana contém não somente numerosas possibilidades de ser como também e, principalmente está fundamentada nessa potencialidade múltipla de ser. Visto como um projeto ético, o que se busca  é a realização de algo que leve o sujeito a ser mestre de si mesmo, e, conseqüentemente um ser humano melhor.

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