quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

A NECESSIDADE DE OUVIR-SE A SI MESMO


REGINA DINIZ

“Quando Platão examinou a grande trilogia da Beleza, da Verdade e da Bondade, ele colocou em primeiro lugar a Beleza, porque a Beleza é harmonia, mas o teste da integridade, da Verdade ou da Bondade consiste em saber se são harmoniosas. A Bondade dá-nos respeito próprio: a Verdade, satisfação, mas a Beleza nos dá simultaneamente tanta paz como alegria. Platão acreditava que a Bondade, ou a Ética, consistia em agir  de uma maneira que fosse harmoniosa com nossos semelhantes, e isso fazia com que a ação fosse verificável por sua beleza. Na verdade, a mesma  palavra grega “Kalon” significa tanto beleza como bondade. Quando Rilke escreveu seu soneto “Ao Torso do Apolo desconhecido”, e o rematou com aquele desafio ético: “Você tem que mudar de vida”, ele estava expressando acuradamente a visão grega da vida. ( Autor – Rollo May – Livro – Minha Busca de Beleza – Editora Vozes Ltda – Agosto de 1992).

A maneira harmoniosa com seus semelhantes demonstra o autoconhecimento a nível pessoal, que abre um leque de possibilidades construtivas, viabilizando
elevada qualidade de pensamento consigo mesmo e com as outras pessoas. São necessários estudos e reflexões sobre o valor da ética humana, porque convivemos numa cultura materialista, que não admite o diálogo consigo mesmo, e conseqüentemente neutraliza a descoberta de si mesmo e do mundo. Pensar sobre os próprios valores existenciais, fazendo-se perguntas simples sobre a vida e o viver, nos oferece qualidade de vida, anulando ansiedades e depressões e também situações futuras difíceis.

As caminhadas matinais, os exercícios físicos nas esteiras, nos proporcionam momentos importantes, sobre a revitalização de possíveis energias emocionais. Quando caminhamos, contemplando as árvores, o sol, o silêncio, o canto dos pássaros, ficamos mais presentes, a fim de realizar com mais alegria os nossos planos de crescimento pessoal. Com o tempo poderemos nos envolver com a ética, com a concentração mental e com níveis de criações melhores. A vida possui características próprias, que devemos atendê-las e não desperdiçar a nossa preciosa existência em buscas por coisas, que não nos gratificam.   

“A Qualidade de Vida: um mundo que não se interessar pela beleza não será digno de ser salvo”. (Aristóteles 384-322) certamente tinha razão quando escreveu: - Não é a vida que se deve dar valor, mas a boa vida”. Para todos os gregos autênticos, isso era fundamental em seu conceito de ARETE: a vida nobre era antes de tudo a vida virtuosa, excelente, bela. Aí está a importância fundamental da beleza e da arte que brota do amor à beleza. As humanidades, tais como a Arte, A Música e a Poesia existem para uma finalidade apenas: realçar a qualidade da existência humana”. (  Autor: Rollo May – Livro – Minha Busca de Beleza – Editora Vozes Ltda – agosto de 1992 ).

A virtude é uma prática poderosa, podemos interpretá-la como a arte de praticar o bem, o que é justo, enfim ela é a excelência moral. No momento em que começamos a idealizar, em como viver bem a própria vida dizemos para nós mesmos: - tenho um conjunto de responsabilidades, tenho  relacionamentos a prezar como a família, o emprego, as amizades. A qualidade da personalidade se sustenta em níveis de comportamentos éticos que ajudam muito nos acertos existenciais.

Normalmente, queremos ser boas pessoas, corajosos e não covardes, justos e não injustos e decidimos corretamente em ajudar as pessoas. A Ética surge com o interesse não somente em viver a própria vida, mas em fazê-lo a fim de concretizar um bom trabalho. A felicidade para todos os pensadores antigos e modernos é a realização de quem vive uma vida admirável. Esta almejada qualidade de vida é a conquista da paz interior. O indivíduo em paz consegue bons relacionamentos, triunfa a solidariedade e todos ficam felizes.    

“Há apenas uma paixão, que satisfaz a necessidade humana de unir-se com o mundo, adquirindo ao mesmo tempo, sensação de integridade e individualidade, e esta paixão é o amor. O amor é a união com alguém, ou algo, fora da criatura, sob a condição de manter a separação e a integridade própria. É uma sensação de partilha, de comunhão, que permite a plena manifestação à atividade interior. O que importa é a qualidade particular de amar não o objeto do amor. O amor está na sensação de solidariedade humana com os nossos semelhantes, está no amor erótico entre homem e mulher, no amor materno e também no amor-próprio, como ser humano; está na sensação mística de união. (Erich Fromm – Livro: Psicanálise da Sociedade Contemporânea – Zahar Editores – 1979).

O amor, o desejo, a intenção, a vontade, a decisão são espaços afetivos, em torno dos quais circulam muitos assuntos, objetivos permanentes da criação, e da interpretação do indivíduo. A complexidade da alma humana estuda também as duas forças profundas que movem o homem: o amor e a vontade, e ele pensa profundamente na sua própria realidade pessoal e procura caminhos de interpretação e solução de seus problemas interiores.

Sinto uma profunda simpatia pela busca sincera e solidária de um bálsamo que tire a dor e cure as chagas profundas de nossa civilização tecnotrônica, visivelmente triste e insatisfeita. Mas não podemos nos contentar somente com o afeto pessoal, mas procurar também entender o efeito social de nossos sentimentos e atitudes. O mais importante é criar um estilo de vida que seja genuinamente interessante. Mesmo numa sociedade onde a segurança, a justiça e a liberdade estejam presentes, pode não ser favorável ao amor à vida se a criatividade criadora não for estimulada. Não basta os homens serem escravos, se as condições sociais favorecerem a existência de autômatos, o resultado não será amor a vida.    

 “Ainda não sei quem sou, mas, por vezes, quando sinto realmente determinadas coisas, tenho a impressão, durante um momento, da minha solidez e da minha realidade. Sinto-me perturbado pelas contradições que descubro em mim – atuo de uma maneira e sinto de outra. É realmente desconcertante. Mas, outras vezes, é uma aventura exultante tentar descobrir quem sou. As vezes me surpreendo, pensando que talvez eu seja uma boa pessoa. Começo a sentir muita satisfação, embora isso me seja muitas vezes penoso, em partilhar precisamente o que sinto em determinado momento. Sabem, ajuda realmente tentar ouvir-se a si mesmo,  ouvir o que se passa no próprio íntimo. Já não tenho tanto medo do que está se passando em mim. Sinto-me mais confiante. Durante as poucas horas que passo com ele, mergulho em mim mesmo para saber o que estou sentindo. É trabalho árduo, mas quero saber. Durante a maior parte do tempo, tenho confiança nele e isso me ajuda. (  Autor-Carl R.Rogers – Livro – Tornar-se Pessoa – Livraria Martins Fontes Editora Ltda. São Paulo – 1985).

A descoberta que reside no autoconhecimento é complexa, pois o começo e o fim estão dentro de nós. Perceber a felicidade, o amor, a esperança fora de nós nos leva à ilusão, ao sofrimento. Encontrar a felicidade, paz e alegria dentro de nós requer refinamento nas mediações construtivas, que nos permitem a estudar a nós mesmos. Estamos profundamente convictos de nossos motivos, de nossos desejos de melhorar o mundo, de nossas altas metas nos investimentos do vir a ser, que exigem absoluta atenção interior.

Sem a compreensão de nós mesmos para poder decifrar os mecanismos superficiais de reformas econômicas e sociais, somos e continuaremos a ser manipulados, desse modo não podemos melhorar o mundo, mas colaborar para maior confusão e miséria. No entendimento de nós mesmos virá a lucidez e a ordem. Se nos levarmos a sério e nos tornar conscientes de nossa inteligência e assim cultivarmos o autoconhecimento de onde nasce o pensar correto, então criaremos um espelho em nós, que mostrará os nossos pensamentos mais elevados. Afugentaremos para sempre de nossas mentes as distrações e divagações estéreis, que não são nossas próprias criações vem então o pensar correto. Precisamos fazer a nossa parte de seres inteligentes que somos.     

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