quinta-feira, 14 de março de 2013

IDENTIDADE E LIBERDADE DE SER



REGINA DINIZ

Na sociedade antiga há o mestre e o escravo. Mais tarde, o senhor e o servo.
Mais tarde, o capitalista e o assalariado. A cada um desses estágios corresponde uma determinada servidão: sabe-se quem é o mestre, sabe-se quem é o escravo. Doravante tudo é diferente: o mestre desapareceu, só restam os servos e a servidão. Ora, o que é um escravo sem mestre? É aquele que devorou seu mestre e o interiorizou, a ponto de se tornar seu próprio mestre. Não o matou para se tornar o mestre (isso é a Revolução), absorveu-o permanecendo escravo, e mesmo mais escravo do que escravo, mais servo do que servo: servo de si mesmo. Estágio último de sua servidão que, de regressão em regressão, retorna até ao sacrifício. Exceto que ninguém lhe dá mais a honra de sacrificá-lo e, em desespero de causa, ele é forçado a se sacrificar a si mesmo e à sua própria vontade. Nossa sociedade de serviços é uma sociedade de servos, de homens servilizados a seu próprio uso, sujeitados a suas funções e a seus desempenhos – perfeitamente emancipados, perfeitamente servos. ( autor: Jean Baudrillard – livro: A Troca impossível – ed.-Nova Fronteira – 2002 – Rio de Janeiro ).

A evidência do consumo criada pela multiplicação dos objetos, serviços e bens materiais originou uma mutação abismal na espécie humana. Os indivíduos da cultura padronizada não se encontram rodeados como sempre acontecera, por outros seres humanos, mas por objetos. O conjunto das suas relações sociais, já não tanto com seus semelhantes, mas com a recepção e manipulação de mensagens, desde a organização doméstica extremamente complexa com dezenas de escravos técnicos, e de toda a maquinaria material das comunicações, até a celebração do objeto na publicidade.

O homem dos tempos modernos começa a ter dificuldades em reencontrar os reflexos da civilização. Percebe a manipulação midiática e deseja a experiência de autonomia, descobre o senso do poder pessoal e possibilidades, que ele espera alcançar. Atualmente a maioria coloca a liberdade na posição mais elevada de sua lista de valores. Os eventos políticos da atualidade e os riscos implícitos para as conquistas máximas da cultura moderna mostram uma forte inclinação pela individualidade e originalidade da personalidade.

“Qual é, pois, o significado da liberdade para o homem moderno? Ele se tornou livre dos vínculos externos, que o impediam de fazer e pensar o que achava adequado. Teria liberdade de agir segundo sua própria vontade, caso soubesse o que quer, pensa e sente, porém não sabe. Conforma-se com autoridades anônimas, e adota um ego que não é dele. Quanto mais faz isto, tanto mais impotente se sente, e tanto mais obrigado fica a conformar-se. A despeito de uma casca de otimismo e iniciativa o homem moderno é dominado  por um sentimento entranhado de impotência, que o faz encarar as catástrofes que se aproximam como se estivesse paralisado. ( Autor - Erich Fromm – Livro – O Medo à Liberdade – 14ª. Edição – 1983 – Ed. – Zahar Editores).

O filósofo Schelling repete interminavelmente em sua obra: “O homem nasceu para agir e não para especular”, também proclama: “O começo e o fim de toda filosofia é a liberdade”. A contemporaneidade considera que a liberdade é a qualidade mais ameaçada da era moderna. A proposta da liberdade favorece a descoberta dos dons e dos talentos, que estimulam tarefas vigorosas de  crescimento pessoal e espiritual.

Conformar-se com as expectativas culturais da padronização dilaceram a nossa identidade, porque sabemos que nos enganamos com falsa segurança. Pensamos, sentimos e desejamos o que acreditamos que devemos pensar, sentir e desejar. É neste processo que erguemos e fortalecemos o nosso ego, erguendo a legítima segurança de uma pessoa livre. A proposta da liberdade como o alicerce da civilização está provado e registrado há milênios atrás, não é justificável que ele se aliene tornando-se parte da máquina feita por suas próprias mãos.

“A palavra possibilidade vem do latim posse “ser capaz”, que é também a raiz original de poder. Assim começa esse longo e tortuoso relacionamento, interminavelmente discutido nos parlamentos do mundo, pelo qual se lutou e se morreu em incontáveis campos de batalha, o relacionamento, entre  liberdade e poder, A impotência, nós sabemos, equivale à escravidão. É um truísmo que, se as pessoas querem liberdade, devem ter o poder pessoal equivalente, sob a forma de autonomia e responsabilidade”. (Autor – Rollo May – Livro: Liberdade e Destino – 1987 – Rio de Janeiro – Ed. Rocco).

O ser humano tem consciência de seus poderes de independência pessoal, acredita em seus poderes de liberdade criativa. Um produto desta afirmação é a civilização. Modernamente as mediações humanas progrediram consideravelmente, observando-se que o aspecto cooperativo e amoroso da existência, anda de mãos dadas com a competição e o poder. Na apreciação do mundo há o cuidado com o apoio aos nossos semelhantes, que se adquire em diálogos e negociações de forma cooperativa.

O clamor por reconhecimento torna-se o clamor psicológico central: afirmar-se no mundo pela própria capacidade construtiva para ser aceito coloca significados. Aparece a questão da significação e a longa e decisivamente importante busca de amor próprio ou de algum substituto do mesmo, acompanhada da aflição que a sua carência provoca.  Com os seres humanos, o problema principal deixa agora de ser o de sobreviver com certa estima.

As mediações atuais evitam confrontações tumultuosas sempre que possível. Surgiu uma nova avaliação de muitos conceitos e valores de nossa cultura, que propiciou uma mudança completa ou acentuada, em muitos princípios e procedimentos. Alterou radicalmente o pensamento sobre poder e controle nos relacionamentos entre pessoas. Refere-se a lares, escolas, indústrias e pontos de contato entre raças e culturas, que foram drasticamente modificados por pessoas seguras de si mesmo, que confiam em seu próprio poder, não sentem necessidade de ter “poder sobre” e que descobriram que estão dispostas a estimular e facilitar a força latente na outra pessoa.

Os modos comuns de proceder sofreram uma reviravolta por uma confiança básica no potencial construtivo da pessoa. Estas mudanças mostram que as pessoas devem ser motivadas a serem criativas em suas propostas. O poder e o controle terminaram. Este entrelaçamento de uns com os outros aponta para um futuro de natureza muito diferente, favorecendo o surgimento de um novo tipo de pessoa equilibrada. e com maior cabedal de criatividade.

O ser humano é basicamente um organismo digno de confiança, capaz de avaliar a situação externa e interna, compreendendo a si mesmo no seu contexto, fazendo escolhas construtivas quanto aos próximos passos na vida, e agindo a partir destas escolhas. Podemos nos ajudar na liberação dessas capacidades, quando nos relacionamos como uma pessoa real para com os outros, possuindo e exprimindo nossos próprios sentimentos, quando vivenciamos um cuidado e consideração não possessiva em relação aos outros, e quando compreendemos com aceitação o mundo interno da outra. Quando nos dirigimos a um indivíduo ou a um grupo, descobre-se que, com o tempo, as escolhas feitas, as direções seguidas, as ações empreendidas são pessoalmente cada vez mais construtivas e tendem para uma harmonia social mais realística com os outros. 

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