sábado, 4 de maio de 2013

O MUNDO HUMANAMENTE SIGNIFICATIVO



 REGINA  DINIZ

“O mundo enquanto invocado pela tecnologia é um mundo “desencantado”, um mundo sem sentido próprio, porque sem “intenção”, sem “propósito”, sem “destino”. Nesse mundo, “necessidade natural” é abominação e ofensa, à alta e poderosa humanidade, e toda resistência da “matéria morta” não passa de constrição a ser quebrada. De outro lado, desejos (bastando ser apoiados por recursos técnicos) tornam-se direitos humanos que nada poderia questionar, nem se poderia argumentar para eliminá-los – nem mesmo os desejos de outros humanos (se não apoiadas por tais recursos). Na modernidade não existe nenhuma ordem do mundo humanamente significativa... Este mundo destituído de valores, para o qual os valores são super-acrescentados por escolha humana, é um mundo sub-humano, um mundo de objetos, de  coisas... É um mundo sem homem, um mundo do qual o  homem se afastou deliberadamente e sobre o qual conseqüentemente ele é capaz de impor sua vontade”. ( Autor: Louis Dumont – Livro: Essays ou individualism: moderny ideology in anthropological perspective, University of Chicago Preses – l986 – pág. 262 ). Citação de Zygmunt Bauman – Livro: Ética Pós Moderna - Ed. Paulus São Paulo – 1997 – Brasil.).

A crença de que o progresso social é produto do desenvolvimento econômico, cujo objetivo é o aperfeiçoamento da sociedade faliu completamente, porque o desenvolvimento econômico sem o investimento cultural é a razão de toda desigualdade. A conseqüência de maior frustração social é que todos aceitaram se comparar, como aceitaram a se medir, tendo como base a desigualdade de condições. A pedagogia cultural deve centralizar a formação  de cidadãos capazes de investir, e contribuir para a harmonia social e não para a frustração pessoal e social.

É possível escolher e apoiar a política governamental que elimine a pobreza. Os indivíduos ambicionam muito mais do que serem pessoas rodeadas por coisas e por objetos, bem como de serem manipulados para serem robôs de uma cultura que nega a criatividade humana, desejam urgentemente o crescimento subjetivo. Ninguém mais agüenta a política do medo cotidiano, mesmo porque é impossível prender os marginalizados da cultura de consumo que é a população recalcada pela desigualdade social. Atualmente a dor profunda de não ser, deu lugar à vergonha de não ter.

“É extremamente importante saber se a sociedade no sentido atual do termo é o resultado de uma limitação do princípio de que os homens são predadores uns dos outros ou se, pelo contrário, ela resulta da limitação do princípio de que os homens existem para os outros. Será que o social, com suas instituições, leis e formas universais, resulta da limitação das conseqüências da guerra entre os homens ou da limitação da infinidade que se abre na relação ética de homem para homem? ( Autor: Emmanuel Levinas – Livro: Ethics and Infinity, pg. 80).

É valioso recordar a pergunta de Moisés: - Caim onde se encontra Abel? Caim respondeu indignado: - Serei eu o zelador de meu irmão? Afirmou que não era seu dever cuidar do irmão. A Ética, por milênios e milênios, tem divulgado que a conduta deve primar por objetivos solidários, ou seja, a benevolência entre as pessoas não será moral, se não for desinteressada. Um ato é eticamente moral, quando ele expressa a manifestação de humanidade impensada, espontânea e principalmente irrefletida.

A ética pressupõe que o ser humano sempre deve estar em primeiro lugar, todos cuidando de todos com responsabilidade. É incompreensível as moralidades atuais, que são guiadas pelas expectativas de lucro, conforto, notoriedade, reforço do ego, aplauso público ou qualquer outro tipo de promoção.  A razão crucial pela demanda ética, aquela motivação “objetiva”, o ser moral que resulta do próprio fato de estar vivo, e compartilhar o planeta com outros seres vivos é o que deve ser, é o que deve ser multiplicado e não permanecer silenciosa. O outro nos obriga a nos preocuparmos por sua fraqueza e não pelo seu poder.

“A cultura de consumo faz muito barulho, assim como o tambor, porque está vazia; e na hora da verdade, quando o estrondo cessa e acaba a festa, o bêbado acorda, sozinho, acompanhado pela sua sombra e pelos pratos quebrados que deve pagar. A expansão da demanda se choca com as fronteiras impostas pelo mesmo sistema que a gera. O sistema precisa de mercados cada vez mais abertos e mais amplos tanto quanto os pulmões precisam de ar e, ao mesmo tempo, requer que estejam no chão, como estão, os preços das matérias primas e da força de trabalho humana. O sistema fala em nome de todos, dirige a todos suas imperiosas ordens de consumo, entre todos espalha a febre  compradora; mas não tem jeito: para quase todo o mundo esta aventura começa e termina na telinha da TV. A maioria, que contrai dívidas para ter coisas, termina tendo apenas dívidas para pagar suas dívidas, que geram novas dívidas, e acaba consumindo fantasias que, às vezes, materializa cometendo delitos. O direito ao desperdício, que é privilégio de poucos, afirma ser a liberdade de todos.( Autor: Eduardo Galeano – Livro:O Império do Consumo).

As pessoas que aderiram a sociedade de consumo foram condenadas a insônia, pela ansiedade de comprar e pela angústia de pagar. Este modo de vida destrói as pessoas, mas é muito bom para a indústria farmacêutica. Os EUA consomem metade dos calmantes,  e demais drogas químicas que são vendidas legalmente ao mundo. Nunca existiu em nosso planeta uma proposta de mercado tão violenta e atrasada: a diversidade é inimiga da rentabilidade e a uniformidade é que manda. Os séculos futuros ficarão horrorizados com tamanha decadência.

A produção em série, em escala gigantesca impõe em todas as partes suas pautas obrigatórias de consumo. Esta ditadura da uniformidade obrigatória  é devastadora. Os ideólogos da Sociedade Consumista sabem transformar as mercadorias em mágicos conjuntos contra a solidão. Isolaram os seres humanos, silenciaram a interação, tornaram-se facilmente escravos das coisas.
Mas as coisas possuem atributos humanos: acariciam, fazem companhia, compreendem, ajudam, o perfume beija as pessoas e o carro é o maior amigo que nunca falha. A cultura do consumo fez da solidão o mais lucrativo dos mercados.

“A sociedade humana é diferente do bando de animais. Nela alguém poderia ajudar um  inválido a sobreviver. É diversa porque tem condições de conviver com inválidos, tanto que poderíamos dizer, historicamente, que a sociedade humana nasceu com a compaixão e com o cuidado do outro, qualidades apenas humanas. A preocupação contemporânea está toda aí: levar essa compaixão e essa solicitude para a esfera planetária. Sei que gerações precedentes já enfrentaram essa tarefa, mas vocês terão de prosseguir nesse caminho, gostem ou não, a começar por sua casa, por sua cidade, e já. Não consigo pensar em nada mais importante que isso. É por aí que devemos começar”. ( autor:Zygmunt Bauman – Livro: Confiança e Medo na  Cidade – Ed. Jorge Zahar – Rio de Janeiro – 2009).

Todos nós buscamos uma forma de desenvolvimento, mais humanitária, ética e próspera, incluindo os seres humanos no crescimento pessoal e social, mas necessitamos fazer a nossa parte, como membros de uma sociedade evoluída. Com simplicidade, podemos meditar profundamente, conosco e com os outros, e nos motivar a participar ativamente na construção de um mundo mais justo. A intolerância social e a pobreza extrema poderão ser resolvidas nos aproximando construtivamente de nós e de outras pessoas amigavelmente.

Qual é o benefício maior, que a prática da compaixão nos oferece? Ela nos traz força interior. Todas as experiências negativas se tornam muito dolorosas. Curamo-nos, quando nos lembramos dos outros afetivamente através de pensamentos positivos porque a nossa mente se amplia, e os nossos problemas se apequenam trazendo a paz duradoura. Quando procuramos consolar o sofrimento de nossos amigos, essa  atitude voluntária abre as portas para o ser .Mesmo que emaranhada por problemas pessoais, esta atitude afetiva nos traz uma base de clareza, e a pessoa terá força para se sustentar.   

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