REGINA DINIZ
Juremy Seabrook
descreveu em cores vivas o destino dos pobres globais, nos dias de hoje
tantas vezes expulsos de sua terra e forçados a buscar sobrevivência nas
favelas que crescem a cada dia na
megalópole mais próxima. “A pobreza global está em fuga. Não porque seja expulsa
pela riqueza, mas porque foi expulsa de uma hinterlândia exaurida e
transformada. A terra que cultivavam, viciada em fertilizantes e pesticidas,
não mais fornecia um excedente a ser vendido no mercado. O ar está contaminado,
os canais de irrigação, assoreados; a água poluída e imprópria para beber... A
terra foi tomada pelo governo para a construção de um resort litorâneo, um
campo de golf ou, sob a pressão dos planos de ajuste estrutural, para exportar
mais produtos agrícolas... Os prédios das escolas carecem de manutenção. O
posto de saúde se fechou... As florestas, onde as pessoas colhiam madeiras,
frutos e bambu para consertos domésticos, se tornaram zonas proibidas,
vigiadas por homens a soldo de alguma
empresa semimilitar privada: (Autor: ZIGMUNT BAUMAN – Livro: - Vida Líquida –
Ed.Jorge Zahar – 2009 – Rio de Janeiro).
Os
membros da “subclasse Global” carregam suas trouxas para cidades hostis, Ásia,
África e América Latina. São tratados não como seres humanos, mas como a
escória, o lixo e o detrito do livre-comércio e do “progresso econômico
globais, que na extremidade do espectro sedimentam as alegrias de uma riqueza
sem precedentes, ao mesmo tempo, que despejam uma pobreza e humilhação indescritíveis
no outro extremo. É muito triste esta experiência de vida pela agonia da solidão
ao abandono, a falta de moradia, a hostilidade dos vizinhos, ao desaparecimento
dos amigos que podiam confiar e com cuja ajuda podiam contar.
Para
sair deste ponto morto do desenvolvimento global precisamos questionar este
cenário falido. É possível que uma política global e local de desenvolvimento
sustentável (para todos) não deveria ser recessiva, mas multiplicadora de
oportunidades. O corretamente social seria não inviabilizar o lucro, mas
desconcentrá-lo. Porque uma sociedade alimentada, ocupada, educada, com níveis
de saúde adequados, democraticamente participativa e consciente de seus limites
é uma sociedade pacífica e ecológica, com níveis de egoísmo e violência baixos.
Como
observam Gumpert e Drucker: “Quanto mais
nos separamos de nossas vizinhanças imediatas, mais confiança depositamos na
vigilância do ambiente. Existem, em muitas áreas urbanas, um pouco do mundo
todo, casas construídas para proteger seus habitantes e não para integrá-los
nas comunidades às quais pertencem”. O comentário que fazem é: “Justamente
quando estendem seus espaços de comunicação para a esfera internacional, esses
moradores colocam a vida social, porta afora, potencializando os seus
‘sofisticados’ sistemas de segurança. Mais ou menos do mundo inteiro, começam a
se evidenciar nas cidades certas zonas, certos espaços – fortemente
correlacionados a outros espaços ‘de valor’ situados nas paisagens urbanas, na
nação ou em outros países, mesmo a distâncias enormes – nos quais, por outro
lado, se percebe muitas vezes uma tangível e crescente sensação de afastamento
em relação às localidades e às pessoas fisicamente vizinhas, mas social e
economicamente distantes. ( Autores: G.Gumpert e S.I. Drucker –
Livro – The Mediated Home in
Global Village, Communication Research , vol:25 n.4, ago 1998, p.422-38)
-Cit.Zygmunt Bauman – Livro: Confiança e Medo na Cidade – Ed. Zahar – 2009 – Rio de Janeiro ).
Penso
e repenso, e não consigo compreender porque os regulamentos estabelecidos por nós mesmos não significam
benefício e proteção para cada um de nós. A insegurança moderna, em suas
múltiplas manifestações, é caracterizada pelo medo dos roubos, dos crimes e dos
criminosos. Desconfiamos dos outros e de suas intenções, nos recusamos a
confiar na constância e na regularidade da solidariedade humana.
É
nesse contexto social que reaparece o apelo à solidariedade, para que todos,
sem distinções de classes, comprometam-se
na solução dos problemas sociais, principalmente a fome e a miséria e
pela vida. A Ação da Cidadania contra a Miséria e pela Vida (ACMV) deveria ser
o maior projeto do Brasil. Hoje a solidariedade humana é fundamental na
emergência dos que morrem de fome, enquanto aguardam a materialização das
propostas nas mudanças de estrutura. E essas reformas estruturais só
acontecem quando as mudanças do dia-a-dia ocorrem pela ação das pessoas,
de todas as pessoas. Só assim o nosso Brasil terá Paz.
“A crença de que o progresso social é produto
do desenvolvimento econômico, cujo objetivo é o aperfeiçoamento da sociedade: “O
amanhã será melhor do que hoje” – cedeu espaço a um pessimismo no qual o
desenvolvimento econômico é a razão de toda a desigualdade – “o amanhã será
pior do que hoje”. Quer dizer: a grande transformação do capitalismo industrial em financeiro
implicou não só em uma nova forma de produção social, mas também de regulação
social, algo que Robert Castel se propôs a analisar em sua obra: (‘Metamorfose’
da Questão Social’ – Vozes, 1998), atualizada depois em El Ascenso de las incertidumbres
(FCE, 2010 ).
Robert
Castel define nossa época como a da emergência da sociedade salarial, na qual
os indivíduos se constituem ao redor de um contínuo de posições salariais
interdependentes. A conseqüência é que tudo circula, todos se medem e se
comparam, porém, sobre a base de uma desigualdade de condições. Atualmente as
desigualdades são superadas não na dialética da luta de classes, mas na
negociação dos diversos grupos profissionais colocando fim da radicalidade da
idéia de conflito.
A
crítica de Robert Castel é que neste sistema, a possibilidade de limitação da
arbitrariedade patronal e a existência de certa “proteção social” nada mais são
do que um consenso débil do capitalismo industrial que, em realidade, amplia
desigualdades, em vez de reduzi-las, pois se trata mais uma vez de subordinar o
mundo do trabalho ao do capital. Castel refletiu sobre o sentimento do
desemprego e da ausência de perspectivas integrantes da nossa subjetividade no
mundo do trabalho, A “nova questão social” é, em primeiro lugar a constatação
do enfraquecimento da condição salarial com o fim do pleno emprego – cuja marca
principal é o nascimento dos “trabalhadores sem trabalho”.
“Não
é a política tradicional, são os movimentos sociais que mudarão o mundo. A
juventude é um campo aberto. Existem pessoas altruístas, mas a maioria se move
pela emoção. Os movimentos sociais em ebulição no mundo hoje não são apenas
grupos de protestos são o ensaio para a sociedade do futuro. Com o
desenvolvimento de redes de comunicação, surgiram as condições para uma
sociedade totalmente nova, ela também extremamente interconectada”. (Manuel
Castells – Palestra: Um Mundo Em Rede – Fronteiras do Pensamento – 10-06- 2013
– Porto Alegre – R.G.Sul.).
Manuel
Castells usa a nascente noção de conexão global proporcionada pelas novas
tecnologias para pensar as mudanças na relação entre o local e o global e as conseqüências
dessas mudanças nas esferas da cultura, da interação social e do exercício do
poder político. Castells interpreta recentes movimentações populares
espontâneas em seu mais recente livro – Rede de Indignação e Esperança, no qual
descreve a quebradeira na Islândia, o Occuppy Wall Street, o levante dos
Indignados na Espanha.
Manuel
Castells analisa no livro a formação desses movimentos de protestos, suas
dinâmicas, seus valores e perspectivas, e sua relação bem pouco referente com os sistemas políticos tradicionais e suas
fórmulas consagradas. Movimentos sociais em rede, características do nosso tempo, rejeitam tais fórmulas
políticas porque, de acordo com eles, reproduzem o mesmo modelo antidemocrático de
representação, seja de esquerda ou de direita. Não são movimentos para defender
um programa, e sim para mudar a sociedade e a política concluiu ele.

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