quinta-feira, 20 de junho de 2013

A RESPONSABILIDADE PELA MELHORIA PROGRESSIVA DE TODOS


REGINA DINIZ


Juremy  Seabrook  descreveu em cores vivas o destino dos pobres globais, nos dias de hoje tantas vezes expulsos de sua terra e forçados a buscar sobrevivência nas favelas que crescem  a cada dia na megalópole mais próxima. “A pobreza global está em fuga. Não porque seja expulsa pela riqueza, mas porque foi expulsa de uma hinterlândia exaurida e transformada. A terra que cultivavam, viciada em fertilizantes e pesticidas, não mais fornecia um excedente a ser vendido no mercado. O ar está contaminado, os canais de irrigação, assoreados; a água poluída e imprópria para beber... A terra foi tomada pelo governo para a construção de um resort litorâneo, um campo de golf ou, sob a pressão dos planos de ajuste estrutural, para exportar mais produtos agrícolas... Os prédios das escolas carecem de manutenção. O posto de saúde se fechou... As florestas, onde as pessoas colhiam madeiras, frutos e bambu para consertos domésticos, se tornaram zonas proibidas, vigiadas  por homens a soldo de alguma empresa semimilitar privada: (Autor: ZIGMUNT BAUMAN – Livro: - Vida Líquida – Ed.Jorge Zahar – 2009 – Rio de Janeiro).

Os membros da “subclasse Global” carregam suas trouxas para cidades hostis, Ásia, África e América Latina. São tratados não como seres humanos, mas como a escória, o lixo e o detrito do livre-comércio e do “progresso econômico globais, que na extremidade do espectro sedimentam as alegrias de uma riqueza sem precedentes, ao mesmo tempo, que despejam uma pobreza e humilhação indescritíveis no outro extremo. É muito triste esta experiência de vida pela agonia da solidão ao abandono, a falta de moradia, a hostilidade dos vizinhos, ao desaparecimento dos amigos que podiam confiar e com cuja ajuda podiam contar.

Para sair deste ponto morto do desenvolvimento global precisamos questionar este cenário falido. É possível que uma política global e local de desenvolvimento sustentável (para todos) não deveria ser recessiva, mas multiplicadora de oportunidades. O corretamente social seria não inviabilizar o lucro, mas desconcentrá-lo. Porque uma sociedade alimentada, ocupada, educada, com níveis de saúde adequados, democraticamente participativa e consciente de seus limites é uma sociedade pacífica e ecológica, com níveis de egoísmo e violência baixos.  

Como observam Gumpert e Drucker:  “Quanto mais nos separamos de nossas vizinhanças imediatas, mais confiança depositamos na vigilância do ambiente. Existem, em muitas áreas urbanas, um pouco do mundo todo, casas construídas para proteger seus habitantes e não para integrá-los nas comunidades às quais pertencem”. O comentário que fazem é: “Justamente quando estendem seus espaços de comunicação para a esfera internacional, esses moradores colocam a vida social, porta afora, potencializando os seus ‘sofisticados’ sistemas de segurança. Mais ou menos do mundo inteiro, começam a se evidenciar nas cidades certas zonas, certos espaços – fortemente correlacionados a outros espaços ‘de valor’ situados nas paisagens urbanas, na nação ou em outros países, mesmo a distâncias enormes – nos quais, por outro lado, se percebe muitas vezes uma tangível e crescente sensação de afastamento em relação às localidades e às pessoas fisicamente vizinhas, mas social e economicamente distantes. ( Autores: G.Gumpert e S.I. Drucker –
Livro – The Mediated Home in Global Village, Communication Research , vol:25 n.4, ago 1998, p.422-38) -Cit.Zygmunt Bauman – Livro: Confiança e Medo na Cidade – Ed. Zahar – 2009 – Rio de Janeiro).

Penso e repenso, e não consigo compreender porque os regulamentos  estabelecidos por nós mesmos não significam benefício e proteção para cada um de nós. A insegurança moderna, em suas múltiplas manifestações, é caracterizada pelo medo dos roubos, dos crimes e dos criminosos. Desconfiamos dos outros e de suas intenções, nos recusamos a confiar na constância e na regularidade da solidariedade humana.

É nesse contexto social que reaparece o apelo à solidariedade, para que todos, sem distinções de classes, comprometam-se  na solução dos problemas sociais, principalmente a fome e a miséria e pela vida. A Ação da Cidadania contra a Miséria e pela Vida (ACMV) deveria ser o maior projeto do Brasil. Hoje a solidariedade humana é fundamental na emergência dos que morrem de fome, enquanto aguardam a materialização das propostas nas mudanças de estrutura. E essas reformas estruturais só acontecem  quando as mudanças  do dia-a-dia ocorrem pela ação das pessoas, de todas as pessoas. Só assim o nosso Brasil terá Paz.  

 “A crença de que o progresso social é produto do desenvolvimento econômico, cujo objetivo é o aperfeiçoamento da sociedade: “O amanhã será melhor do que hoje” – cedeu espaço a um pessimismo no qual o desenvolvimento econômico é a razão de toda a desigualdade – “o amanhã será pior do que hoje”. Quer dizer: a grande transformação  do capitalismo industrial em financeiro implicou não só em uma nova forma de produção social, mas também de regulação social, algo que Robert Castel se propôs a analisar em sua obra: (‘Metamorfose’ da Questão Social’ – Vozes, 1998), atualizada depois em El Ascenso de las incertidumbres (FCE, 2010 ).

Robert Castel define nossa época como a da emergência da sociedade salarial, na qual os indivíduos se constituem ao redor de um contínuo de posições salariais interdependentes. A conseqüência é que tudo circula, todos se medem e se comparam, porém, sobre a base de uma desigualdade de condições. Atualmente as desigualdades são superadas não na dialética da luta de classes, mas na negociação dos diversos grupos profissionais colocando fim da radicalidade da idéia de conflito.

A crítica de Robert Castel é que neste sistema, a possibilidade de limitação da arbitrariedade patronal e a existência de certa “proteção social” nada mais são do que um consenso débil do capitalismo industrial que, em realidade, amplia desigualdades, em vez de reduzi-las, pois se trata mais uma vez de subordinar o mundo do trabalho ao do capital. Castel refletiu sobre o sentimento do desemprego e da ausência de perspectivas integrantes da nossa subjetividade no mundo do trabalho, A “nova questão social” é, em primeiro lugar a constatação do enfraquecimento da condição salarial com o fim do pleno emprego – cuja marca principal é o nascimento dos “trabalhadores sem trabalho”.  

“Não é a política tradicional, são os movimentos sociais que mudarão o mundo. A juventude é um campo aberto. Existem pessoas altruístas, mas a maioria se move pela emoção. Os movimentos sociais em ebulição no mundo hoje não são apenas grupos de protestos são o ensaio para a sociedade do futuro. Com o desenvolvimento de redes de comunicação, surgiram as condições para uma sociedade totalmente nova, ela também extremamente interconectada”. (Manuel Castells – Palestra: Um Mundo Em Rede – Fronteiras do Pensamento – 10-06- 2013 – Porto Alegre – R.G.Sul.).

Manuel Castells usa a nascente noção de conexão global proporcionada pelas novas tecnologias para pensar as mudanças na relação entre o local e o global e as conseqüências dessas mudanças nas esferas da cultura, da interação social e do exercício do poder político. Castells interpreta recentes movimentações populares espontâneas em seu mais recente livro – Rede de Indignação e Esperança, no qual descreve a quebradeira na Islândia, o Occuppy Wall Street, o levante dos Indignados na Espanha.


Manuel Castells analisa no livro a formação desses movimentos de protestos, suas dinâmicas, seus valores e perspectivas, e sua relação bem pouco referente  com os sistemas políticos tradicionais e suas fórmulas consagradas. Movimentos sociais em rede, características  do nosso tempo, rejeitam tais fórmulas políticas porque, de acordo com eles, reproduzem  o mesmo modelo antidemocrático de representação, seja de esquerda ou de direita. Não são movimentos para defender um programa, e sim para mudar a sociedade e a política concluiu ele.  

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