REGINA DINIZ
Quem
poderia contrabalançar as tendências à desigualdade tão impressionantemente
visíveis nas Décadas de Crise? A julgar pela experiência das décadas de 1970 e
1980, não seria o livre mercado. Se essas décadas provaram alguma coisa, foi
que o grande problema político do mundo, e certamente do mundo desenvolvido,
não era como multiplicar a riqueza das nações, mas como distribuí-la em
benefício de seus habitantes. Isso se dava mesmo em países pobres “em desenvolvimento”
que precisavam de mais crescimento econômico. ( Autor: Eric Hobsbawm – Livro:
Era dos Extremos – ano 2009 – Editora: Companhia das Letras).
A
nossa era é dominada por grande insegurança e também por crises devastadoras e
este quadro se repete há séculos. Hoje, não há nações vitoriosas ou derrotadas
nem mesmo na Europa oriental. Os problemas permanecem os mesmos: o uso abusivo
e descarado da vantagem social e o desordenado poder do dinheiro, que sempre
dirige o curso dos acontecimentos.
O
século XX acabou com muitos problemas, para os quais ninguém apresentou
soluções. As autoridades globais, nacionais e transnacionais sempre estiveram
de olho nos países que precisavam de dinheiro emprestado para impor-lhes
políticas monetárias. Décadas de crises destruíram o consenso político.
Surgiram povos solidamente identificados com seus governos, mas eram poucos na
década de 1990. Os cidadãos de muitos países admitiram a idéia de um Estado
forte, ativo e socialmente responsável, merecendo a liberdade de ação porque
servia ao bem-estar comum. Mas esses Estados eram raros.
Houve
muitos países, onde o governo era suspeito por aderir a um anarquismo, individualista
misturado com disputas e políticas de mamatas.Tinham também numerosos países, onde
o Estado era tão ignorante socialmente e corrupto, que os cidadãos
decepcionados não esperavam um governo que produzisse o bem público. Estes
países são comuns no terceiro mundo.
No
século XX surgiu a democracia liberal, enfrentando sérios problemas de política
para os quais as eleições de presidentes e assembléias pluripartidárias não
eram importantes. Brilhava no imaginário social o desejo de uma época em que o
governo devia ser “do povo” e “para o povo”, mas não podia ser exercido “pelo
povo”, entretanto os candidatos representativos competiam pelo voto do povo. No
início do século XXI, um grande número de cidadãos se retirava da política,
deixando as questões de Estado para a classe
política.
“Não
sabemos para onde estamos indo. Só sabemos que a história nos trouxe até este
ponto e por quê. Contudo uma coisa é clara. Se a humanidade quer ter um futuro
reconhecível, não pode ser pelo prolongamento do passado ou do presente. Se
tentarmos construir o terceiro milênio nessa base, vamos fracassar. E o preço
do fracasso, ou seja, a alternativa para uma mudança da sociedade é a
escuridão”. ( Autor: Eric Hobsbawm – Livro – Era dos Extremos).
“Metamorfoses
da questão social foi explicitamente nomeada como tal, pela primeira vez, nos
anos de 1830. Foi então suscitada pela tomada de consciência das condições de
existência das populações que são ao mesmo tempo, os agentes e as vítimas da
Revolução Industrial. É a questão do pauperismo. Momento essencial aquele em
que pareceu ser quase total o divórcio entre uma ordem jurídica-política,
fundada sobre o reconhecimento dos direitos dos cidadãos, e uma ordem econômica
que acarreta miséria e desmoralização de massa. Difunde-se então a convicção de
que aí há de fato “uma ameaça a ordem política e moral”, e ou, mais
energicamente ainda: É preciso encontrar um remédio eficaz para a chaga do
pauperismo ou preparar-se para a desordem do mundo”. (Autor: E. Buret, De la
misere dês classes laborieuses em France et en Angleterre, Paris, 1840, t.I.,
p.98). Citação por Robert Castel – Editora Vozes Ltda – 10 Edição – 2012).
Aquilo
que dificilmente se compreende, que é um verdadeiro mistério é a promoção e a
aceitação de um multiplicador da riqueza, que instala a miséria em seu centro
de difusão. Propostas de mudanças se fossem estudadas e debatidas renovariam
toda a paisagem social. Como imaginar a saúde emocional de um homem que há
muito tempo está desempregado, recolhido e acolhido na própria família? Como
imaginar um jovem sem condições de estudar, com sua auto-estima abalada, cujo
trabalho principal é procurar emprego sem jamais consegui-lo?
Não
podemos deixar de pensar profundamente nas reestruturações econômicas e sociais
atuais. A população dos excluídos e totalmente abandonados, onde a corrente das
trocas produtivas foram desviada deles precisam ser exaustivamente estudadas.
Estou habituada a ouvir falar no fantástico investimento humano com o quase
pleno emprego com os progressos de integração e com as devidas proteções
sociais. Afirmações totalmente falsas. Surgiu modernamente uma nova sigla, “a
existência de inúteis para o mundo” porque não acompanharam a atualização das
competências econômicas e sociais. Quanta desumanidade!... Quanta
indiferença!... O mundo não é só de alguns, mas é de todos nós.
“Ninguém
esperava. Num mundo turvado por aflição econômica, cinismo político, vazio
cultural e desesperança pessoal, aquilo apenas aconteceu. Subitamente,
ditaduras podiam ser derrubadas pelas mãos desarmadas do povo, mesmo que essas
mãos estivessem ensangüentadas pelo sacrifício dos que tombaram. Os mágicos das
finanças passaram de objetos de inveja pública a alvos do desprezo universal. Políticos viram-se
expostos como corruptos e mentirosos.
Governos foram denunciados. A mídia se tornou suspeita. A confiança
desvaneceu-se. E a confiança é o que aglutina a sociedade, o mercado, e as
instituições. Sem confiança, nada funciona. Sem confiança, o contrato social se
dissolve, e as pessoas desaparecem, ao
se transformarem em indivíduos defensivos lutando pela sobrevivência.
Entretanto, nas bordas de um mundo que havia chegado ao limite de sua
capacidade de propiciar aos seres humanos a faculdade de viver juntos e
compartilhar sua vida com a natureza, mais uma vez os indivíduos realmente se
uniram para encontrar novas formas de
sermos nós, o povo”. (Autor: Manuel Castells – Livro: Redes de Indignação e
Esperança – Movimentos Sociais na Era da Internet ).
A
esperança triunfou no Brasil e no mundo. Foram gigantescos os impactos sociais,
culturais, econômicos e políticos da tecnologia digital. Agora todo o mundo se
apossa de análises do tempo presente, o que legítima a dinâmica no tempo e na hora graças as ferramentas de
Comunicação Digital. Com certeza a elevação ética triunfará, elaborando em
análise qualitativa todas as mídias e as relações de comunicação, em cenários
onde crenças e reações estarão num mesmo nível, e certamente triunfarão as
mediações refinadas.
Reflexões
sobre novos modos de engajamento político e social já acontecem. De forma
pacífica e horizontal e sem nenhum investimento financeiro, crianças, jovens,
adultos e idosos se mobilizam em quase todas as cidades. Transformou-se o medo
em esperança de mudar o descontentamento geral dos cidadãos. Viva a primavera
da juventude brasileira. Desejamos profundamente que estes jovens alcancem o
poder, e que se tornem políticos, advogados, empresários, servidores públicos,
professores. É admirável partir dos jovens esta virada social tão almejada por
todos nós. Desejamos êxitos... vidas melhores para todos.

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