quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

A EXPRESSÃO DA PRÓPRIA HUMANIDADE

REGINA  DINIZ

“A ascensão repentina, espetacular do trabalho, passando do último lugar  da situação mais desprezada, ao lugar de honra e tornando-se a mais considerada  das atividades começou quando Locke descobriu no trabalho a fonte de toda propriedade;  prosseguiu quando Adam Smith afirmou que o trabalho é a fonte de toda riqueza; atingiu seu ponto culminante no “sistema de trabalho” de Marx, em que o trabalho se tornou a fonte de toda produtividade e a expressão da própria humanidade do homem”.( Autor: Hannah Arendt, Condition de l’homme moderne, 1ª edição - 1958,  TRAD.FR. Paris, Calmann – Levy, 1983, P. 114 – 115.).

O avanço da globalização, que ultrapassou os processos econômicos, invadiu as dimensões políticas, sociais e culturais, trazendo conseqüências  nas atribuições  do Estado,  desregulamentação nas economias nacionais, a reestruturação do mercado de trabalho, a flexibilização do trabalho, o crescimento dos empregos precários, o desemprego cíclico e estrutural, e a exclusão de contingentes de trabalhadores do mercado formal. A forte segmentação da força de trabalho ( incluídos X excluídos do mercado formal, qualificados X não-qualificados, trabalhadores de empresas modernas e trabalhadores de empresas terceirizadas desmobilizou a sindicalização dos trabalhadores. A globalização econômica corresponde, pois, a globalização do mundo do trabalho e da questão social.

Atualmente, o processo de globalização (competição intercapitalista acirrada) obrigou as empresas a buscar estratégias para obter ganhos de produtividade que podem ser visualizados pelo uso da microeletrônica e da flexibilidade dos processos de trabalho e de produção, exigindo um aumento da capacidade produtiva da força de trabalho. Neste processo de ampliação do trabalho precário e informal é substituído pela emergência de um trabalho revalorizado, no qual o trabalhador multiqualificado, polivalente, deve exercer na automação funções abstratas e intelectuais, implicando cada vez menos trabalho manual, e cada vez mais manipulação simbólica. É também exigido deste trabalhador, capacidade de diagnóstico, de solução de problemas, capacidade de tomar decisões, de intervir no processo de trabalho, de trabalhar em equipe, auto-organizar-se  e enfrentar  situações em constantes mudanças. É neste contexto que retorna à agenda de discussões o papel da educação.
   
“Fosse lá o que fosse além disso, a ideologia  era uma declaração de intenções do que a pregavam, uma intenção de compromisso com a sociedade a que pertenciam e da qual se consideravam membros. Era também uma promessa de responsabilidade por essa sociedade, expressão da disposição de assumi-la ou partilhá-la. Por fim, mas de forma alguma menos importante, era um sinal de desapreço pelo mundo tal como se apresentava, de uma atitude crítica face ao estado atual das coisas e o desejo de melhorar ou transformar esse quadro. Todas as ideologias, incluindo as mais conservadoras , eram lâminas agudas ameaçando a realidade tal como se apresentava. Em suma, a percepção de que nem tudo na realidade social é como deveria ser, de que algo deve ser feito para corrigir o estado de coisas vigente, seja o que for que tiver de ser feito deve sê-lo de forma sistemática e consistente, tal percepção era a principal razão para o compromisso de tecer a tela da ideologia”. (Autor: Zygmunt Bauman – Livro: Em Busca da Política – Ed.Jorge Zahar Editor Ltda – Rio de Janeiro – 2000).

Ao longo de milênios as ideologias nasceram da não aceitação do status quo  e, sobretudo, da descrença na capacidade da própria realidade para se retificar. Todas as ideologias nasceram como projetos a serem implementados de modo atuante e conjunto, mesmo quando projetavam o futuro no passado e mostravam a novidade como uma volta ao passado e retratavam a novidade como uma volta e a reforma como restauração. Cornelius Castoriadis em suas últimas entrevistas afirmou que o maior problema de nossa civilização é que ela parou de se questionar. Na modernidade é preciso debater a causa de as riquezas passarem para as mãos de poucos, enquanto a grande maioria acaba sendo sacrificada, marginalizando parte da sociedade e criando uma divisão entre os mais abastados e aqueles que nada possuem. É preciso achar uma solução porque estes seres humanos acabam por se revoltar contra a outra parte da sociedade, por não possuírem um mínimo indispensável para a sobrevivência, gerando conflitos pessoais, marginalidade, o tráfico de drogas e outras complexas espécies de delitos.

Lutar por outro mundo melhor significa combater a continuidade da exclusão, a marginalização política e a desigualdade social; significa preocupação com o meio ambiente, com os direitos humanos e com a paz, o êxito destas questões depende de um significado maior, o respeito pelo Outro com a gama de diferenças, alterando positivamente a nossa relação com ele, possibilitando o surgimento de uma nova cidadania. Um outro mundo é possível desde que a reconstrução passe pelo respeito e pelo diálogo democrático com todos nós, e que chamamos de humanidade.

“No berço da ética encontramos todo o elemento de que o eu ético necessita para manter-se vivo: o silencioso desafio do Outro e a minha dedicada mas desprendida responsabilidade. Este é um vasto espaço, até onde chega a ética: amplo o suficiente para acomodar o eu ético em pleno vôo, reduzindo a uma escala os mais elevados picos da santidade e todos os recifes submarinos da vida moral, as armadilhas que devem ser evitadas pelo eu em seu caminho para a ética – para a admissão  da incomoda responsabilidade por sua responsabilidade. Isso deixa à parte a maioria das coisas que preenchem a vida diária de todo o ser humano, a busca da sobrevivência e auto-engrandecimento, a consideração racional de fins e meios, a avaliação de ganhos e perdas, a procura do prazer, o poder, a política, a economia... Acima de tudo, penetrar nesse espaço representa tirar uma folga da atividade cotidiana, deixar do lado de fora suas normas e convenções mundanas”.  (Autor: Emmanuel Levinas – Livro: Ética e Infinito – Edições 70 Ltda – 2010).

Vivemos num século que conheceu os horrores dos campos de concentração, e que atualmente os conflitos bélicos deste século XXI continuam a nos aterrorizar. Precisamos reavivar a ética, descobrindo uma via alternativa ao humanismo que predominou até então. Não se trata de rejeitar o humanismo, mas de reativá-lo que através de debates construtivos permanentes possamos descobrir uma luz que ilumine uma visão satisfatória do mundo e do homem.
O ideal será renovar uma moral melhor capaz de aproximar o homem com o outro homem.

O humanismo não fracassou, mas as interpretações que dele foram feitas pararam de evoluir. No encontro moral com os outros, chegamos despidos de nossos adornos sociais, despojados de status, distinções sociais, desvantagens, posições ou papéis, não sendo rico nem pobres, arrogantes ou humildes, poderosos ou destituídos, reduzidos à simples essencialidade da nossa humanidade comum. Não podemos encontrar guia mais seguro, a tal respeito, que tomar  para padrão, de que devemos fazer aos outros aquilo que para nós desejamos.

“Não foram apenas a pobreza, a crise econômica ou a falta de democracia que causaram essa rebelião multifacetada. Evidentemente, todas essas dolorosas manifestações de uma sociedade injusta e de uma comunidade política não democrática estavam presentes nos protestos. Mas foi basicamente a humilhação provocada pelo cinismo e pela arrogância das pessoas no poder, seja ele financeiro, político ou cultural, que uniu aqueles que transformaram medo em indignação, e indignação em esperança de uma humanidade melhor. Uma humanidade que tinha de ser reconstruída a partir do zero, escapando das múltiplas armadilhas ideológicas e institucionais que tinham levado inúmeras vezes a becos sem saída, forjando um novo caminho, a medida que o percorria. Era a busca de dignidade em meio ao sofrimento da humilhação – temas recorrentes na maioria dos movimentos”. ( Autor: Manuel Castells – Livro: Redes de Indignação e Esperança – Ed.Zahar – Rio de Janeiro – 2013.).

Ouvir o povo e, buscar soluções para suas demandas passará a ser rotina em nosso país, que os milhares de jovens manifestantes bem-intencionados pretendem construir. Diante do clamor contra a corrupção e do medo da inflação, o governo acena com um pacto pela responsabilidade fiscal, que obrigará os administradores públicos a serem austeros nos seus gastos e contribuir na estabilidade da economia. A Presidenta Dilma Rousef em resposta atenuou o gravíssimo das deficiências da saúde pública , oferecendo um pacto pela saúde pública, acelerando investimentos em hospitais e do programa de troca de dívidas por atendimento nos atendimentos filantrópicos.


Em relação à educação de qualidade. Que também aparece fortemente entre os pleitos dos indignados brasileiros, a presidente renovou as promessas que inclua escola em tempo integral, ensino profissionalizante, ensino superior de qualidade, pesquisa e salários dignos para professores (ainda está no terreno das promessas). Este pronunciamento à nação, com o respaldo dos governantes de todos os Estados, deve ser interpretado como resposta concreta ao grito de revolta da Nação. Os manifestantes que ocupam ruas e praças do país, liderados por jovens universitários querem, acima de tudo, serem ouvidos. Com certeza ouvir o povo  e buscar soluções passa a ser rotina nesta nova nação, que os jovens manifestantes bem intencionados pretendem construir.         

Nenhum comentário:

Postar um comentário