REGINA DINIZ
“A
ascensão repentina, espetacular do trabalho, passando do último lugar da situação mais desprezada, ao lugar de
honra e tornando-se a mais considerada
das atividades começou quando Locke descobriu no trabalho a fonte de
toda propriedade; prosseguiu quando Adam
Smith afirmou que o trabalho é a fonte de toda riqueza; atingiu seu ponto
culminante no “sistema de trabalho” de Marx, em que o trabalho se tornou a fonte
de toda produtividade e a expressão da própria humanidade do homem”.( Autor:
Hannah Arendt, Condition de l’homme moderne, 1ª edição - 1958, TRAD.FR. Paris, Calmann – Levy, 1983, P. 114
– 115.).
O
avanço da globalização, que ultrapassou os processos econômicos, invadiu as
dimensões políticas, sociais e culturais, trazendo conseqüências nas atribuições do Estado,
desregulamentação nas economias nacionais, a reestruturação do mercado
de trabalho, a flexibilização do trabalho, o crescimento dos empregos
precários, o desemprego cíclico e estrutural, e a exclusão de contingentes de
trabalhadores do mercado formal. A forte segmentação da força de trabalho (
incluídos X excluídos do mercado formal, qualificados X não-qualificados,
trabalhadores de empresas modernas e trabalhadores de empresas terceirizadas
desmobilizou a sindicalização dos trabalhadores. A globalização econômica
corresponde, pois, a globalização do mundo do trabalho e da questão social.
Atualmente,
o processo de globalização (competição intercapitalista acirrada) obrigou as empresas
a buscar estratégias para obter ganhos de produtividade que podem ser
visualizados pelo uso da microeletrônica e da flexibilidade dos processos de
trabalho e de produção, exigindo um aumento da capacidade produtiva da força de
trabalho. Neste processo de ampliação do trabalho precário e informal é
substituído pela emergência de um trabalho revalorizado, no qual o trabalhador
multiqualificado, polivalente, deve exercer na automação funções abstratas e
intelectuais, implicando cada vez menos trabalho manual, e cada vez mais
manipulação simbólica. É também exigido deste trabalhador, capacidade de diagnóstico,
de solução de problemas, capacidade de tomar decisões, de intervir no processo
de trabalho, de trabalhar em equipe, auto-organizar-se e enfrentar
situações em constantes mudanças. É neste contexto que retorna à agenda
de discussões o papel da educação.
“Fosse
lá o que fosse além disso, a ideologia
era uma declaração de intenções do que a pregavam, uma intenção de
compromisso com a sociedade a que pertenciam e da qual se consideravam membros.
Era também uma promessa de responsabilidade por essa sociedade, expressão da
disposição de assumi-la ou partilhá-la. Por fim, mas de forma alguma menos
importante, era um sinal de desapreço pelo mundo tal como se apresentava, de
uma atitude crítica face ao estado atual das coisas e o desejo de melhorar ou
transformar esse quadro. Todas as ideologias, incluindo as mais conservadoras ,
eram lâminas agudas ameaçando a realidade tal como se apresentava. Em suma, a
percepção de que nem tudo na realidade social é como deveria ser, de que algo
deve ser feito para corrigir o estado de coisas vigente, seja o que for que
tiver de ser feito deve sê-lo de forma sistemática e consistente, tal percepção
era a principal razão para o compromisso de tecer a tela da ideologia”. (Autor:
Zygmunt Bauman – Livro: Em Busca da Política – Ed.Jorge Zahar Editor Ltda – Rio
de Janeiro – 2000).
Ao
longo de milênios as ideologias nasceram da não aceitação do status quo e, sobretudo, da descrença na capacidade da
própria realidade para se retificar. Todas as ideologias nasceram como projetos
a serem implementados de modo atuante e conjunto, mesmo quando projetavam o
futuro no passado e mostravam a novidade como uma volta ao passado e retratavam
a novidade como uma volta e a reforma como restauração. Cornelius Castoriadis
em suas últimas entrevistas afirmou que o maior problema de nossa civilização é
que ela parou de se questionar. Na modernidade é preciso debater a causa de as
riquezas passarem para as mãos de poucos, enquanto a grande maioria acaba sendo
sacrificada, marginalizando parte da sociedade e criando uma divisão entre os
mais abastados e aqueles que nada possuem. É preciso achar uma solução porque
estes seres humanos acabam por se revoltar contra a outra parte da sociedade,
por não possuírem um mínimo indispensável para a sobrevivência, gerando
conflitos pessoais, marginalidade, o tráfico de drogas e outras complexas
espécies de delitos.
Lutar
por outro mundo melhor significa combater a continuidade da exclusão, a
marginalização política e a desigualdade social; significa preocupação com o
meio ambiente, com os direitos humanos e com a paz, o êxito destas questões
depende de um significado maior, o respeito pelo Outro com a gama de
diferenças, alterando positivamente a nossa relação com ele, possibilitando o
surgimento de uma nova cidadania. Um outro mundo é possível desde que a
reconstrução passe pelo respeito e pelo diálogo democrático com todos nós, e
que chamamos de humanidade.
“No
berço da ética encontramos todo o elemento de que o eu ético necessita para
manter-se vivo: o silencioso desafio do Outro e a minha dedicada mas
desprendida responsabilidade. Este é um vasto espaço, até onde chega a ética:
amplo o suficiente para acomodar o eu ético em pleno vôo, reduzindo a uma
escala os mais elevados picos da santidade e todos os recifes submarinos da
vida moral, as armadilhas que devem ser evitadas pelo eu em seu caminho para a
ética – para a admissão da incomoda
responsabilidade por sua responsabilidade. Isso deixa à parte a maioria das
coisas que preenchem a vida diária de todo o ser humano, a busca da
sobrevivência e auto-engrandecimento, a consideração racional de fins e meios,
a avaliação de ganhos e perdas, a procura do prazer, o poder, a política, a
economia... Acima de tudo, penetrar nesse espaço representa tirar uma folga da
atividade cotidiana, deixar do lado de fora suas normas e convenções
mundanas”. (Autor: Emmanuel Levinas –
Livro: Ética e Infinito – Edições 70 Ltda – 2010).
Vivemos
num século que conheceu os horrores dos campos de concentração, e que
atualmente os conflitos bélicos deste século XXI continuam a nos aterrorizar.
Precisamos reavivar a ética, descobrindo uma via alternativa ao humanismo que
predominou até então. Não se trata de rejeitar o humanismo, mas de reativá-lo
que através de debates construtivos permanentes possamos descobrir uma luz que
ilumine uma visão satisfatória do mundo e do homem.
O
ideal será renovar uma moral melhor capaz de aproximar o homem com o outro
homem.
O
humanismo não fracassou, mas as interpretações que dele foram feitas pararam de
evoluir. No encontro moral com os outros, chegamos despidos de nossos adornos
sociais, despojados de status, distinções sociais, desvantagens, posições ou
papéis, não sendo rico nem pobres, arrogantes ou humildes, poderosos ou
destituídos, reduzidos à simples essencialidade da nossa humanidade comum. Não
podemos encontrar guia mais seguro, a tal respeito, que tomar para padrão, de que devemos fazer aos outros
aquilo que para nós desejamos.
“Não
foram apenas a pobreza, a crise econômica ou a falta de democracia que causaram
essa rebelião multifacetada. Evidentemente, todas essas dolorosas manifestações
de uma sociedade injusta e de uma comunidade política não democrática estavam
presentes nos protestos. Mas foi basicamente a humilhação provocada pelo
cinismo e pela arrogância das pessoas no poder, seja ele financeiro, político
ou cultural, que uniu aqueles que transformaram medo em indignação, e indignação
em esperança de uma humanidade melhor. Uma humanidade que tinha de ser
reconstruída a partir do zero, escapando das múltiplas armadilhas ideológicas e
institucionais que tinham levado inúmeras vezes a becos sem saída, forjando um
novo caminho, a medida que o percorria. Era a busca de dignidade em meio ao
sofrimento da humilhação – temas recorrentes na maioria dos movimentos”. (
Autor: Manuel Castells – Livro: Redes de Indignação e Esperança – Ed.Zahar –
Rio de Janeiro – 2013.).
Ouvir
o povo e, buscar soluções para suas demandas passará a ser rotina em nosso
país, que os milhares de jovens manifestantes bem-intencionados pretendem
construir. Diante do clamor contra a corrupção e do medo da inflação, o governo
acena com um pacto pela responsabilidade fiscal, que obrigará os
administradores públicos a serem austeros nos seus gastos e contribuir na
estabilidade da economia. A Presidenta Dilma Rousef em resposta atenuou o gravíssimo
das deficiências da saúde pública , oferecendo um pacto pela saúde pública,
acelerando investimentos em hospitais e do programa de troca de dívidas por
atendimento nos atendimentos filantrópicos.
Em
relação à educação de qualidade. Que também aparece fortemente entre os pleitos
dos indignados brasileiros, a presidente renovou as promessas que inclua escola
em tempo integral, ensino profissionalizante, ensino superior de qualidade,
pesquisa e salários dignos para professores (ainda está no terreno das
promessas). Este pronunciamento à nação, com o respaldo dos governantes de todos
os Estados, deve ser interpretado como resposta concreta ao grito de revolta da
Nação. Os manifestantes que ocupam ruas e praças do país, liderados por jovens
universitários querem, acima de tudo, serem ouvidos. Com certeza ouvir o
povo e buscar soluções passa a ser
rotina nesta nova nação, que os jovens manifestantes bem intencionados
pretendem construir.

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