REGINA DINIZ
“A
moralidade da pós-modernidade não tem código ético. No tempo em que nos
confrontamos com escolhas de magnitude sem precedentes e conseqüências
potencialmente desastrosas, não mais esperamos a sabedoria dos legisladores ou
a perspicácia dos filósofos para nos levantar de uma vez por todas da
ambivalência moral e da incerteza de
decisão. Suspeitamos que a verdade da questão seja oposta ao que se nos disse.
É a sociedade, é sua existência contínua e seu bem-estar, que se tornam
possíveis pela competência moral de seus membros, e não vice-versa. Mais
exatamente, como Alan Wolfe o expressa, a moralidade é a prática negociada
entre agentes instruídos capazes de crescimento de lado, e uma cultura capaz de
mudança, de outro. Antes de reiterar que não haveria indivíduos morais se não
pelo trabalho de treinamento e exercício realizado pela sociedade, vamos rumo a
compreensão de que deve ser a capacidade moral dos seres humanos que os faz tão
eximiamente capazes de formar sociedades e assegurá-las contra todos os
contratempos de sua sobrevivência, feliz ou menos feliz”. (Autor: Wolfe Whose
Keeper. – pg, 220).
As
normas éticas podem guiar nossa conduta em nossas relações mútuas, nosso
relacionamento com os outros e simultaneamente dos outros para conosco, para
que possamos nos sentir seguros e unidos, colaborarmos uns com os outros, cooperar
pacificamente e espelhar mútuo prazer sem medo e com elevada confiança. Notamos
que precisamos com urgência destas normas éticas. Interagimos na companhia de
muitos grupos intermináveis de seres humanos, conhecidos e desconhecidos, cuja
interação depende do que fazemos e influenciam por sua vez o que devemos fazer.
As normas de mediações são importantíssimas em nossa vida, necessitamos do
conhecimento e das capacidades morais mais do que as capacidades técnicas.
O
que nós e outros fazemos tem conseqüências não antecipadas, que podem
neutralizar os bons propósitos. Não compreendemos ainda a urgência de
enriquecermos a nossa imaginação moral. Estudando e dominando as normas éticas,
poucas mais confiáveis, que herdamos do passado milenar e que nos ensinaram a
obedecê-las e aceitá-las como maior caminho de entendimento humano. As Normas
Éticas nos dizem como nos aproximarmos das pessoas no campo de nossa visão e
alcance, e como escolher quais ações que são boas e sendo assim, devem ser
feitas e quais as ações são más e sendo assim, devem ser evitadas.
“Nada
se apóia na própria reflexão da questão moral, a ligação entre o código e a
conduta deve ser idealmente imediata, sem mediação, para excluir toda
possibilidade de desvio. Tudo depende do monopólio do poder legislativo, pois a
chance de os humanos se portarem moralmente é tida como dependente da
eliminação, não do fomento, de sua tendência e capacidade para fazer juízos e
opções independentes e portanto em princípio imprevisíveis. No momento em que o
monopólio é abalado e as autoridades se multiplicam, os indivíduos são
confrontados com a necessidade das próprias escolhas de acordo com o seu poder
de julgamento moral, isto é de acordo com recursos que não se acredita que possuam ou são suspeitos de usar
erroneamente e portanto tiveram pouca chance de desenvolver. É isso que querem dizer
com “Crise de Valores” e não admira que isso seja visto com alarme”. ( Auto:
Zygmunt Bauman – Livro: Em Busca da Política – Zahar Editor Ltda. – 1999 – Rio de Janeiro).
Com
a total predominância do capitalismo e a chegada da globalização no século XX os efeitos da lógica desumana do
capital passaram a dominar muito mais do que as relações familiares,
contagiaram a nossa alma, destruíram os nossos sonhos de crescimento interior,
nos transformaram em seres industrializados, trocaram a nossa individualidade
por objetos, por coisas materiais, viramos produtos. Segundo o filósofo francês
Jean Paul Sartre, é necessário reconhecer o homem e a mulher como seres dotados
de liberdade e igualdade. Os filósofos iluministas Rousseau e Locke afirmaram
que este processo de desumanização admitiu esta sociedade com dispensas das
formalidades de praxe. “ -Vivemos a crise da falta de fraternidade, perdemos o
hábito de saber cuidar do outro”, dito pelo nosso teólogo Leonardo Boff.
Após
milênios de reflexão ética com excelentes filósofos, nada foi lembrado,
acreditaram facilmente que a nova idéia da sociedade de consumo traria a
felicidade, que seria determinada pelo mercado, as nossas amizades seriam
condicionadas pela barganha capitalista. Entretanto as palavras Ética e
Moral definiram, ao longo dos séculos,
um conjunto de valores que orientaram o comportamento do homem em relação aos
outros homens na sociedade em que vive, garantindo o bem-estar social, ou seja, Ética é a forma
como o homem deve se comportar no seu meio social. Atualmente, o indivíduo é avaliado pela sua
qualidade ética, que é o comportamento moral da pessoa.
“Na
clássica e já canônica formulação de Hans Jonas, apresentada em “O princípio
responsabilidade, a imaginação ética não conseguiu, e ainda não consegue,
emparelhar-se com o domínio, em rápida expansão, das responsabilidades éticas.
Pode-se ouvir reverberando naquela formulação as mesmas preocupações que
assaltavam a obra de Jean-Paul Sartre (“o que quer que façamos, assumimos responsabilidade
por alguma coisa, mas não sabemos o que essa coisa é”). A densa rede de
interdependência torna todos nós objetivamente responsáveis (ou seja, quer que
o saibamos não, gostemos ou não e – um
ponto eticamente crucial – queiramos ou não) pela miséria de todos. Nossa imaginação
moral, contudo, foi historicamente moldada para lidar apenas com os outros que
residem dentro de um círculo de intimidade espacial e temporal, ao alcance da
visão e do tato – ela ainda não avançou muito além desse limite tradicional
(endêmico?). Podemos acrescentar que o advento das “auto-estradas da
informação” e portanto de uma teleproximidade eletronicamente mediada, pode ser
um estímulo a esse avanço – mas, para se
emparelhar com o escopo da responsabilidade
objetiva já atingida, é preciso construir, pavimentar e policiar uma “faixa
institucional”. Essa faixa ainda esta parada na etapa do esboço, pior ainda,
pelo que sabemos, não é provável que se inicie o trabalho de construção
enquanto prevaleçam as condições da globalização negativa”.)
A
Ética da globalização espelha-se na seguinte realidade: a existência de uma só existência
social, uma só economia, e uma só comunidade. Logo uma só lei aplicada por uma
instituição, a ONU e uma só Ética. A Ética Universal, a Ética da Globalização
deveria ser uma Ética das virtudes, ser livre no sentido da compreensão de si,
ser verdadeira e justa, ser tolerante e sensata. Deveria ser uma Ética dos
deveres, o dever para consigo próprio, com a família, os amigos e a humanidade,
o dever de cumprir os compromissos livremente assumidos. Deveria ser uma Ética
dos afetos, tratamento preferencial para com os seus familiares e amigos,
embora o fim seja estender este tratamento para toda a humanidade.
Desde
sempre que as questões éticas preocupam o ser humano e os grandes pensadores. O
pai da filosofia, Sócrates, legou-nos o mandamento, algo sagrado, “do
conhece-te a ti mesmo” e o exemplo de morrer pela liberdade de pensamento e
pelo respeito das leis democráticas. Deveríamos ter uma Ética de valores
universais: liberdade, igualdade, solidariedade, justiça, verdade e razão. Deveríamos
compreender e aceitar a parcialidade dos afetos fraternais, familiares e
amigáveis comuns a todas as culturas. A Ética Universal de um mundo globalizado
tem de considerar tanto os deveres como os direitos individuais e defender que
o individualisno não é só compatível como pressupõe o altruísmo. Deve rejeitar
o egoísmo psicológico e o relativismo cultural. Precisamos defender uma Ética
que promova a consciência coletiva da existência de uma só atmosfera, de uma só terra, de um
só mundo onde todos os seres humanos possam conviver em paz.
“O
código de conduta e normas para escolhas que se ligam à realização de um papel
não se alarga para pegar o eu real”. O eu real é livre, razão para se alegrar,
mas também para não pouca aflição. Aqui, longe do mero “desempenho de papel”,
somos de fato “nós mesmos”, e assim nós e somente nós somos responsáveis por
nossas ações. Podemos fazer nossas escolhas livremente, guiados só pelo que
consideramos dignos de se buscar. Como logo descobrimos porém esse fato não
torna mais fácil nossa vida. Apoiar-nos nas normas tornou-se hábito, e sem as
roupas de faxina sentimo-nos nus e em desespero. Na volta do mundo “de lá”, no
qual outros assumiam (ou nos afirmavam que assumiam) a responsabilidade por todos
os nossos trabalhos, não é fácil suportar a responsabilidade, agora não
familiar pela falta de hábito.
Com
bastante freqüência ela deixa um gosto amargo na boca e só aumenta nossa
incerteza. Sentimos muita falta da liberdade quando ela nos é negada, mas
quando a conseguimos de volta, faz-se sentir como carga demais pesada para se
carregar sozinho. E assim agora sentimos falta daquilo a que antes ressentimos:
uma autoridade mais forte que nós, uma autoridade em que podemos confiar e a que devemos obedecer, uma autoridade que
se pode responsabilizar pela adequação de nossas escolhas e assim, ao menos,
partilhar de algo de nossa “excessiva” responsabilidade”.(Autor: Erich
Fromm - Livro:
The fear of freedom –
Routledge, Londres, 1960, p.116).
Na
prática profunda da responsabilidade conosco e com os outros nos sentimos
autoconfiantes, unidos e tranqüilos. Estamos dispostos a investir em nosso eu
para descobrirmos novos padrões de convivências amigáveis. Tenho certeza de que
devo escolher o que fazer, de investir em normas firmes e confiáveis, só assim
me sentirei segura do caminho certo. Lendo, refletindo e comparando nada me
dispensa da responsabilidade. Pensando profundamente admito que tenho de
decidir por mim mesma.
A
escolha ética é difícil, porque estudamos e comparamos diferentes conjuntos de
normas e de diferentes tempos. Somos
herdeiros de rico cabedal ético, o que nos dá uma base sólida para aprovar ou
desaprovar a própria escolha. Com o pluralismo de normas as escolhas morais
surgem-nos ambivalentes. Procuramos achar meios para admitir a responsabilidade
como o marco maior. É assim que o professor Rui Josgrilberg, diretor da
Faculdade de Teologia da Universidade Metodista de São Paulo, se refere a essa questão.Ter ética quer dizer que
você assume responsabilidade perante alguma coisa. Ética tem a ver com a
responsabilidade que nós temos diante dos outros” explica.

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