quinta-feira, 1 de maio de 2014

O DESTINO HISTÓRICO DA UNIÃO HUMANA

REGINA  DINIZ

No seu romance – “A identidade Humana – Milan Kundera medita sobre o destino da amizade humana. Antigamente, pondera o herói, ser amigo significava ficar ombro a ombro na batalha, estar pronto a sacrificar a própria vida se necessário, por uma causa que é só defensável como causa comum e em comum. A vida era frágil, cheia de perigos e a amizade podia torná-la mais sólida e um pouco mais segura. As ameaças a qualquer dos amigos podiam ser evitadas, os perigos podiam ser um pouco menos terminais se todos os amigos se dessem as mãos e resistissem juntos à adversidade. Agora, no entanto, não é provável que as ameaças e perigos sejam eliminados ou aliviados pela união dos amigos. (Autor: Zygmunt Bauman – Livro: Em busca da Política – Ed. Zahar  - 2000).

Viver protegidos por trás de muros, por muralhas eletrônicas, guardas, apitos é parte da orientação urbana para a sobrevivência individual. Esta fabricação da incerteza e da insegurança é amplamente globalizada. Uma moradora de Copenhague há 12 anos, disse ao correspondente do jornal “International Herald Tribune de 17 de novembro de 1997, que pretendia deixar a Dinamarca. - A opinião deles mudou -  disse sobre os dinamarqueses. “Agora olham a gente com arrogância , estão ficando muito frios, inclusive com eles mesmos”. A frieza com as pessoas é um sinal de  esfriamento geral das relações humanas por toda a parte.

As pessoas desaprenderam de como são gratificantes a aproximação, a comunhão humana e o quanto que recebemos de conforto, consolo, encorajamento e simples prazer existencial de poder dividir a própria sorte e esperanças com outras pessoas. Todo ser humano gosta de dividir suas metas existenciais, suas alegrias bem como suas tristezas e sonhos. Precisamos resgatar a velha amizade do tipo “um por todos, todos por um”, que foi terrivelmente expulsa dos nossos tempos. Há urgência de resgatarmos, o encanto e o calor que era fácil de ser alcançado por nossos ancestrais.    

“A solidão do sujeito moral. Nenhum padrão universal, portanto. Nenhum olhar sobre os ombros das pessoas para ver o que fazem outras pessoas “como eu”. Nada de ouvir o que elas dizem que estão fazendo ou devem estar fazendo, seguindo depois exemplos, absolvendo-me por não fazer qualquer outra coisa, nada que os outros não fariam, e gozar de consciência limpa no fim do dia. De fato olhamos e ouvimos, mas não adianta, pelo menos não adianta radicalmente. Apontando o dedo para fora de mim mesmo – é isto que fazem  as pessoas, é assim que são as coisas” – não me salva de noites mal-dormidas  e dias cheio de auto-depreciação. “ Fiz meu dever “ pode talvez tirar os juízes de meu encalço, mas não põe em debandada o júri daquilo que eu, por não ter sido capaz de apontar meu dedo a ninguém, chamo de consciência”. “O dever de todos nós”, que conheço, não parece ser a mesma coisa que minha responsabilidade que sinto”. (Autor: Zigmunt Bauman – Livro: Ética Pós-Moderna – Ed. Paulus – 1997).

Um dos inúmeros problemas emocionais que é questionado profundamente, talvez o maior deles seja a autodepreciação, que alguns chamam  da culpa e outros de ansiedade etc. Reinstalar em nossa consciência o sentido da solidariedade humana, de estarmos uns para os outros, e por causa e por meio dos outros nos traz alegria. O universo inteiro luta para que as pessoas se encontrem e resgatem algo positivo com as outras. O processo evolutivo é mais bem-sucedido em sociedades nas quais os indivíduos colaboram uns com os outros para um objetivo comum. Grupo de pessoas, empresas e até países que agem pensando em benefício dos outros e de forma coletiva alcançam mais sucesso.

Precisamos de amigos para nos ensinar, compartilhar, nos alegrar , e também para cumprirmos nossa missão na terra: Amar o próximo como a si mesmo. A união, a amizade é algo que importa muito na vida do ser humano, sem esse vínculo não teremos harmonia e nem paz.As pessoas trazem para nós a tão esperada felicidade. É preciso sorrir para todos os seres humanos. Os deveres éticos tendem a fazer os humanos iguais: A moral é o que permanece, quando se fez o trabalho da ética. Hoje temos claro que nosso sucesso depende do sucesso do outro.

“Ralph Miliband afirmava de que tudo que poderia ser feito para tornar o planeta menos ameaçador e atemorizante para os seres humanos, e portanto mais hospitaleiro para o ser humano e para a vida humana, já o tinha sido – e que se recusavam a aceitar que nenhum melhoramento fosse concebível. O mundo de Miliband, singular e inimitável, era um mundo de esperança imorredoura. Por essa razão, contudo, ele também continua  sendo parte indispensável  e fonte de perpétuo enriquecimento para nossos próprios mundos. É tarefa dos vivos manter viva a esperança; ou então ressuscitá-la em um mundo em rápida transformação, notável por alterar rapidamente as condições em que é conduzida a luta contínua com o propósito de torná-lo mais hospitaleiro para a humanidade”. ( Citação feita pelo autor Zygmunt Bauman – Livro – Medo Líquido – Ed. Zahar – 2006 – Rio de Janeiro).

O trabalho de Ralph Miliband simbolizou o grave desafio enfrentado pelos intelectuais de seu tempo, pessoas que continuaram acreditando que o principal propósito do pensamento é fazer o mundo melhor do que encontra ram. Esta jornada contínua  através de projetos, atitudes, experimentados ao longo da rota de autoconfiança, coragem e impetuosidade. As idéias renovadas são capazes de mudar o mundo. A classe trabalhadora  tão sacrificada e vítima  da negação da dignidade humana luta para se erguer construindo uma classe para si, transformando-se de objeto para sujeito de sua história, para acabarem com toda a miséria humana. O grande objetivo é promover e garantir a expansão intensiva e extensiva da economia capitalista, por um lado, e recondicionando  e recapitulando  a força de trabalho do outro.

A filosofia segundo Adorno significa a determinação de se agarrar à liberdade intelectual e real, e só nessa condição ela pode, como deveria, permanecer imune à sugestão do “status quo”. A emancipação visa ao desenvolvimento de indivíduos autônomos, independentes que julguem e decidam por si mesmos. Precisamos repetir Pierre Bordieu: “Aqueles que tem a chance de dedicar suas vidas ao estudo do mundo social não podem recolher-se neutros e indiferentes, diante da luta da qual a aposta é o futuro do mundo.  

Não se trata de um desejo sensível, no sentido comum da satisfação de uma necessidade ou da recuperação de algo que tenhamos vivido ou de que sintamos falta. Não é um desejo que tenha a ver com necessidades ou interesses nosso são desejos desinteressados, generosos, que não visam transformar o outro em objeto do nosso conhecimento ou de nossa propriedade, mas antes, acolhê-lo como “absolutamente outro”.

“Nestes pressupostos o eu vai ao encontro voluntariamente com autonomia e sem pré-condições, numa aventura pessoal que será sempre uma surpresa, pois nunca saberemos o que esse encontro nos reserva. Esta imprevisibilidade faz de cada encontro uma novidade, sempre repetida, todos os dias e todas as horas são momentos, de experiências humanas mais ou menos conseguidas, dependendo do modo como acontece e é vivido cada encontro com outrem”. (Autor: Emmanuel Levinas – Livro: Ética e Infinito – 2010).

Um aspecto importante seria questionar como é que o eu e o outro chegam ao encontro. /como se posicionam frente a frente? Como iniciam a relação ética? Em que consiste essa relação ética? O encontro é dominado  pelo aparecimento do rosto, o que se torna presente como linguagem e discurso, verbal ou não, pela expressão corporal, pois todos sabemos como os gestos e, às vezes, os profundos silêncios podem ser reveladores da verdade do outro. E, no momento compreendemos que a relação com o rosto  pode ser dominada pela percepção, mas o que é especificamente o rosto é o que não se reduz a ele. Em primeiro lugar aparece a sua exposição integra e sem defesa.


Enunciam-se duas dimensões: o sensível do rosto, que pode ser visto e conhecido; e o para lá do rosto, a sua verticalidade, a sua integridade, a sua pacificidade, aspectos da ordem do valor, da ordem da ética. Na verdade, o sentido do rosto não está na descrição das suas características sensíveis – olhos azuis, nariz deste ou aquele tamanho, boca com esta ou aquela forma etc... – nem tão pouco, no conhecimento concreto que possamos ter sobre alguém, por exemplo, saber que é filho  desta ou daquela pessoa, pai, marido, amigo, cientista, professor, músico, hindu, amante da boa comida etc... já que nenhum destes aspectos ajuda à compreensão do rosto. O verdadeiro sentido permanece desconhecido. Diz Lévinas:”O rosto é significação, e significação sem contexto. Quero dizer que outrem, na retidão do seu rosto, não é uma personagem num contexto.(...)Ele é o que não se pode transformar num conteúdo, que o nosso pensamento abarca; é leva-nos além. Eis por que o significado  do rosto o leva a sair do ser enquanto correlativo de um saber. (Emmanuel Lévinas  - Livro: Ética e Infinito.- 2010).  

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