REGINA DINIZ
No
seu romance – “A identidade Humana – Milan Kundera medita sobre o destino da
amizade humana. Antigamente, pondera o herói, ser amigo significava ficar ombro
a ombro na batalha, estar pronto a sacrificar a própria vida se necessário, por
uma causa que é só defensável como causa comum e em comum. A vida era frágil,
cheia de perigos e a amizade podia torná-la mais sólida e um pouco mais segura.
As ameaças a qualquer dos amigos podiam ser evitadas, os perigos podiam ser um
pouco menos terminais se todos os amigos se dessem as mãos e resistissem juntos
à adversidade. Agora, no entanto, não é provável que as ameaças e perigos sejam
eliminados ou aliviados pela união dos amigos. (Autor: Zygmunt Bauman – Livro: Em
busca da Política – Ed. Zahar - 2000).
Viver
protegidos por trás de muros, por muralhas eletrônicas, guardas, apitos é parte
da orientação urbana para a sobrevivência individual. Esta fabricação da
incerteza e da insegurança é amplamente globalizada. Uma moradora de Copenhague
há 12 anos, disse ao correspondente do jornal “International Herald Tribune de
17 de novembro de 1997, que pretendia deixar a Dinamarca. - A opinião deles
mudou - disse sobre os dinamarqueses.
“Agora olham a gente com arrogância , estão ficando muito frios, inclusive com
eles mesmos”. A frieza com as pessoas é um sinal de esfriamento geral das relações humanas por
toda a parte.
As
pessoas desaprenderam de como são gratificantes a aproximação, a comunhão
humana e o quanto que recebemos de conforto, consolo, encorajamento e simples
prazer existencial de poder dividir a própria sorte e esperanças com outras
pessoas. Todo ser humano gosta de dividir suas metas existenciais, suas
alegrias bem como suas tristezas e sonhos. Precisamos resgatar a velha amizade
do tipo “um por todos, todos por um”, que foi terrivelmente expulsa dos nossos
tempos. Há urgência de resgatarmos, o encanto e o calor que era fácil de ser
alcançado por nossos ancestrais.
“A
solidão do sujeito moral. Nenhum padrão universal, portanto. Nenhum olhar sobre
os ombros das pessoas para ver o que fazem outras pessoas “como eu”. Nada de
ouvir o que elas dizem que estão fazendo ou devem estar fazendo, seguindo
depois exemplos, absolvendo-me por não fazer qualquer outra coisa, nada que os
outros não fariam, e gozar de consciência limpa no fim do dia. De fato olhamos
e ouvimos, mas não adianta, pelo menos não adianta radicalmente. Apontando o
dedo para fora de mim mesmo – é isto que fazem
as pessoas, é assim que são as coisas” – não me salva de noites
mal-dormidas e dias cheio de auto-depreciação.
“ Fiz meu dever “ pode talvez tirar os juízes de meu encalço, mas não põe em
debandada o júri daquilo que eu, por não ter sido capaz de apontar meu dedo a
ninguém, chamo de consciência”. “O dever de todos nós”, que conheço, não parece
ser a mesma coisa que minha responsabilidade que sinto”. (Autor: Zigmunt Bauman
– Livro: Ética Pós-Moderna – Ed. Paulus – 1997).
Um
dos inúmeros problemas emocionais que é questionado profundamente, talvez o
maior deles seja a autodepreciação, que alguns chamam da culpa e outros de ansiedade etc. Reinstalar
em nossa consciência o sentido da solidariedade humana, de estarmos uns para os
outros, e por causa e por meio dos outros nos traz alegria. O universo inteiro
luta para que as pessoas se encontrem e resgatem algo positivo com as outras. O
processo evolutivo é mais bem-sucedido em sociedades nas quais os indivíduos
colaboram uns com os outros para um objetivo comum. Grupo de pessoas, empresas
e até países que agem pensando em benefício dos outros e de forma coletiva
alcançam mais sucesso.
Precisamos
de amigos para nos ensinar, compartilhar, nos alegrar , e também para
cumprirmos nossa missão na terra: Amar o próximo como a si mesmo. A união, a amizade
é algo que importa muito na vida do ser humano, sem esse vínculo não teremos
harmonia e nem paz.As pessoas trazem para nós a tão esperada felicidade. É
preciso sorrir para todos os seres humanos. Os deveres éticos tendem a fazer os
humanos iguais: A moral é o que permanece, quando se fez o trabalho da ética.
Hoje temos claro que nosso sucesso depende do sucesso do outro.
“Ralph
Miliband afirmava de que tudo que poderia ser feito para tornar o planeta menos
ameaçador e atemorizante para os seres humanos, e portanto mais hospitaleiro
para o ser humano e para a vida humana, já o tinha sido – e que se recusavam a
aceitar que nenhum melhoramento fosse concebível. O mundo de Miliband, singular
e inimitável, era um mundo de esperança imorredoura. Por essa razão, contudo,
ele também continua sendo parte
indispensável e fonte de perpétuo
enriquecimento para nossos próprios mundos. É tarefa dos vivos manter viva a
esperança; ou então ressuscitá-la em um mundo em rápida transformação, notável
por alterar rapidamente as condições em que é conduzida a luta contínua com o
propósito de torná-lo mais hospitaleiro para a humanidade”. ( Citação feita
pelo autor Zygmunt Bauman – Livro – Medo Líquido – Ed. Zahar – 2006 – Rio de
Janeiro).
O
trabalho de Ralph Miliband simbolizou o grave desafio enfrentado pelos
intelectuais de seu tempo, pessoas que continuaram acreditando que o principal
propósito do pensamento é fazer o mundo melhor do que encontra ram. Esta jornada contínua através de projetos, atitudes, experimentados
ao longo da rota de autoconfiança, coragem e impetuosidade. As idéias renovadas
são capazes de mudar o mundo. A classe trabalhadora tão sacrificada e vítima da negação da dignidade humana luta para se
erguer construindo uma classe para si, transformando-se de objeto para sujeito
de sua história, para acabarem com toda a miséria humana. O grande objetivo é
promover e garantir a expansão intensiva e extensiva da economia capitalista, por
um lado, e recondicionando e
recapitulando a força de trabalho do
outro.
A
filosofia segundo Adorno significa a determinação de se agarrar à liberdade
intelectual e real, e só nessa condição ela pode, como deveria, permanecer
imune à sugestão do “status quo”. A emancipação visa ao desenvolvimento de
indivíduos autônomos, independentes que julguem e decidam por si mesmos.
Precisamos repetir Pierre Bordieu: “Aqueles que tem a chance de dedicar suas
vidas ao estudo do mundo social não podem recolher-se neutros e indiferentes,
diante da luta da qual a aposta é o futuro do mundo.
Não
se trata de um desejo sensível, no sentido comum da satisfação de uma
necessidade ou da recuperação de algo que tenhamos vivido ou de que sintamos
falta. Não é um desejo que tenha a ver com necessidades ou interesses nosso são
desejos desinteressados, generosos, que não visam transformar o outro em objeto
do nosso conhecimento ou de nossa propriedade, mas antes, acolhê-lo como
“absolutamente outro”.
“Nestes
pressupostos o eu vai ao encontro voluntariamente com autonomia e sem
pré-condições, numa aventura pessoal que será sempre uma surpresa, pois nunca
saberemos o que esse encontro nos reserva. Esta imprevisibilidade faz de cada
encontro uma novidade, sempre repetida, todos os dias e todas as horas são
momentos, de experiências humanas mais ou menos conseguidas, dependendo do modo
como acontece e é vivido cada encontro com outrem”. (Autor: Emmanuel Levinas –
Livro: Ética e Infinito – 2010).
Um
aspecto importante seria questionar como é que o eu e o outro chegam ao
encontro. /como se posicionam frente a frente? Como iniciam a relação ética? Em
que consiste essa relação ética? O encontro é dominado pelo aparecimento do rosto, o que se torna
presente como linguagem e discurso, verbal ou não, pela expressão corporal,
pois todos sabemos como os gestos e, às vezes, os profundos silêncios podem ser
reveladores da verdade do outro. E, no momento compreendemos que a relação com
o rosto pode ser dominada pela
percepção, mas o que é especificamente o rosto é o que não se reduz a ele. Em
primeiro lugar aparece a sua exposição integra e sem defesa.
Enunciam-se
duas dimensões: o sensível do rosto, que pode ser visto e conhecido; e o para
lá do rosto, a sua verticalidade, a sua integridade, a sua pacificidade,
aspectos da ordem do valor, da ordem da ética. Na verdade, o sentido do rosto
não está na descrição das suas características sensíveis – olhos azuis, nariz
deste ou aquele tamanho, boca com esta ou aquela forma etc... – nem tão pouco,
no conhecimento concreto que possamos ter sobre alguém, por exemplo, saber que
é filho desta ou daquela pessoa, pai,
marido, amigo, cientista, professor, músico, hindu, amante da boa comida etc...
já que nenhum destes aspectos ajuda à compreensão do rosto. O verdadeiro
sentido permanece desconhecido. Diz Lévinas:”O rosto é significação, e
significação sem contexto. Quero dizer que outrem, na retidão do seu rosto, não
é uma personagem num contexto.(...)Ele é o que não se pode transformar num
conteúdo, que o nosso pensamento abarca; é leva-nos além. Eis por que o
significado do rosto o leva a sair do
ser enquanto correlativo de um saber. (Emmanuel Lévinas - Livro: Ética e Infinito.- 2010).

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