REGINA DINIZ
Para o filósofo grego,
desenvolver boas virtudes era como aprender a tocar bem um instrumento. A ética
é uma ciência prática, jamais teórica. Não se ensina coragem a não ser se
vivendo a coragem. Nesse sentido, a moral não é dependente de nenhum valor do
outro mundo; é um esforço das pessoas para vencer vícios e dar condições aos
mais jovens de desenvolver melhores hábitos e costumes.
Essa é a escola moral que mais
aprecio e julgo correta, apesar de que, com a modernidade e as sociedades
gigantescas que surgiram e o anonimato consequente, as vezes fica difícil
pensarmos no reconhecimento das virtudes. Virtude é sempre pública, isto é, o
outro reconhece em mim a virtude. Nada de marketing do bem nem auto proclamação das próprias
virtudes.
Para Kant, se ninguém mentir, o
mundo será melhor porque todos poderão confiar em todos e a vida será
transparente. Faz parte da urbanidade e da elegância social saber que devemos
evitar dizer coisas que causem mal-estar desnecessário. Porém permanece sendo
importante que mentir o tempo destrói o tecido social e as relações entre os
seres humanos. Portanto, dizer a verdade, ainda que não seja possível sempre,
deve ser visto como um mecanismo regulatório do comportamento para que possamos
ter algum grau de confiança no amor, na família, nas amizades e nos negócios.
Kant aconselha que não devemos
usar um ser humano como meio, mas sim como fim, significa que não podemos fazer
dele “uma coisa”, mas sim que a sociedade deve tê-lo com fim em tudo o que ela
fizer: em outras palavras, o objetivo supremo d sociedade, e fazer a vida dele menos
sofrida deve ser a meta de qualquer sociedade decente. Essa idéia também é um
pouco irreal na medida em que as relações de sobrevivência material (e seus
escassos recursos) implica que muitos de nós somos meios para que outros, como
nossos filhos, por exemplo, possam sobreviver.
A necessidade econômica (ciência
da escassez) implica sermos, muitas vezes, meios para a sobrevivência da
sociedade ao longo dos milênios. Para entender a validade da idéia de Kant de
um modo mais simples, imagine a seguinte situação: pense que você divide a casa
com amigos. Agora imagine que um deles se recusa a lavar a louça. Ele não está
sendo ético no sentido Kantiano, porque se todos precisam lavar a louça, não há
porque um deva escapar desse encargo.
Do ponto de vista da história da
filosofia, a diferença entre moral e ética é a mesma que existe entre mesa e
table. Moral é a tradução latina para a palavre grega original ética. Vou usar
as duas como sinônimos. Apesar disso, vale a pena esclarecer o que as pessoas
têm em mente quando assumem que existe uma diferença entre elas. Para a
maioria, ética é o campo das normas de conduta, enquanto moral é a parte da filosofia
que reflete hábitos e costumes. Ambas são as duas coisas ao mesmo tempo, porque
faz parte da reflexão sobre hábitos e costumes pensar sobre as normas que devem
regrar esses hábitos e costumes.
Não existem hábitos e costumes
que não sejam permeados de normas, muitas vezes quase automáticas ou
espontâneas. O que são hábitos e costumes? Generosidade, coragem. justiça,
disciplina entre outros. Para Aristóteles os bons atos e costumes deveriam ser
praticados a ponto de se tornarem uma segunda natureza, portanto automáticos ou
espontâneos. A escola moral mais antiga é a de Aristóteles, conhecida como
moral das virtudes ou do caráter. Para ele, ao longo da vida coletiva dos povos
desenvolvemos hábitos e costumes que nos definem como seres morais.
Kant chama atenção para o fato de
que se você for chamado a julgar algo em que tem interesse direto em um dos
possíveis resultados, abra a mão da função de julgar essa situação, uma vez que
sua avaliação poderá ser prejudicada por elementos emocionais no processo. Kant
via a ética como um campo de prática racional acima de tudo. Ainda que muitos
longe da realidade comezinha e concreta em que vivemos na realidade, a ética
Kantiana se sustenta como tentativa moderna essencial de somar esforços para
agirmos de modo minimamente racional e levarmos em conta o maior número de
pessoas envolvidas no processo, ainda que nem sempre todas de modo ideal.
A perda dos vínculos próximos das
comunidades pré-modernas, base dos hábitos e costumes que sustentavam a vida
dentro de certos trilhos, encontrou na ética Kantiana uma tentativa sincera de
sustentar a vida, daquilo que Kant e outros julgam ser central em nossa vida: a
razão. Se eles, os racionalistas, estão certo, é outra coisa. Como eu disse
antes, não creio que sejamos seres racionais em sua plenitude. Ao contrário,
penso que muitas são as pressões internas e externas sobre nós para que a razão
seja a senhora absoluta em nossa vida.
No início do século XX, Aldous
Huxley escreveu o maior panfleto anti-utilitário conhecido, admirável mundo
novo. Sua distopia de um mundo perfeito é até hoje, me parece, o que há de
melhor em calcular os resultados de uma sociedade que faria a opção pelo racionalismo
utilitário de forma definitiva. Vejamos Nesse Admirável Mundo novo, a perfeição
de uma sociedade que eliminou o contraditório mostra, ainda que de modo
caricatural, seus efeitos colaterais danosos.
Seres humanos que optam por uma
vida perfeita acabam escravos dessa perfeição. Se o “erro de Kant” é apostar numa
razão pura prática (nome técnico da moral em seu livro sobre o tema que não
está ao alcance de um ser humano real, confuso e fraco.
O “erro” do utilitarismo é fruto
do que “sobra de acerto” em sua ética: estão certos em dizer que fugimos da dor
e buscamos o bem-estar, mas estão errados em achar que podemos construir uma sociedade
em cima da busca científica da
felicidade. A pessoas no livro de Huxley eram umas idiotas fabricadas
geneticamente. As pessoas do mundo real são umas idiotas obcecadas pela saúde e
pela felicidade. E acertou em cheio, não?
“A ética das virtudes de
Aristóteles é a melhor, porque vê a vida moral como um combate em busca de bons
hábitos, sem prescrição de comportamentos que tendem a normas categóricas.
Nesse sentido, é a mais humana das três escolas. Nesse sentido me considero
um Aristotélico em Ética.
No mundo contemporâneo, a
hierarquia nietzschiana, principalmente de corte francês, e em
filósofos como Gilles Deleuze e Michel Foucault, e o caráter
relativo dos valores ficaram expostos, e, portanto, sua validade é relativa a tempo e espaço específicos.
Se formos para trás um pouco no
tempo, e chegarmos ao século XVII, em filósofos como Blaise
Pascal, ou no século XVI, em Michel de Moutaine, ambos
carregados de teor cético em seus argumentos, ou mais atrás ainda, e formos aos
últimos séculos da era pré-cristã na Grécia, e ouvirmos as vozes dos sofistas e céticos, veremos que
todos eles, apesar de não usarem a expressão
valores, sempre foram relativistas. Pascal chega a afirmar que, se o nariz
de Cleópatra fosse outro, a história do mundo seria outra. Logo os valores
seriam outros.

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