domingo, 14 de maio de 2017

O VAZIO ÉTICO E EMOCIONAL DOS DIAS DE HOJE


REGINA DINIZ


Qual a origem psicológica dessa experiência de vazio? A sensação de vácuo que observamos ao nível social e individual não deve ser tomada no sentido de que as pessoas são vazias, desprovidas de potencialidade emocional. Um ser humano não é oco num sentido estático, como se fosse uma bateria precisada de nova carga. A sensação de vazio provém, em geral, da incapacidade para fazer algo de eficaz a respeito da própria vida e do mundo em que vivemos.

O vácuo interior é o resultado acumulado a longo prazo da convicção pessoal de ser incapaz de agir como uma entidade, dirigir a própria vida, modificar a atitude das pessoas em relação a si mesmo, ou exercer influência  sobre o mundo que nos rodeia. ( Autor: Rollo May).

 Surge assim a profunda sensação de desespero e futilidade que aflige hoje em dia. E uma  vez, que a pessoa sente e deseja não tem verdadeira importância, ela em breve renuncia a sentir e a querer. A apatia e a falta de emoções são defesas contra a ansiedade. Quando alguém continuamente defronta-se com um perigo que é incapaz de vencer, sua linha final de defesa é evitar a sensação de perigo. Observadores perspicazes de nossa época predisseram estes acontecimentos. Erich Fromm observou que hoje em dia as pessoas deixaram de viver sob a autoridade da igreja ou das leis morais, mas submetem-se a “autoridades anônimas”   mas com a opinião pública.

Riesman faz a importante observação de que o público, neste caso, teme um fantasma, um boneco, uma quimera. Trata-se de uma autoridade anônima com “A” maiúsculo, composta de nós mesmos, mas desprovida de centros individuais. No final, o que tememos é o nosso vazio coletivo. E temos bons motivos, como os editores de Fortune, para nos assustarmos com esta situação de conformidade e vácuo individual. Basta lembrar que o vazio ético e emocional da sociedade européia,  há duas ou três décadas foi um convite aberto ao surgimento de ditadores fascistas. O grande perigo desta situação de vácuo e impotência e conduzir mais cedo ou mais tarde, à ansiedade e ao desespero e finalmente, se não corrigida, ao desperdício e ao bloqueio das mais preciosas qualidades do ser humano. Os resultados finais serão a redução e o empobrecimento psicológico, ou então a sujeição a uma autoridade destrutiva.

Toda a história do homem é um esforço para destruir a própria solidão. A sensação de isolamento ocorre quando a pessoa se sente vazia e amedrontada, não apenas deseja sentir-se protegida na multidão, como um animal selvagem se resguarda vivendo em bandos. A ânsia pela proximidade dos outros não é também um simples desejo de preencher o vácuo interior, embora esta seja com certeza uma faceta da necessidade de companheirismo humano de quem se sente ansioso. O motivo mais fundamental é que o ser humano adquire sua primeira experiência do self (processo desenvolvido pelo indivíduo em interação com seus semelhantes e através do qual se torna capaz de tratar a si mesmo como o objeto, isto é observar-se, considerando seu próprio comportamento do ponto de vista alheio, no relacionamento com seus semelhantes e quando está sozinho, desligado de outras pessoas, teme perder esta experiência.

Na solidão do homem moderno está seu grande temor de ficar só. Em nossa cultura costuma-se dizer: - “você anda solitário¨, um modo de admitir que não é bom estar só. É aceitável querer ficar só temporariamente, para “desligar-se de tudo”. Mas se alguém mencionar numa reunião, que gosta de estar sozinho, não para descansar, mas por preferência pessoal, os outros têm tendência a achar que fracassou, pois para eles é inconcebível que uma pessoa fique sozinha por libre escolha.

Este medo da solidão aparece por detrás da grande necessidade de receber convites, ou de ver os seus aceitos. A pressão para manter-se socialmente ativo vai muito além dos motivos realistas, como o prazer da companhia alheia, o enriquecimento das idéias, sentimentos e experiências, ou a simples satisfação do descanso. Na Verdade, tais motivos tem pouco a ver com a idéia compulsiva de ser convidado.

 As pessoas mais esclarecidas o percebem muito bem e gostariam de dizer “não”, mas desejam muito a oportunidade de ir:  e recusar convites na costumeira roda da vida social significa, mais cedo ou mais tarde deixar de ser convidado. O temor que emerge das camadas subterrâneas é ser inteiramente afastado, deixado de lado.

Não há dúvida de que em todas as épocas a solidão foi temida e as pessoas a ela procuraram fugir. Pascal, no século XVII observando os esforços que todos faziam para divertir-se, opinou que a finalidade das distrações era evitar que as pessoas pensassem em si mesmas. 

Kierkegaard, há cem anos passados, escreveu que em sua época “as pessoas fazem tudo o que é possível em matéria de diversão e de empreendimentos atordoantes para afastar a idéia de solidão, assim como nas florestas da América mantêm-se à distância os animais selvagens por meio de tochas acesas gritos e toque de chocalhos”. Mas a diferença é que em nossa época o medo da solidão é muito mais intenso e as despesas contra ele – diversões, atividades sociais e “amizades” são mais rígidas e compulsivas.

É de importância crucial, portanto, manter a continua roda de coquetéis, embora encontrem diariamente as mesmas pessoas, tomem as mesmas bebidas e conversem sobre os mesmos assuntos ou a falta deles. Importante não é o que se diz, e sim que haja sempre alguém falando. O silêncio é um grande crime, pois significa solidão e medo.

O homem ocidental, habituado há quatro séculos a enfatizar a  racionalidade , a uniformidade e a mecânica, vem tendo consistentemente, com pouco êxito, recalcar seus aspectos que não se coadunam com esses padrões uniformes e mecânicos. Será exagerado dizer que o homem moderno, sentindo o seu vazio, teme que se não tiverem seus associados costumeiros à volta, se esquecer que horas são, perderá o talismã do programa diário, da rotina de trabalho e sentirá embora de maneira confusa, uma ameaça a solidão é portanto real e não imaginaria, para a maioria.

Outra raiz de nossa doença é a perda do sentido de valor e dignidade do ser humano. Nietzsche o predisse ao apontar que o indivíduo estava sendo absorvido pela multidão e que estávamos vivendo segundo uma moralidade de escravos. Marx também o predisse ao proclamar que o homem moderno estava sendo “desumanizado”, e Kafka demonstrou em suas supreendentes histórias, que as pessoas podem literalmente perder a própria identidade. Surgiram reflexões “Seja você mesmo” era então uma desculpa para deixar-se cair no mais baixo denominador comum das inclinações. “Conhecer a si mesmo” não era considerado particularmente difícil, e os problemas de personalidade podiam ser resolvidos com relativa facilidade por meio de um melhor “ajuste”.

Precisamos lutar para recuperar a experiência e a fé no valor e na dignidade da pessoa humana. Tudo parece ocorrer num sonho, sem um verdadeiro relacionamento entre o homem e o mundo, ou ele mesmo e suas ações. Aventurar-se, no sentido mais elevado, é precisamente tomar consciência de si mesmo. Seu senso de individualidade o distingue do restante dos seres animado e inanimados. Sentimos a necessidade da autoconsciência. É preciso afirmar a própria personalidade, apesar do caráter impessoal da natureza, e preencher seus silêncios com a própria vida interior.

O psicoterapeuta, tendo o privilégio de testemunhar a luta íntima de um certo número de pessoas, seus combates muitas vezes amargos e graves, consigo mesmas e com as forças externas que as desafiam, adquire por elas um grande respeito e uma nova compreensão do potencial de dignidade do ser humano. Resolve levar-se a sério, descobre no íntimo uma capacidade da recuperação anteriormente desconhecida, e às vezes mesmo notável.

Há um lado positivo: o fato de não termos outra escolha a não ser caminhar para a frente. Somos pessoas cujas defesas e ilusões foram vencidas. A única opção é avançar para algo melhor. Precisamos redescobrir no nosso íntimo novas fontes de vigor e integridade. Este é um dever do indivíduo, que assim contribuirá para o lançamento das bases de uma sociedade construtiva, que eventualmente emergirá desta época agitada.

A faculdade da antoconsciência confere ao ser humano o talento de ver-se a si mesmo como os outros o vêem e sentir empatia. Existe ainda sob a notável aptidão para transportar-se  até a sala de alguém, onde na realidade só se encontrará  na semana seguinte, e em imaginação planejar sua maneira de agir. Permite que a pessoa se coloque no lugar de outra e imagine como se sentiria e o que faria se fosse ela. Por pior que se use, deixe de usar, ou o mesmo abuse  desta aptidão, ela constitui os rendimentos da capacidade de amar o próximo, ter sensibilidade ética, considerar a verdade, criar a beleza, dedicar-se a ideais e morrer por eles, caso necessário.

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