REGINA DINIZ
Qual a origem psicológica dessa
experiência de vazio? A sensação de vácuo que observamos ao nível social e
individual não deve ser tomada no sentido de que as pessoas são vazias,
desprovidas de potencialidade emocional. Um ser humano não é oco num sentido
estático, como se fosse uma bateria precisada de nova carga. A sensação de
vazio provém, em geral, da incapacidade para fazer algo de eficaz a respeito da
própria vida e do mundo em que vivemos.
O vácuo interior é o resultado
acumulado a longo prazo da convicção pessoal de ser incapaz de agir como uma
entidade, dirigir a própria vida, modificar a atitude das pessoas em relação a
si mesmo, ou exercer influência sobre o
mundo que nos rodeia. ( Autor: Rollo May).
Surge assim a profunda sensação de desespero e
futilidade que aflige hoje em dia. E uma
vez, que a pessoa sente e deseja não tem verdadeira importância, ela em
breve renuncia a sentir e a querer. A apatia e a falta de emoções são defesas
contra a ansiedade. Quando alguém continuamente defronta-se com um perigo que é
incapaz de vencer, sua linha final de defesa é evitar a sensação de perigo.
Observadores perspicazes de nossa época predisseram estes acontecimentos. Erich
Fromm observou que hoje em dia as pessoas deixaram de viver sob a autoridade da
igreja ou das leis morais, mas submetem-se a “autoridades anônimas” mas com a opinião pública.
Riesman faz a importante
observação de que o público, neste caso, teme um fantasma, um boneco, uma
quimera. Trata-se de uma autoridade anônima com “A” maiúsculo, composta de nós
mesmos, mas desprovida de centros individuais. No final, o que tememos é o
nosso vazio coletivo. E temos bons motivos, como os editores de Fortune, para
nos assustarmos com esta situação de conformidade e vácuo individual. Basta
lembrar que o vazio ético e emocional da sociedade européia, há duas ou três décadas foi um convite aberto
ao surgimento de ditadores fascistas. O grande perigo desta situação de vácuo e
impotência e conduzir mais cedo ou mais tarde, à ansiedade e ao desespero e finalmente,
se não corrigida, ao desperdício e ao bloqueio das mais preciosas qualidades do
ser humano. Os resultados finais serão a redução e o empobrecimento
psicológico, ou então a sujeição a uma autoridade destrutiva.
Toda a história do homem é um
esforço para destruir a própria solidão. A sensação de isolamento ocorre quando
a pessoa se sente vazia e amedrontada, não apenas deseja sentir-se protegida na
multidão, como um animal selvagem se resguarda vivendo em bandos. A ânsia pela
proximidade dos outros não é também um simples desejo de preencher o vácuo
interior, embora esta seja com certeza uma faceta da necessidade de
companheirismo humano de quem se sente ansioso. O motivo mais fundamental é que
o ser humano adquire sua primeira experiência do self (processo desenvolvido
pelo indivíduo em interação com seus semelhantes e através do qual se torna
capaz de tratar a si mesmo como o objeto, isto é observar-se, considerando seu
próprio comportamento do ponto de vista alheio, no relacionamento com seus
semelhantes e quando está sozinho, desligado de outras pessoas, teme perder
esta experiência.
Na solidão do homem moderno está
seu grande temor de ficar só. Em nossa cultura costuma-se dizer: - “você anda
solitário¨, um modo de admitir que não é bom estar só. É aceitável querer ficar
só temporariamente, para “desligar-se de tudo”. Mas se alguém mencionar numa
reunião, que gosta de estar sozinho, não para descansar, mas por preferência
pessoal, os outros têm tendência a achar que fracassou, pois para eles é
inconcebível que uma pessoa fique sozinha por libre escolha.
Este medo da solidão aparece por
detrás da grande necessidade de receber convites, ou de ver os seus aceitos. A
pressão para manter-se socialmente ativo vai muito além dos motivos realistas,
como o prazer da companhia alheia, o enriquecimento das idéias, sentimentos e
experiências, ou a simples satisfação do descanso. Na Verdade, tais motivos tem pouco a
ver com a idéia compulsiva de ser convidado.
As pessoas mais esclarecidas o percebem muito
bem e gostariam de dizer “não”, mas desejam muito a oportunidade de ir: e recusar convites na costumeira roda da vida
social significa, mais cedo ou mais tarde deixar de ser convidado. O temor que
emerge das camadas subterrâneas é ser inteiramente afastado, deixado de lado.
Não há dúvida de que em todas as
épocas a solidão foi temida e as pessoas a ela procuraram fugir. Pascal, no
século XVII observando os esforços que todos faziam para divertir-se, opinou
que a finalidade das distrações era evitar que as pessoas pensassem em si
mesmas.
Kierkegaard, há cem anos passados, escreveu que em sua época “as pessoas fazem tudo o que é possível em matéria de diversão e de empreendimentos atordoantes para afastar a idéia de solidão, assim como nas florestas da América mantêm-se à distância os animais selvagens por meio de tochas acesas gritos e toque de chocalhos”. Mas a diferença é que em nossa época o medo da solidão é muito mais intenso e as despesas contra ele – diversões, atividades sociais e “amizades” são mais rígidas e compulsivas.
É de importância crucial,
portanto, manter a continua roda de coquetéis, embora encontrem diariamente as
mesmas pessoas, tomem as mesmas bebidas e conversem sobre os mesmos assuntos ou
a falta deles. Importante não é o que se diz, e sim que haja sempre alguém
falando. O silêncio é um grande crime, pois significa solidão e medo.
O homem ocidental, habituado há quatro séculos a enfatizar
a racionalidade , a uniformidade e a mecânica, vem tendo
consistentemente, com pouco êxito, recalcar
seus aspectos que não se coadunam com esses padrões uniformes e mecânicos. Será
exagerado dizer que o homem moderno, sentindo o seu vazio, teme que se não
tiverem seus associados costumeiros à volta, se esquecer que horas são, perderá
o talismã do programa diário, da rotina de trabalho e sentirá embora de maneira
confusa, uma ameaça a solidão é portanto real e não imaginaria, para a maioria.
Outra raiz de nossa doença é a
perda do sentido de valor e dignidade do ser humano. Nietzsche o
predisse ao apontar que o indivíduo estava sendo absorvido pela multidão e que
estávamos vivendo segundo uma moralidade de escravos. Marx também o predisse ao
proclamar que o homem moderno estava sendo “desumanizado”, e Kafka demonstrou
em suas supreendentes histórias, que as pessoas podem literalmente perder a
própria identidade. Surgiram reflexões “Seja você mesmo” era então uma desculpa
para deixar-se cair no mais baixo denominador comum das inclinações. “Conhecer
a si mesmo” não era considerado particularmente difícil, e os problemas de
personalidade podiam ser resolvidos com relativa facilidade por meio de um
melhor “ajuste”.
Precisamos lutar para recuperar a
experiência e a fé no valor e na dignidade da pessoa humana. Tudo parece
ocorrer num sonho, sem um verdadeiro relacionamento entre o homem e o mundo, ou
ele mesmo e suas ações. Aventurar-se, no sentido mais elevado, é precisamente
tomar consciência de si mesmo. Seu senso de individualidade o distingue do
restante dos seres animado e inanimados. Sentimos a necessidade da autoconsciência.
É preciso afirmar a própria personalidade, apesar do caráter impessoal da
natureza, e preencher seus silêncios com a própria vida interior.
O psicoterapeuta, tendo o
privilégio de testemunhar a luta íntima de um certo número de pessoas, seus
combates muitas vezes amargos e graves, consigo mesmas e com as forças externas
que as desafiam, adquire por elas um grande respeito e uma nova compreensão do
potencial de dignidade do ser humano. Resolve levar-se a sério, descobre no
íntimo uma capacidade da recuperação anteriormente desconhecida, e às
vezes mesmo notável.
Há um lado positivo: o fato de
não termos outra escolha a não ser caminhar para a frente. Somos pessoas cujas
defesas e ilusões foram vencidas. A única opção é avançar para algo melhor.
Precisamos redescobrir no nosso íntimo novas fontes de vigor e integridade.
Este é um dever do indivíduo, que assim contribuirá para o lançamento das bases
de uma sociedade construtiva, que eventualmente emergirá desta época agitada.
A faculdade da antoconsciência
confere ao ser humano o talento de ver-se a si mesmo como os outros o vêem e
sentir empatia. Existe ainda sob a notável aptidão para transportar-se até a sala de alguém, onde na realidade só se
encontrará na semana seguinte, e em
imaginação planejar sua maneira de agir. Permite que a pessoa se coloque no
lugar de outra e imagine como se sentiria e o que faria se fosse ela. Por pior
que se use, deixe de usar, ou o mesmo abuse
desta aptidão, ela constitui os rendimentos da capacidade de amar o
próximo, ter sensibilidade ética, considerar a verdade, criar a beleza, dedicar-se a ideais e morrer por
eles, caso necessário.

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