quinta-feira, 11 de março de 2010

A DESCOBERTA DAS APTIDÕES

Regina Diniz

Seria nosso desejo dizer muito mais a respeito do tipo de sociedade em que os sentimentos individuais de liberdade e eficácia poderiam florescer, da Utopia que convertesse a autonomia não apenas numa realização individual, face ao feitio de nossa vida comum, mas também num incremento de eficácia dessa vida e, portanto, do próprio senso que o indivíduo tem de si. (David Riesman – livro – A Multidão solitária – Editora Perspectiva S.A. – São Paulo – 1995). Aproximar-se de si mesmo, nos dias atuais é um grande desafio. O futuro existe agora em nossa vida sob a forma de ideais, esperanças, deveres, tarefas, planos, metas, potenciais irrealizados, missão, fé, destino. É um luxo nos presentear com momentos de transformações positivas. É possível praticar “violações solenes” para oxigenar nossas idéias.

Uma boa escolha é olhar para trás e se reinventar para a frente. “Jesus Cristo é o precursor do movimento romântico na vida, o supra-sumo dos individualistas”. Tendo criado a si mesmo, Jesus de Nazaré pregava o poder da imaginação como a base de toda a sua vida emocional e espiritual. A renovação de nossa individualidade só pode surgir de dentro de nós mesmos, depois de uma profunda busca e redirecionamento de nossos valores existenciais.

Quando admitimos evoluir significa que nos saturamos com o trivial, e que estamos prontos para as novas opções, que já amadureceram em nosso interior. A pressão do crescimento pessoal é a presença do divino em nossa destinação. A individuação significa transcender as deficiências, dando espaço para o surgimento do estado metamotivado, que abre as portas da criatividade.

“A perda do eu, e sua substituição por um pseudo-eu deixam o indivíduo em um estado de intensa insegurança. Ele fica obcecado por dúvidas, já que, sendo essencialmente um reflexo das expectativas que outras pessoas têm com relação a ele, de certo modo perdeu a identidade. Com o fito de vencer o pânico resultante dessa perda de identidade, ele se vê compelido a conformar-se, a procurar sua identidade graças a contínua aprovação e reconhecimento dos outros. Como ele não sabe quem é, ao menos os outros saberão – se agir segundo a expectativa deles; se eles souberem, também saberá, desde que aceite a palavra deles”. (O Medo á Liberdade – Zahar Editores – 1983). A automação do indivíduo na sociedade moderna deixou-o desorientado e inseguro. Foi facilmente seduzido pela cultura das máquinas, e considerando-se inferior sujeitou-se a novas autoridades, que manipulam o seu imaginário.

Ao longo dos séculos, a história da humanidade gira em torno do esforço para livrar o homem das peias políticas e econômicas que o têm mantido acorrentado. As batalhas pela liberdade foram sustentadas pelos que sentiam a escravização e queriam novas liberdades. O nosso planeta poderia estar muito melhor se não houvesse os inimigos da liberdade, que sempre defenderam novos privilégios. Entretanto o homem sempre acreditou ser possível governar a si mesmo, tomar decisões por si mesmo e pensar e sentir conforme seu ponto de vista.

A cultura pós-moderna aposta com força na padronização cultural (escravização disfarçada), que assumiu o controle da vida pessoal e social do homem, é a submissão de todos, salvo um punhado que exerce uma autoridade forte e invisível. John Dewey no livro “Fredom and Culture” argumenta: “A ameaça mais grave a nossa democracia não é a existência de Estados totalitários estrangeiros: é a existência em nossas atitudes pessoais e em nossas instituições, das condições em que países estrangeiros asseguraram a vitória da autoridade externa, disciplina, uniformidade e dependência do chefe. O campo de batalha, por isso, também se acha aqui – dentro de nós mesmos e de nossas instituições”. A presença de valores fortes de honradez moral é uma das possibilidades para enfrentar a auto-anulação total, que atira o indivíduo numa acentuada depressão.

Segundo Joseph Wood Krutch – 1929 - “A obediência incondicional à ética é a única alternativa para enfrentar o niilismo moral (descrença absoluta –aniquilamento moral ). Tão logo se começa a duvidar da validade das leis de Deus, consideradas como princípios fundamentais da Teologia, ou assim que se começa a questionar o propósito da vida, inicia-se da descida pelos flancos escorregadios do relativismo (casual – acidental – fortuito), da anarquia moral e do desespero cultural.” Descobri por conta própria que ao afastar-me de Deus, perco a imagem sadia dos meus objetivos existenciais e liquido com a minha auto-estima. Peço sempre em orações a inspiração em introspecções construtivas para descobrir novas possibilidades de ser, que normalmente não conseguiria reconhecer.

Quem sou eu? É uma pergunta milenar do autoconhecimento, que avança pela vida, em níveis cada vez mais profundos. Quando me recordo de decisões importantes que tomei em décadas passadas, reconheço que foram muito simplórias. Passado o tempo, hoje me sinto mais competente para enfrentar os desafios do crescimento pessoal. De todos os julgamentos, que passamos na vida o mais importante é aquele que fazemos sobre nós mesmos. Não podemos sabotar a nossa felicidade e atrapalhar a nossa realização pessoal e espiritual.

Fortalecemos a nossa auto-estima quando nos consideramos aptos a compreender a vida e suas exigências. A descrição da condição moderna segundo Jung: “O homem moderno está de pé sobre um pico. Na própria borda do mundo, com o abismo do futuro diante dele, os céus sobre a sua cabeça e aos seus pés toda a humanidade com a sua história que desaparece nas brumas primevas (tempos primitivos). A visão das alturas era vertiginosa, mas imponente”. A trajetória do ser humano é muito bonita, quando alicerçada na honestidade, integridade e responsabilidade própria. Precisamos, sem dúvida, fazer a nossa parte, nos permitindo momentos de graça, de luz e de elevação espiritual.

“A natureza da consciência é fluir. Ela parece estar sempre mudando. Estados de espírito se sucedem... Podemos dirigir a consciência para uma idéia ou impulso, mas não podemos trancá-la no lugar”.(Dr.George Weinberg). Possuímos diversas dimensões de crescimento pessoal, que podemos vivenciar e das quais podemos usufruir. E há muitas formas de entrar em contato com o eu interior que abrigamos. Trata-se da escolha de uma jornada de qualidade na qual quanto mais nos dedicamos, mais nos tornamos competentes para alcançar degraus cada vez mais altos em espiritualidade.

Nossa mente é maravilhosa. Está sempre se movendo, crescendo, absorvendo energias puras, eliminando idéias negativas, guardando só o que nos impulsiona para a saúde psicológica. Nós é que controlamos a direção, Deus nos abençoou com está imensa possibilidade. Inteligentemente rejeitamos os resultados negativos e só valorizamos as projeções positivas. Quando fazemos uma faxina espiritual, desenvolvemos uma progressiva habilidade de concentração, abrindo as comportas para alcançarmos planos mais criativos e clarividentes da nossa mente, dos quais trazemos auxílios espirituais, psíquicos e intelectuais muito úteis em nosso dia-a-dia.

Assumir a posse de nossa mente e a responsabilidade de administrá-la, desenvolve um sentido de força espiritual e, em troca, aumenta a auto-estima. A intenção de admitirmos, que vale a pena assumir a qualidade dos pensamentos e atitudes será o grande ponto de virada. Utilizar e direcionar nossas energias para a purificação de nossa mente, e para a descoberta e o desenvolvimento de nossas aptidões espirituais é a nossa sagrada missão.

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