terça-feira, 30 de novembro de 2010

ENTRELAÇAMENTOS HUMANOS

REGINA DINIZ


O conteúdo dos valores humanos advém, sobretudo, da religião, da filosofia e de outras disciplinas no campo das humanidades. Explicitar estas profundas avaliações perceptivas, e ligá-las a vida emocional, parece ser o maior mérito desempenhado pelas religiões na vida social e espiritual do homem. Entretanto é necessário ponderar, que não podemos esperar e colocar tudo nas mãos destas ciências, sem reescrever o nosso destino da maneira que idealizarmos.

Um grande erro foi nos divorciarmos de muitos milhares de anos da lenta evolução da sabedoria humana, e nos tornarmos ingênuos em relação aos valores existenciais. Na interpenetração de culturas diferentes (globalização) é fundamental preservar e defender o nosso direito de perguntar, de esquadrinhar, de investigar, que é a essência de identificação de uma pessoa. Em culturas avançadas, é exaustivamente debatida e defendida a posição do próprio eu como sujeito num mundo de objetos.

Concordar ou discordar é um direito inalienável do ser humano. Inúmeras vezes, após muito relutar expressei um não, quando a maioria dizia sim. Sentia-me profundamente tranqüilizada, por provar a mim mesma, que fora fiel ao que pensava. A confirmação da minha liberdade de ser sempre fortaleceu a minha motivação.

Mas como desarmar as terríveis armadilhas, que deprimem a mente e as emoções das pessoas modernas? Precisamos admitir de coração a existência de Deus. Uma gigantesca fome espiritual é a característica dominante de nossa época. Quando não nos admitimos como seres espirituais sentimos um vazio, e tentamos preenchê-lo em confirmações materialistas. Entretanto uma parcela significativa da humanidade sempre se equilibrou em Deus. O nosso tesouro ético-religioso se mantém vivo, mais do que nunca, mesmo diante deste voraz ataque capitalista. Os pilares religiosos se mantêm revigorados em todo o mundo. A confiabilidade dos Grupos Religiosos, no Brasil, subiu para 54% neste ano de 2010.

Surge uma verdadeira “guerrilha ética”, que privilegia as necessidades morais do indivíduo. Tem muita importância esta batalha em prol dos valores de educação e contra a destruição do que há de mais valioso para cada um de nós, que é a preservação de nossa imaginação criativa. Nesta batalha os apelos éticos devem partir de todos nós.

Estes satânicos processos de “massa” no qual vivemos são transitórios, mas deixam marcas profundas. Estas convulsões culturais e históricas abalam a imagem que o ser humano faz de si mesmo. Necessitamos urgentemente de mitos positivos para nos guiar, para que não imitemos o modelo da máquina, que invade o nosso imaginário com tanta facilidade.

“A saúde mental não pode ser definida em termos da adaptação do indivíduo à sua sociedade, mas pelo contrário deve ser definida como adaptação da sociedade às necessidades do homem e pelo seu papel em impulsionar o desenvolvimento da saúde mental”. (Erich Fromm – Psicanálise da Sociedade Contemporânea – Editora Zahar – l979). O fato de o indivíduo ser mentalmente sadio na estrutura da sociedade deve ser uma prioridade constantemente avaliada.

Uma sociedade saudável desenvolve a capacidade para praticar a pedagogia das responsabilidades recíprocas, para trabalhar criativamente, para desenvolver a sua razão e sua subjetividade, para praticar a solidariedade entre os seus pares. É prioridade privilegiar o desenvolvimento salutar do homem e não impedi-lo. Através da proposta destrutiva de competição entre os cidadãos, pagamos o preço mais elevado da sociedade de consumo, que é o sentimento de insegurança generalizada que ela produz. O ser humano nada vale para ela, é o culto ao objeto que é o correto. Tira-se a vida de qualquer indivíduo por um par de tênis ou por muito menos...

Trocaram o culto a Deus pela violência, a fim de cultuarem as tralhas materiais... E muitos países considerados cultos aderiram a esta proposta tremendamente infantilizada. Atualmente importantes nações do mundo inteiro estão em dificuldades econômicas, mas não admitem parar de gastar o que já não possuem mais. É inacreditável a cegueira econômica e social dos nossos tempos.

E como se desvencilhar destas amarras culturais? – Idealizar-se como um ser humano maior e mais valioso, priorizando o ser e não somente o ter, e sem dar a mínima atenção ao espetáculo paupérrimo, repetitivo, permanente da celebração do objeto na publicidade que se consome a si própria nas suas centenas de mensagens diárias emitidas. – Considerar com seriedade, que por trás do divertimento há uma verdadeira indústria, achatando e formatando as consciências, que foram reduzidas a meros consumidores...

(Jin Sleeper – autor de “The Closet of Strengers: Liberalism and the politics of Race in New York).  Ele nos educa nas virtudes essenciais à vida civil: - lealdade, - confiança,
- responsabilidade. Ele nos encoraja a fazer alguma coisa socialmente dignificante.  – a nos impor exigências difíceis de satisfazer, – a apreciar as satisfações que o serviço dedicado a um ideal proporcionam, ao contrário da gratificação dada pelo mercado, que oferece um brilho sem substância. O ideal seria propor realizações menos vistosas, porém mais profundas e duráveis no bairro, na sala de reunião da paróquia ou na sinagoga, no restaurante, no centro comunitário ou no parque da esquina e outros...  

Todos nós compartilhamos dessa necessidade de sermos aceitos e alcançaremos maior gratificação, reconhecendo a importância dos que participam de nossas experiências grupais. Todos sobrevivemos aos sempre presentes impactos da vida com muito mais  compreensão, quando sentimos o consolo e a atenção uns dos outros. Quando pensamos na humanidade, distribuindo essências de harmonia espiritual, entendemos que precisam tanto do nosso apoio como nós necessitamos do apoio deles.

É imprescindível que aprendamos a distribuir as práticas de aproximação humana. Cada um de nós está passando por um determinado período, com um grupo de pessoas, não por acaso, mas por um desígnio maior. Jamais evoluiremos como espíritos, pensando só em nós mesmos. Incondicionalmente, devemos fluir essências de luz para a humanidade inteira. 

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