quarta-feira, 8 de junho de 2011

O ANSEIO PELA VIDA COMPARTILHADA

REGINA DINIZ 

Como compreender a perda do foco de valores da nossa época? O fato central  é vivermos num daqueles momentos da história em que um tipo de vida se encontra em agonia e outro começa a surgir, isto é, os valores e objetivos da sociedade ocidental encontram-se em estado de transição. Quais são especificadamente os valores que perdemos? Uma das suas crenças fundamentais dos tempos modernos, desde o Renascimento é o valor da competição individual. Existia a convicção de que quanto mais alguém trabalhasse no sentido de seus interesses econômicos e enriquecesse, tanto mais contribuiria para o progresso material da comunidade. Esta famosa teoria do laissez faire econômico foi eficaz durante vários séculos. (Rollo May – Livro: O Significado da Ansiedade – Zahar Editores – 1980 – Rio de Janeiro – 1980)

Entre os séculos XIX e XX encaminharam-se profundas renovações econômicas e sociais. Surgiram os negócios gigantescos e monopólios capitalistas, que desejavam uma nova personalidade, então o estilo de ser do homem competidor foi substituído pelo estilo do homem, bem mais sociável e  competente no trabalho em equipe. Passar à frente dos outros passou a ser uma prática inaceitável.

Na trajetória da civilização, os dons sempre explodiram em poderosas redescobertas, que se multiplicavam para o bem da comunidade. Atualmente os valores éticos de atenuada influência são os da tradição hebraico-cristã: “amor”, “serviço ao próximo”, “o desejo ser estimado”. Precisamos encontrar um novo centro de apoio, ou seja, a “reavaliação” de todos os valores. Só renovando, podemos descobrir as conseqüências benéficas destas mudanças.

O ser humano é fundamentalmente uma criatura social e psicologicamente interdependente em relação a outras pessoas. A auto-realização pode ser construtivamente alcançada pela afirmação e consolidação dos vínculos dentro  de um lar, no emprego, dentro de um círculo de amizades ou dentro de um grupo de pessoas conhecidas. A revitalização emocional flui quando aceitamos solidificar as ligações, que nos ligam à humanidade. Vivencio o estado de realização pessoal, quando consigo compreender o sentimento forte de pertencer, de me identificar com outros seres humanos.

É gratificante vivificar o sentido do valor e da dignidade do ser humano, ou seja, falar mais sobre nós mesmos. Um bom caminho é nos proclamar como seres em busca de elevada humanização. O ideal é investir e confiar em nós mesmos e não só na técnica, e nas máquinas. O ideal é trazer de volta a presença da fé na dignidade, na complexidade e na liberdade da pessoa. “Ai daquele que está sozinho quando cai, pois não tem ninguém para ajudá-lo a levantar”.(Eclesiastes).

A decisão pessoal tem muito valor, e agora começa a surgir a tendência de sentir-se cada vez melhor como pessoa. Muitos indivíduos, hoje em dia,  optaram por conhecer-se melhor, e procuram decifrar  a essência de suas mais altas qualidades de ser. O homem sempre pensou em abstrações como união, razão e bondade e como também sempre acreditou no valor e na importância que tem para os outros seres humanos. Todos os grandes homens na terra deram-se a reconhecer pelo traço de fraternidade deixada por onde passaram, pelo amor à humanidade, pela ajuda desinteressada a quem quer que fosse.

Todos nós temos talentos para amar o próximo, temos energias de sensibilidade ética, consideramos a verdade, criamos a beleza, dedicamo-nos à ideais e lutamos por eles. Realizar tais dons é ser uma pessoa. Nascemos e avançamos no âmago dos relacionamentos interpessoais. Dentro de nossa sublime natureza afetiva, sentimos forte pressão para progredir em padrões renovados de ser. Uma das inúmeras verdades da vida é que somos exatamente quem precisamos ser.

Conta a lenda que o filósofo Descartes, em começos da era moderna há três séculos, aninhou-se em sua lareira um dia inteiro, procurando descobrir o princípio fundamental da existência humana. E saiu do esconderijo à noite com a famosa conclusão “Penso logo existo”. Pensar com qualidade é profundo e complexo. Sempre me pergunto incansavelmente: - Estou pensando de forma construtiva?... É difícil, mas me esforço. O objetivo maior de nossa jornada é aprender a pensar com saúde pessoal e espiritual.

Todos nós temos necessidades normais de aprofundar e enriquecer nossas realizações, principalmente em relação afetiva de encanto à comunidade, desejando que todos sobrevivam com dignidade. A experiência da própria compreensão em relação a outros seres humanos é ao mesmo tempo a experiência mais simples e mais profunda de nossa vida. “Entre as obras do homem que a vida humana se dedica a aperfeiçoar e embelezar, a mais importante é com certeza o próprio homem...”. (escreveu John Stuart Miel).

“Pobre é aquele (e aquela) que se encontra permanente ou passageiramente numa situação de debilidade, dependência ou degradação, numa situação de carência cunhada diferentemente de acordo com a época e as formas sociais, numa situação de impotência e desprezo social: ao pobre (e à pobre) faltam dinheiro, relações, influência, poder, saber, qualificação técnica, nascimento honroso, força física, capacidade intelectual, liberdade pessoal, enfim, dignidade humana. Ele (e ela) vivem dia após dia  e não têm nenhuma chance de libertar-se de sua situação sem o auxílio de terceiros.(Mollat, 1984, p.13). Citação de Thomas Kesselring – livro: Ética Política e Desenvolvimento Humano – A Justiça na Era da Globalização – EDUCS – Editora da Universidade de Caxias do Sul – 2007).

Todos nós tememos a miséria e a indigência, e nos esforçamos por evitá-las, e se atingidas por elas, fazemos tudo o que possível para superá-las. Não há justificativa aceitável para que as forças sociais e estatais não se esforcem em estudar, em planejar, em operacionalizar meios de educação profissional para  a inclusão social. Só conquistaremos a paz duradoura em nossos corações, quando assumirmos de frente, este desafio, reconhecendo a fome, reconhecendo a pobreza absoluta, reconhecendo o sofrimento em conseqüência da fome e da falta de moradia. Não podemos mais esperar para assumirmos esta grande parcela da nossa população, com todos os meios disponibilizados. Afinal para onde são destinados os altos impostos que pagamos? O atendimento ao ser humano é a prioridade maior de todas as culturas.

O nosso tempo porta-se de maneira brutal, na total omissão de nossas políticas sociais, que indiferentes permitem a morte de milhares de pessoas. Não reconhecer esta realidade social é concordar com este genocídio. Só o nosso desejo de ajudá-los, já purifica a vibração espiritual de toda a cultura. O impulso de ajudar no ser humano é propensão inata, pois constitui harmonia do Criador em todas as coisas que fez, principalmente no desabrochar da razão e no alvorecer dos sentimentos.

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