sexta-feira, 2 de setembro de 2011

A FORÇA DOS ANSEIOS DE FELICIDADE

                        REGINA DINIZ

“O anjo pintado olhando como se estivesse a ponto de se afastar de algo que contempla fixamente. Seus olhos estão fitos, sua boca aberta, suas asas estiradas. Pinta-se assim o anjo da história. Tem a face voltada ao passado. Onde percebemos um corrente de eventos, ele vê uma só catástrofe, que continua amontoando naufrágios e lança-os a seus pés. O anjo gostaria de parar, acordar os mortos e curar o que foi esmagado. Mas sopra vindo do Paraíso um vendaval, que com tal violência colhe suas asas, que o anjo não as consegue fechar. Esse vendaval irresistivelmente o lança para o futuro ao qual se voltam suas costas, enquanto diante dele um monte de escombros ergue-se para o céu. É esse vendaval que chamamos de progresso”. (autor – Walter Benjamin, “Theses on the Philosophy of  history” em illuminations:” Essays and reflections _ Schacken, Nova York, 1968).

A pós-modernidade é carregada de planos econômicos tremendamente fracassados. Não há registros de semelhante catástrofe de sustentabilidade social, a nível global em tempos anteriores. Numa época carregada de problemas insolúveis, a vida cotidiana passa a ser um forçado exercício de sobrevivência. Vive-se um dia de cada vez. Nunca se olha para trás, por medo de sucumbir a uma debilitante depressão. Este furacão é naufrágio total e não progresso.

Sob ininterrupta pressão, o indivíduo se fecha emocionalmente em posição defensiva, diante da adversidade extrema.O equilíbrio emocional exige uma cultura social coerentemente harmônica. Atualmente a grande preocupação é com a sobrevivência psíquica. Perdeu-se a confiança no passado, no presente e no futuro. A situação contemporânea face à escalada armamentista, à expansão da criminalidade, ao desemprego e à perspectiva de um prolongado declínio econômico, obrigou as pessoas a se prepararem para o pior.  

“Se a modernidade, como afirma Jean François Lyotard, buscou legitimidade não no mito das origens, não no ato fundacional, mas no futuro, se viver com “um projeto” foi o modo característico da existência moderna – o projeto, a Grande Idéia no coração da intranqüilidade moderna, o farol pousado na proa do navio da modernidade, foi a idéia de emancipação: idéia que tira seu sentido do que ela nega  e contra o que se rebela – dos grilhões que quer romper, das feridas que quer curar – e deve seu fascínio a essa promessa de negação” .( Jean-François Lyotard - Livro:La Postmoderne espliqueé aux enfants: Correspondance, 1982-1985, Galilée, Paris, 1988.).

A pós-modernidade tentou eliminar duramente as ambições de legislação ética universal, que sempre harmonizou a humanidade. Desde o começo de sua implantação, gerou fracassos financeiros em todo o mundo, principalmente no leste europeu. A proposta principal da milagrosa sociedade de consumo tem como regra principal divulgar a imagem especialmente sagrada dos objetos em sinais de felicidade, esperando em seguida que a felicidade ali venha pousar.

As satisfações que os objetos em si conferem, são os reflexos antecipados da grande satisfação virtual, da opulência total, cuja esperança psicótica alimenta a banalidade quotidiana. Na prática, os benefícios do consumo não se vivem como fruto do trabalho ou de processos de produção: vivem-se como milagres. O milagre midiático se realiza perpetuamente, sem deixar de ser milagre, que suaviza na consciência do consumidor o próprio princípio da realidade social, o longo processo de produção que conduz ao consumo das imagens. A inculcação da boa fé no consumo surge como elemento novo: as novas gerações são doravante os herdeiros, herdando não só os bens, mas o direito natural à abundância. A sociedade de consumo ilude e se ilude.  

A sociedade contemporânea aterrorizada como os perigos e com a segurança do espaço público, estimula uma poderosa vertente de isolamento individual, um verdadeiro auto-aprisionamento por trás dos muros altos dos condomínios fechados das grandes metrópoles e nos esconderijos virtuais do ciberespaço. Conseguiram ultrapassar a alta muralha pela internete, e mostram-se abertamente, em detalhes íntimos, porque desejam ardentemente o olhar alheio distante, virtual que o reconforta, e que mitiga a solidão que lhe impuseram, e que ele ainda não descobriu. Este plano global maléfico de deixá-lo totalmente só, desesperado e completamente sem chão afetivo, tenta agora com um novo visual humilhar milênios de investimento humanístico, cujo objetivo maior sempre foi descobrir caminhos para que evoluísse como pessoa livre e honrada.

Quando a terra começou a ser povoada já desabrocharam os princípios éticos, que salientavam não só a responsabilidade para com os demais, como igualmente para com o próprio eu. Firmavam o direito inalienável do indivíduo à procura da felicidade, junto com o direito de levar a sério o seu aperfeiçoamento com liberdade e autonomia interior. Mais humanizado e mais digno de confiança em suas relações humanas concorda, que a introspecção é um meio indiscutível de aperfeiçoamento da personalidade.

A expansão da consciência renova-se permanentemente. Há tempo atrás, novas abordagens surgiram dos treinamentos de sensibilidade, de movimentos de encontro e de incontáveis modalidades da ampliação da tomada de consciência de si e dos outros. Reconhecemos o fato de que as idéias estão sempre se mobilizando dentro da cultura humana, porque a cultura é o resultado do contínuo esforço do homem em expandir sua consciência. Cada avanço conquistado no aprimoramento da cultura – seja na religião, nas artes, na ciência natural – representa uma expressão da consciência.  

Escutar a si mesmo é difícil, porque essa arte requer outra habilidade rara no mundo moderno: a de ficar a sós, pensando e conversando consigo mesmo. Entretanto, as poderosas possibilidades de enriquecimento, que nos foram ofertadas abriram oportunidades para nos escutarmos, e assim acessarmos ao vigor de nossa consciência. Uma grande avenida iluminada se abre diante de nós, e então compreendemos que devemos colaborar com nossos familiares, com todas as outras pessoas, vibrando pensamentos saudáveis, sentimentos puros e ações construtivas.

Grandes grupos de lideranças autoritárias e atrasadíssimas estão sempre investindo em padronizações escravizantes. Sempre criam em palcos diferentes práticas de sofrimento extremo tais como: ansiedade, depressão, cansaço físico e mental, dívidas impagáveis etc... Apesar deste quadro terrível ter sempre denegrido o nosso planeta, a renovação saudável está sempre presente.

É visível a presença da força dos anseios de felicidade e saúde, que fazem parte do equipamento natural do homem. A maior parte delas tem boa saúde de espírito a despeito das influências negativas a que se acham expostas. Encontramos a felicidade em nossos familiares, em nossos amigos, em nossos companheiros de trabalho se a levarmos para junto deles e desejarmos que ela vai estar lá. A felicidade está sempre onde estamos, desde que não tenhamos rompido, deixando-a do lado de fora. “A felicidade é o significado e propósito da vida, é o objetivo e finalidade da existência humana”.(Aristóteles). 

Nenhum comentário:

Postar um comentário