quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O ASPECTO INTERIOR DA VIDA

                                   
  REGINA DINIZ

“Certamente eu disse, o conhecimento é o alimento da alma; e precisamos ter cuidado, meu amigo, para que o sofista não nos iluda quando elogia o que vende, como os vendedores atacadistas ou varejistas que vendem o alimento para o corpo, pois eles elogiam indiscriminadamente todos os seus artigos, sem saberem quais são os realmente benéficos ou prejudiciais: nem tampouco o sabem os fregueses deles, salvo um educador ou médico que porventura deles compre. Analogamente, os que conduzem os produtos do saber, e perambulam pelas cidades vendem-nos ou distribuem-nos a qualquer freguês que deles esteja necessitando, elogiando-os da mesma maneira; embora eu não duvide, ó meu amigo, que muitos deles ignorem de fato o efeito deles sobre a alma, da mesma forma que seus fregueses, a menos que o que deles compre seja um médico da alma. Se, portanto, vós compreendeis o bem e o mal, podeis com segurança adquirir conhecimentos de Protágoras ou de qualquer outro; porém, se não é esse o caso, ó meu amigo, parai e não arrisqueis vossos mais caros interesses em um jogo de azar. Porquanto há perigo bem maior na aquisição de conhecimento do que na compra de carne e bebidas.”(Platão).

Somos herdeiros de um cabedal de conhecimentos éticos admiráveis. A nossa cultura ocidental, nestes últimos séculos, sentiu uma satisfação repleta de esperanças de que a felicidade máxima alcançaria a humanidade. O indivíduo aprendeu a manipular energias físicas e conseguiu as condições materiais para viver condignamente. Todos nós refletimos sobre a grande idéia da unidade da raça humana, que não é mais um sonho, porém uma possibilidade realista.

Contudo o homem moderno sente-se estressado, inseguro e cada vez mais perplexo com a violência que explode em seu cotidiano. Ele trabalha em jornadas estafantes, mas tem consciência da futilidade de seus esforços. O seu poder material cresceu, mas admite-se impotente em sua vida particular e em sociedade. Confuso deixou-se envolver totalmente
pela cultura dos objetos. Em uma época de imensas preocupações, ciente das conquistas materiais mas obcecada por idéias de desastres, o problema da sobrevivência contemporânea permite profundas considerações.  

Tornou-se um escravo da máquina criada pelas suas próprias mãos. Encantou-se de tal forma a respeito de seu progresso material, que esqueceu totalmente das questões mais importantes da existência humana: -Quem sou eu? – Como devo viver para evoluir como  pessoa? – De que maneira posso liberar as tremendas energias que existem em meu universo interior? – Como posso libertá-las e usá-las produtivamente? -Como posso resgatar a fé em mim mesmo?  

Uma nuvem densa e penetrante luta para diminuí-lo como ser humano. O significado profundo da essência da dignidade e poder pessoal, e também de coragem que estimularam as maravilhosas realizações dos séculos anteriores, atualmente são contestadas, e foram substituídas por propostas de conformidade com a insignificância de ser... Qual será o objetivo maior deste desejo orquestrado de arrancar as fortes raízes éticas, que fecundaram e ainda fecundam e fecundarão a nossa cultura?

Em séculos anteriores ensinaram ao homem, que deveria confiar em sua própria razão como uma direção na escolha de suas normas éticas, e de que poderia acreditar e confiar em si mesmo. Acreditar no saber, e confiar em sua própria competência tornaram-se as motivações maiores para que se concretizassem os empreendimentos e realizações do homem moderno. Entretanto, quando estávamos de posse da magnitude do ser ético, instalou-se rapidamente a dúvida avassaladora sobre a autonomia e a razão do homem.
Porém, como foi observado e comprovado há milênios, o ser humano não consegue viver sem a renovação constante de valores e normas éticas, porque o torna refém de sistemas  sociais irracionais.

“A felicidade futura serviu para ocultar a repulsividade do presente. A Grande Idéia deu sentido novo e moderno ao sofrimento, drenado de sua velha percepção com o desmantelamento do Paraíso. Era agora, uma vez mais, o sofrimento “em nome de “, “por causa de “; como antes, a miséria era condição e garantia de felicidade. Mas o sentido moderno se diferenciava do velho. O sofrimento não era mais provação da piedade; era agora um ato, com propósito e função. A modernidade (gosta de remédio amargo) não declarou guerra ao sofrimento: só jurou extinguir o sofrimento sem propósito, sem função. Mas se servisse a um propósito, se fosse “passo necessário” para o futuro, podia-se e devia-se infligir a dor. Os carentes de dinheiro precisariam de mais penúria para ensiná-los como se tornar ricos.” ( Ernes Gellner, “Ethnicity, culture, class and power – 1980 – ABC Clio).

A vida atualmente não é mais feliz do que costumava ser anteriormente. Constatamos que nações que eram fortes economicamente, hoje se encontram em dificuldades financeiras e  completamente falidas. É um desejo compulsivo de riqueza que a modernidade construiu, acolhendo à crueldade, à violência como ética superior. “Ser feliz significa ser livre, não do medo ou sofrimento, mas da ansiedade ou preocupação”. (W.H.Auden).

Questiona-se o fascínio pela riqueza material, mas potencialmente virtual, porque ela não existe como realidade. São tempos de ambição e grandeza paranóica. Toda pessoa é qualificada por seus objetos que substituíram as relações humanas. É pela publicidade que explode forte obsessão, sempre nova por hierarquia e distinção. E o futuro feliz prometido permanece do outro lado do horizonte.

No livro que, se originou dos estudos de Stanford “Simplicidade Voluntária”, Duane Elgin resume a visão de mundo industrial e a visão de mundo pós-industrial em colunas paralelas: “materialismo” oposta a “espiritualidade”, “competição implacável” oposta a “cooperação”,
“consumo conspícuo oposto a conservação. O industrialismo define o indivíduo como “separado e só”. A nova perspectiva planetária o define como “uma parte do universo maior, ao mesmo tempo única e inseparável”. De acordo com Duane Elgin, o movimento conservacionista, o movimento antinuclear, a contracultura, o movimento do potencial do homem, o interesse pelas religiões orientais e a nova preocupação com a saúde combinam-se para gerar uma “revolução silenciosa”, um estimulante interesse pelo aspecto interior da vida”. 

Surge um novo tipo de sociedade, na qual os problemas de sobrevivência econômica e física estão interligados a valores das pessoas e não das coisas, exigindo um novo modelo de liderança. Apresenta-se flexível e tolerante, preocupado em compreender as sutilezas da interação humana. Juntamente com o renascimento religioso está a preocupação com o desenvolvimento do potencial do homem, através da busca de propósitos que enriqueçam o eu.

Esta nova sociedade repudia o egoísmo; sabe que o eu isolado é uma ilusão devastadora. Idealiza reunir o indivíduo e a sociedade, a mente, o corpo, a ciência e o transcendental. Rejeita a concepção materialista da realidade por longo tempo sustentada pelo racionalismo ocidental.

A independência e a autoconfiança são atributos de grande valor e nos preparam para a sobrevivência em épocas difíceis. Quando estendemos a mão do amor solidário, e estamos dispostos a aceitá-lo em troca, alcançamos a suprema felicidade. A nossa vida é rica e satisfatória na medida do amor que trocamos entre nós. “Nossa maior felicidade não depende da condição de vida em que o acaso nos colocou, mas é sempre o resultado de uma boa consciência, boa saúde, ocupação e liberdade em todos os empreendimentos.” (Thomas
Jefferson). 

Nenhum comentário:

Postar um comentário