Assim como ocorre com a doutrina de que não se deve ser egoísta, também há muita propaganda da tese oposta na sociedade moderna: - tenha em mente suas vantagens, aja de acordo com o que for melhor para si; - fazendo assim você também estará agindo para maior proveito de todos os outros. Com efeito, a idéia de que o egoísmo é a base do bem-estar geral constitui o princípio sobre o qual se ergue a sociedade competitiva. É de estarrecer como dois princípios tão aparentemente contraditórios puderam ser ensinados lado a lado na mesma cultura; quanto ao fato, porém, não há dúvida alguma. Uma conseqüência dessa contradição é a confusão do indivíduo. Dividido entre essas duas doutrinas, ele fica seriamente inibido para integrar sua personalidade. Essa confusão é uma das fontes mais expressivas de perplexidade e atarantamento do homem moderno”. (Karen Horney – livro: The Neurotic Personality of Our Time – Nova York – 1937)
Há milênios o ser humano descobriu, que o amor é um fenômeno de riqueza e opulência interior. O impulso afetivo do amor é a expressão do vigor emocional do indivíduo que pode oferecê-lo. O amor é fecundidade e fertilidade, é o que nos dá força interior autêntica. A compreensão da própria vida – felicidade – crescimento – liberdade autêntica – origina-se de sua capacidade afetiva, isto é, vigilância carinhosa, respeito, responsabilidade e conhecimento. O amor procura construir a união entre as pessoas, e os teóricos manipuladores da sociedade competitiva coloca-as numa disputa social cruel e insana.
Com todo o manancial de reflexão ética de que dispomos, é surpreendente que propostas de união e solidariedade fossem ofuscadas, a ponto de permitir o surgimento triunfante da sociedade competitiva, que aniquilou a contemporaneidade, deixando-a extremamente violenta. Nunca se soube em outros tempos da existência de tantos presídios de segurança máxima.O nosso mundo está como sempre esteve por milhares de anos. Grandes avanços éticos e significativos retrocessos éticos. Crescendo, caindo, mudando, ficando no mesmo lugar. A condição humana continua a mesma. Avanços construtivos e destrutivos entram e saem de cena.
Freud aceita a tese de que o amor a si mesmo e aos outros é conjuntivo em princípio, como explicar o egoísmo, que obviamente exclui qualquer solicitude pelos outros? A pessoa egoísta só se interessa por si mesma, quer tudo para si, não sente prazer em dar, mas somente em tomar. O mundo exterior é olhado apenas quanto ao que dele pode ser tirado; ela carece de interesse pelas necessidades dos outros e de respeito pela sua dignidade e integridade. Nada pode ver além de si própria; julgam todos e tudo sob o ponto de vista de sua utilidade para si: é fundamentalmente inapta para amar.
Entendo que a pessoa egoísta não ama a si mesma. Afastando-se das pessoas envolve-se numa insegurança e por isso se deprecia. Esta ausência de ternura deixa-a enfraquecida emocionalmente. A pessoa egoísta e competitiva acredita, que pode retirar seu afeto dos outros, e colocá-lo na sua própria pessoa, ela não se esforça para cuidar e deixar mais fortalecido o seu verdadeiro eu. São incapazes de amar os outros, e não são capazes de amar a si mesmas.
Aproximar-se de si mesmo, admitir o direito de conhecer o seu próprio eu torna-se difícil, porque sabe que o verdadeiro objetivo é o desenvolvimento total de suas potencialidades como ser humano, e que precisa aprender a valorizar os seus sentimentos de saudabilidade emocional. O caminho mais inteligente é pensar nas jóias raras das qualidades humanísticas, para não ficar presa fácil dos teóricos consumistas midiáticos, que só se interessam em vantagens materiais, poder e sucesso. O homem, contudo, sempre refletiu e criou, porque sabe que a razão subjetiva é a fonte da força, da liberdade e da felicidade.
Infelizmente, na pós-modernidade, foi instalado mais um projeto materialista tremendamente destrutivo, convencendo as pessoas para não sentir e não demonstrar um mínimo de afeto pelos outros. Solidão, perda de laços afetivos, depressão, ansiedade são marcas dolorosas de nossos tempos. “O que gera esta situação é a retórica contemporânea de crescimento e desenvolvimento econômicos, que motivam intensamente os indivíduos para a competitividade, egoísmo e inveja. E com isso vem a percepção da necessidade de manter as aparências, que por si só são importantes fontes de problemas, tensões e infelicidades”. (Tenzin Gyatso – Dalai Lama do Tibete – livro – Uma Ética para o Novo Milênio – Editora Sextante – Rio de Janeiro – 2000).
Todos nós sabemos que o objetivo da vida não é prejudicar os outros, mas beneficiá-los, tornando suas vidas úteis, livres de problemas, propondo as soluções positivas, para oferecer uma possibilidade de felicidade maior para as pessoas. Podemos trocar idéias sobre como encontrar a motivação ideal para alcançar e redefinir o propósito de uma cultura socialmente saudável. São possíveis mudanças subjetivas, porque uma mente bem equilibrada ajuda muito, e deveríamos investir mais neste estado mental estável.
O equilíbrio interior é fundamental para a boa saúde, porque uma mente que aprendeu a superação, principalmente em ambientes hostis como é na sociedade contemporânea, significa uma vida feliz e um futuro sadio. E em culturas violentas, as decisões mentais firmes, equilibradas e estáveis evitam possíveis desequilíbrios emocionais. Podemos descobrir valores éticos para administrar nossas emoções, dependem da força de vontade de auto-observação profunda e de conhecimento adquirido ao longo de toda a vida.
“Ninguém conhece a Deus antes de conhecer a si mesmo. Voe para a alma, o lugar secreto do Altíssimo” disse Meister Eckhart. Relacionando esta verdade com Sócrates, Kierkegaard escreve: ”Segundo Sócrates, cada indivíduo é o seu próprio centro e o universo gira a sua volta porque o conhecimento de si mesmo é o conhecimento de Deus. Esta não é a história completa da ética, mas não há dúvida que se não começarmos por aí não chegaremos a lugar algum”.
O simples confronto construtivo consigo mesmo favorece a libertação, que nos consola, então podemos fazer o bem para nós e para o mundo. Todo o ser humano que crê na melhoria do mundo, evolutivamente ama o mundo. Se imaginarmos e ousarmos abraçá-lo com os braços fluídicos de nossa alma, nossas mãos encontrarão as mãos que sustentam o mundo. “Não é o que vemos e tocamos ou o que os outros fazem por nós que nos tornam felizes; é o que pensamos, sentimos e fazemos, primeiro pelo nosso próximo e depois para nós mesmos”. (Helen Keller).
O indivíduo que verdadeiramente vai em busca de sua realização, na construção de um mundo humano melhor se liberta de emoções negativas como raiva, ódio, inveja, ganância extrema... Todas as coisas boas e construtivas, as experiências humanas mais felizes, são motivadas pelo respeito aos direitos dos outros, e pelo interesse pelo bem-estar dos outros, como amor fraterno, bondade, afeto.Como seres humanos somos criaturas sociáveis, dependemos uns dos outros para sobreviver. Nossa atenção às necessidades de alguém traz elevação de espírito tanto para essa pessoa como para nós mesmos.

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