segunda-feira, 30 de abril de 2012

Estranhos para nós mesmos



 Regina Diniz

A fascinação pelos objetos impediu-me de sofrer...
O mundo das formas exteriores me seduziu...
Consenti por apreciar o amor passivo...
Senti força libidinosa na obediência aos objetos...

Ouço o pranto pela ausência de perspectiva sobre si próprio...

Os objetos me confirmaram uma poderosa importância de ser... 
Não era preciso investir na criação da complexa personalidade...
Podia sobreviver comodamente do nada e nada...
Eles falavam exuberantemente por mim...

Ouço o pranto do desespero generalizado pela falta da espiritualidade...

A integração e a comunicação pelos objetos marcam os meus tempos...
A abundância virtual acalma a minha voracidade por ter...
A todos é permitido sonhar com palácios encantados,
Nunca se viu falar em imaginário tão rico...

Ouço o pranto dos sentimentos de inferioridade e culpa...

Posses, posses e posses, quem é que gosta da miséria...
As consciências virtuais do valor da abundância são bíblicas...
O planeta delira na exigência da materialidade...
O corpo é matéria, tudo é matéria...

Ouço o pranto da impotência do vazio espiritual...

Pensar na impalpabilidade de ser é a suprema loucura...
Acreditar em situações não concretas é a desagregação mental...
A comunicação pela visualidade é gratificante...
Entendemos sem dificuldades tudo o que vemos...

Ouço o pranto da ausência de sentimentos que elevam a alma...

Nunca houve um ser humano tão objetivo como nos dias de hoje...
Cultura rara: Ciência da Computação, Eletrônica, Mecânica...
No surgimento do lazer brincamos maravilhados com nossas descobertas...
Estamos agora sobre o êxtase da Deusa Mecatrônica...

Ouço o pranto da falta do amor imortal e divino...

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