terça-feira, 15 de janeiro de 2013

A REFLEXÃO E INTERPRETAÇÃO DE SI MESMO



 REGINA DINIZ

Para Sócrates, só voltando-se para o seu interior o homem chegaria à sabedoria e se realizaria como pessoa. Sócrates nasceu em Atenas em 469 a.C. e foi condenado a morte, ingerindo cicuta morreu rodeado por amigos em 399 a.C. Seu pensamento marcou uma reviravolta na história humana. Até então, a filosofia procurava explicar o mundo baseado nas observações das forças da natureza. Com Sócrates o ser humano dedicou-se à compreensão de si mesmo. O objetivo principal foi motivar as pessoas por meio do autoconhecimento, à sabedoria e à prática do bem.

O autoconhecimento ou o conhecimento de si é a finalidade de uma busca de natureza ética. Quando estudado como proposta ética, o que se procura é a compreensão de algo, que leve o sujeito a ser mestre de si mesmo, e naturalmente um ser humano melhor. O autoconhecimento é também praticado através da meditação e da psicanálise. Filósofos como Platão. Spinoza, Freud fazem parte de uma tradição, que vê o autoconhecimento como uma conquista ou realização, que traz saúde e liberdade para a pessoa.

Este excelente projeto ético tem suas raízes no Oráculo de Delfos, que tanto influenciou Sócrates no “Conhece-te a ti mesmo. De acordo com essa tradição, a autodescobert     a é uma realização, ao invés de algo dado ou prontamente disponível ao indivíduo. Para conhecer-se a si mesmo, o sujeito precisa refletir e interpretar as suas próprias idealizações, que são frutos de suas introspecções. O indivíduo tem acesso privilegiado aos próprios pensamentos, isto é conhece-os de uma maneira que os outros usualmente não conhecem. A destinação privativa desta busca interior é uma extraordinária ferramenta de transformação pessoal. Para Sócrates o “conhece-te a ti mesmo” é a chave para a conquista da felicidade.

“A doutrina do homem de Sartre refere-se à sentença, na qual todo o problema do existencialismo e do essencialismo torna-se amplamente aberto, sua famosa afirmação de que a essência do homem é sua existência. “A existência precede a essência”. O significado desta proposição é que o homem é um ser cuja essência não se pode garantir,  pois tal essência introduzirá um elemento permanente e contraditório no poder  que o homem tem de se transformar indefinidamente. A natureza particular do homem é o seu poder de criar a si mesmo. E se for levantada a questão de como tal poder é possível e de como deve ser estruturado, necessitamos de uma doutrina essencialista amplamente desenvolvida para poder responder; precisamos conhecer sobre o seu corpo  e sua mente e, em resumo, sobre aquelas questões  que durante milênios têm sido discutidas em termos essencialistas”.  ( Autor: Paul Tillich – The Courage To Be – New Haven, Conn, Yale University Press, 1952).

A coragem criativa ajuda nas transformações pessoais sucessivamente, que impulsionam as descobertas de novas formas, novos símbolos, novos padrões segundo os quais uma nova sociedade pode ser construída. Em nossos dias, a tecnologia e a engenharia, a diplomacia, o comércio e sem dúvida o magistério, e dezenas de outras profissões, passam por mudanças radicais e precisam de indivíduos corajosos, que valorizem e dirijam essas mudanças. Marcadamente são os artistas que apresentam direta e imediatamente as novas formas e símbolos – os dramaturgos, músicos, pintores, dançarinos, poetas.

Quando apreciamos um quadro de arte moderna experimentamos um novo momento de sensibilidade criativa. A interpretação desperta uma nova visão, algo de sensibilidade nasce em nossa percepção. Permanentemente, estamos de plantão, esperando ver mensagens, que impulsionem as nossas descobertas de vidas inteligentes. Permanentemente, estamos de plantão esperando decifrar enigmas que impulsionem elevados níveis de ser. A apreciação da música, da pintura, de leituras questionantes, e de outras interações criativas   que nos realizam  intensamente como seres humanos,     
  
“- Tive uma experiência prévia num seminário de comunicação intercultural de três dias, em Estocolmo, em 1974. Foi lá que conheci Charles Devonshire quando veio para este primeiro workshop piloto, na Suécia; senti que aqueles três dias constituíram uma das experiências mais significativas de minha vida – encontrar e conhecer um grupo de pessoas totalmente diferentes de diversas nações  e conversar sobre tudo, desde o medo da morte até o medo da vida, e tudo o que há entre isso. Compartilhamos lágrimas, sorrisos, raiva, pensamentos, medos e inseguranças; aprendemos a nos abrir aos valores e costumes dos outros, mesmo que fossem completamente diferentes dos nossos; aprendemos a expressar sentimentos a pessoas a quem não nos abriríamos normalmente; a escutar, a expressar nossas necessidades interiores sem expressões ambíguas ou confusas. Vivenciamos cada um desses sentimentos com o conhecimento crescente de que somos mais parecidos do que diferentes”. ( Autor – Carl R.Rogers  Livro – Sobre o Poder Pessoal – Livraria Martins Fontes  Editora Ltda. – São Paulo 1986).

Quando seres humanos se reúnem para trocar idéias entre si, a maturidade emocional mostra-se pelo equilíbrio emotivo e que parece muito próximo da perfeição humana. A capacidade empática é a capacidade de se colocar verdadeiramente no lugar do outro, de ver o mundo como ele o vê. A chave é valorizar a significação pessoal das pessoas e não o nível intelectual. As atitudes que conduzem à mudança, ao crescimento e a melhores relacionamentos não são misteriosas, embora possam ser difíceis de serem alcançadas. A atitude facilitadora é valorizar, respeitar e importar-se com a outra pessoa.

A prática Rogeriana não pressupõe personalidade especial, nem pensamentos superiores, ela requer, no entanto, estes atributos: - a capacidade empática, a autenticidade pura – uma concepção positiva e liberal do homem, ­ simpatia e intuição. A Mudança Construtiva no indivíduo aparece nitidamente, quando ele percebe a experiência de ser aceito e valorizado. Então ele se abre ao debate, permitindo-se ser uma pessoa distinta, com idéias e sentimentos próprios e uma maneira de ser que lhe é exclusivamente pessoal.  

“O mundo nunca é alguma coisa estática, uma coisa que simplesmente nos foi dada e à qual uma pessoa, então,“aceita”, ou “ajusta-se”, “ou combate”. Ao contrário, ele é um padrão dinâmico no qual, desde o momento em que possuo autoconsciência, estou em processo de planejar e projetar. Assim Binswanger se refere ao mundo como “aquilo em cuja direção a existência seguiu de acordo com o que ela própria planejou”, e continua para enfatizar que enquanto uma árvore ou um animal estão presos a seus “rascunhos” no que diz respeito ao ambiente, “a existência humana contém não somente numerosas possibilidades de ser com também e, principalmente, está fundamentada nessa potencialidade múltipla de ser”. (Autor – Rollo May – Livro – A Descoberta do Ser – Ed. Rocco Ltda - Rio de Janeiro – 1988).

O mergulho interior nos faz descobrir que podemos evoluir de maneira integral: - o corporal, - o mental, o ético, o emocional e o espiritual. Entretanto, vivemos numa sociedade padronizada, mecanicista, pragmática, capitalista, impossibilitando o indivíduo, para que pare um pouco e respire! Sim respire! Este parar e respirar com consciência ajuda ao organismo em sua auto-regulação. Somos uma estrutura psicobiofísica, que possui mecanismos próprios de busca de equilíbrio e de harmonia interna.

Todos os seres humanos são dotados de elevada inteligência, mas devido a forte padronização midiática, um grande número deles ignora a si mesmo. Acredita-se que a realização pessoal está em encontrar o ser no interior das outras pessoas e de si mesmo. A característica principal de um homem é sempre estar pronto a aceitar o desafio de viver. Talvez a padronização cultural seja o desencanto pela frustração pessoal que é grande, quando nos sentimos diferentes da maioria das pessoas. Em busca de aceitação social procuramos ser o que os outros são, ter o que os outros têm, pensar como os outros pensam, viver como os outros vivem. Ser diferente é ser discriminado, pensar diferente é ser banido, desta forma perpetua-se a hegemonia dominante. É impossível não falar deste triste retrocesso social...      

Um comentário:

  1. Hola Regina, gracias por compartir las reflexiones, un placer.
    que tengas un buen fin de semana.
    saludos.

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