REGINA DINIZ
Fiquei sensibilizada com os acontecimentos na Europa, principalmente com a queda do muro de Berlim. Aquela alegria inusitada reaproximando novamente as famílias alemãs, renovou o meu coração com forte esperança. Senti uma notável abertura emocional, fluía uma animação humana fantástica.
Assisti aquela cena pela televisão, e pensei no teor do sofrimento de uma guerra brutal, sem justificativa humana. Aconteceu a superação, e a humanidade daria um salto gigantesco em maior democracia, em maior liberdade construtivas. Imaginei mudanças sociais de solidariedade, surgindo em todo o planeta. Achei, que terminaria para sempre o desejo nefasto de países entrarem em guerra, para se apossarem indevidamente de bens materiais que não eram seus.
Acreditei que depois da 2ª. Guerra todos os países que sofreram profundamente, optariam por práticas diplomáticas humanizadas. Admiti que todos haviam aprendido a dura lição, que se matando uns aos outros nunca chegariam a lugar nenhum, como tinha acontecido recentemente. E o mundo inteiro colocaria o crescimento do homem como objetivo principal.
De repente, sem consultar ninguém, as nações mais ricas do mundo decidiram pelo liberalismo econômico. Tomados por desespero inexplicável prognosticaram, que o mercado responderia ao mundo com riquezas incomensuráveis. Não admitiram que a 2ª.
Guerra tinha empobrecido dramaticamente o mundo. Novamente, sofreram uma derrota fragorosa...
Mais uma vez, o humanismo em si foi colocado em terrível perigo. Mesmo depois da 2ª. Guerra, não conseguimos dar o significado preciso do valor do ser humano. É inquestionável, que tudo no mundo deve ser direcionado para a humanidade e não contra ela. Vale a dignidade do ser humano ou as tralhas materialistas? Vale a dignidade do ser humano ou o mundo dos objetos?
É uma realidade, que os avanços científicos e tecnológicos favoreceram a globalização. A Internet proporcionou trocas comerciais significativas entre as nações, e tirou muitas pessoas da pobreza. Entretanto, permanece sempre o mesmo problema, porque aumentou muito as diferenças econômicas em todos os países no mundo.
A proteção da diversidade cultural é uma maneira de fazer um contraponto à globalização, que não é um comportamento novo, porque é um comportamento milenar. O modelo da globalização, por incrível que pareça, ainda é o velho modelo ocidental, ou seja, o Consumo de Ostentação. Vivemos cegamente em uma padronização cultural.
Atualmente, acontece abertamente a coerção à compra. Nasceu uma nova moral: precedência do consumo sobre a acumulação, fuga para a frente, investimento forçado, consumo acelerado, inflação crônica. Torna-se absurdo economizar. Voltamos à situação feudal: a de uma fração de trabalho devida antecipadamente ao senhor, ao trabalho escravo.
O consumidor moderno assume espontaneamente esta obrigação sem fim.
O consumo de ostentação atrelado ao consumo descartável deixou os países muito pobres, que desesperados partem para novos confrontos sanguinários. É impressionante o desejo de gratificação imediata, junto à identificação com aquisições materiais, então as classes pobres, abandonadas e desorientadas simplesmente imitam as suas superiores. E o que representa as nossas favelas? E o que significa os batalhões de guardas armados, cuidando da segurança do povo? E o que significa nossos muros altos, cercas elétricas e câmeras eletrônicas? E o que significa os assaltos à mão armada com óbitos? Eu me pergunto: - O que significa esta deserção em massa dos padrões de conduta pessoal – civilidade, trabalho, autocontrole - que sempre foram considerados indispensáveis à democracia?
Famosos transcendentalistas, baseados em revelações divinas, dizem que este planeta é um dos mais atrasados do universo. Vê-se, claramente a morte da espiritualidade no mundo.
Acredito, que só a reaproximação com Deus, nos libertará da identificação materialista que nos escraviza, e nos atira à guerras sangrentas.
“O capitalismo sobrevive à custa de forçar a maioria, a quem explora, a definir os seus próprios interesses, tão estreitamente quanto possível. Já se chegou a isso pela privação prolongada. Hoje, nos países desenvolvidos, chega-se pela imposição de um falso padrão do que é desejável e do que não é” (livro – A Linguagem das Coisas. Autor – Deijan Sudjic – Cap. Um mundo afogado em objetos – Editora Intrínseca Ltda – Rio de Janeiro – 2010)
Acho que o desejo de posse sem necessidade é para nos iludir com potência, com coragem de ser. A mensagem é fácil de decifrar: “Somos aquilo que compramos e não o que somos como pessoa. O Consumo Ostentatório mostra a sua filosofia: Os objetos refletem o que a pessoa acha de si mesmo. Esta proposta é de uma humilhação terrível. A atitude cristã essencial de fraternidade e compaixão estão ausentes na contemporaneidade.
Mas os milagres acontecem... Tudo pode mudar... Todavia temos de fazer a nossa parte.
“Não existe uma fórmula para que todos aceitem como sendo uma boa receita para ensinar a sustentabilidade. O que nós estamos promovendo são vários diálogos para que possamos, em conjunto – academia – sociedade civil – governo – empresas - chegar a um caminho de como pode ser feito o ensino de educação para a sustentabilidade. Como impactar um adulto a ponto de ele mudar a forma de tomar as decisões no trabalho e na vida?”(Debate de Futuro – Nosso Mundo Sustentável – Zero Hora - 30/08/2010 – Ana Lucia Suzuki – presidente da Câmara de Gestão Sustentável do CEBDS e gerente de Responsabilidade Social Corporativa do Brasil).

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