REGINA DINIZ
Pesquisa divulgada no dia 01/09/2010 pelo IBGE aponta um dado preocupante: nos últimos
15 anos a taxa de homicídios cresceu 32% no país, um índice que supera os da expansão da população e do aumento de renda média dos trabalhadores. É um quadro muito triste. Cento e dezessete brasileiros são assassinados por dia. Em 10 anos entre l997 e 2007, houve 5l2,2 mil assassinatos. (UMA GUERRA CIVIL – Editoriais – Zero Hora – 02/09/2010). Estes dados impõe um debate crítico, sobre que medidas adotar para que a sociedade brasileira enfrente a violência e a criminalidade. Está em curso, uma guerra civil mortífera, contínua e interminável.
Convivemos numa rede complexa de tecnologias fundadas na produção em massa, no consumo de massa, nos meios de comunicação de massa, na cultura de massa, obedecendo cegamente às exigências do mercado, que nos foram insidiosamente impostas. Esses processos criaram um novo tipo de individualidade, caracterizadas como egoísta, hedonista, competitiva. Nota-se que nenhuma de tais descrições capta o significado predominante do eu.
Um dos maiores erros da Sociedade de Consumo é dissolver o mundo das coisas substanciais, e substituí-lo por um mundo de imagens, que apaga as fronteiras entre o indivíduo e seus arredores. A anarquia da Sociedade de Consumo (também chamada de Sociedade “de abundância” e também chamada de Sociedade da penúria e empobrecimento) revela-se como sociedade de solicitude e como sociedade de repressão,
Revela-se como sociedade pacificada e como sociedade de violência extremada. Mas vê-se que a quotidianidade “pacificada”, se nutre incessantemente de violência consumida, de violência alusiva: assassinatos, assaltos, ameaça nuclear etc... e toda a substância apavorante do “mass media. Crises de crescimento de uma sociedade prometida para ser o melhor dos mundos, ou regressão organizada diante dos conflitos insolúveis? Anarquia da produção ou instinto de morte? O que é que transtorna esta civilização? Precisamos de respostas.
Não é o espectro da penúria, que cerca a Sociedade de Consumo, é o espectro da fragilidade que a assedia, por que diz respeito ao equilíbrio das estruturas individuais e coletivas tremendamente ameaçadas. É a violência real e incontrolável, que a “abundância” e a “segurança” segregam. – proposta desumana de isolamento físico e social por motivo de raça. – proposta desumana de isolamento físico e social por motivo de riqueza. Proposta desumana de isolamento físico e social por motivo de pobreza. – proposta desumana de isolamento físico e social por motivo de educação. – proposta desumana de isolamento físico e social por motivo de profissão. – proposta desumana de isolamento físico e social por motivo de nacionalidade etc... Trata-se de uma violência brutalizada,
que a Sociedade de Consumo separa na sua própria realização.
A Sociedade de Consumo se impõe através de constrangimentos morais e psicológicos, nada tem a ver com o reino da liberdade sadia, pois ela treina e domestica os homens. Os indivíduos, que não se dobraram para a Sociedade de Consumo, argumentam contra a destruição “cega” dos bens materiais e culturais que ela impõe. Comete um crime hediondo contra as próximas gerações ao estimular o consumo ostentatório ao invés da poupança. Se a Sociedade de Consumo se identificasse com a liberdade, a violência seria impensável.
Se a abundância, se a riqueza da Sociedade de Consumo é constrangimento, então esta violência compreende-se perfeitamente e impõe-se com toda a lógica. Se a violência se revela selvagem, é porque os constrangimentos que ela contesta são idênticos ao da “liberdade” do acesso controlado à felicidade, da ética totalitária da Sociedade de Consumo
(total escravização ao materialismo). Mas os heróis do consumo sentem-se cansados. Em vez de igualar as possibilidades e de atenuar a competição econômica e social, o processo do consumo torna ainda mais violenta e mais aguda a concorrência sob todas as formas. Debaixo de tantas pressões adversas, o indivíduo desintegra-se. A distorção interna entre necessidades e aspirações resultou numa sociedade tremendamente irreconciliada e desintegrada, em situação de profundo “mal-estar” social. A fadiga interpreta a recusa passiva do homem moderno às condições frustrantes de sua existência.
A Sociedade de Consumo se caracteriza pelo fim da transcendência. No processo generalizado de consumo deixa de haver a alma. O DEUS cósmico foi substituído pelo objeto material. Acabou-se a transcendência, agora impera o objetivo da cultura materialista. “A característica desta sociedade é a ausência de reflexão e de perspectiva sobre si própria”. (Marcuse).
A Sociedade de Consumo concluiu um contrato com o Diabo, vendendo-lhe toda a transcendência e toda a finalidade da vida pelo preço da abundância virtual. Encontra-se agora prensada pela ausência de fins. Desapareceu o espelho onde o homem via a própria imagem: existe apenas a vitrina, lugar preferido do consumo em que o indivíduo não se reflete a si mesmo, mas se petrifica na busca desesperada dos significantes do status social. O sujeito do consumo é a ordem dos sinais.
O pensador Wilhelm Reich diz que uma nova consciência começa a surgir afirmando a “totalidade do indivíduo” e rejeitando “a busca agressiva, disciplinada e competitiva de metas definidas”. O pensador Theodor Roszak define, que a emergente ética da personalidade está motivada por um anseio de crescimento interior, de autenticidade, de largueza de experiências. O pensador Paul Wachtel pressente uma fase passageira no desenvolvimento de uma sensibilidade, que irá finalmente reconciliar o indivíduo e a sociedade, a humanidade e a natureza.
Na versão de Paul Wachtel: “O declínio do homem econômico, e a ascensão do homem psicológico e espiritual pressagiam um bom futuro. Está com os dias contados, o egoísmo ganancioso como a base da natureza humana, que reflete a ética capitalista do individualismo competitivo. Berman advoga a morte da visão de mundo materialista, e acredita no surgimento de um novo sentido de “vinculação cósmica”.
Surge uma revolução silenciosa, que anuncia uma nova sociedade mais sonhadora, que valoriza a comunidade mais do que a competição. Tolerante, pluralista e descentralizada, ela se preocupa em ajustar-se à natureza em vez de procurar dominá-la. A nova consciência conduz a um reencantamento com o mundo, através de um grande reencontro com Deus. Os assaltos, mortes, assassinatos desaparecerão. Esta nova cultura valoriza as virtudes humildes, que adotam o valor superior da sobrevivência num mundo ameaçado pelo desastre ecológico e pelo perigo de destruição nuclear. Seja qual for nossa crença, é possível expressarmos a dimensão espiritual de nossa vida de maneiras simples. Cada uma dessas expressões fortalece nossa espiritualidade e a aumenta para inundar nossa existência com mais luz. Seja qual for o nome que damos à verdade do espírito, nosso menor ato pode nos ligar a ele. O todo da humanidade depende da parte de cada um. Nós existimos interdependentemente mas jamais sozinhos. Somos unos com todos, e essa unicidade é eterna.

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