quinta-feira, 28 de abril de 2011

AS LUZES DA SABEDORIA ÉTICA


REGINA DINIZ


Os estranhos da era do consumo: do estado de bem-estar à prisão. Em 1981, registraram-se 2,9 milhões de delitos penais na Inglaterra e no País de Gales. Em 1993, 5,5 milhões. Nos últimos três anos, a população carcerária subiu de 40.606 para 51.243. Entre 1971 e 1993, os gastos públicos com a polícia subiram de 2,8 bilhões de libras para 7,7 bilhões de libras. De l984 a l994, o total de advogados elevou-se de 44.837 para 63.628 e o de advogados forenses de 5.203 para 8.093. Em 1994, 5,6 milhões de pessoas na Grã-Bretanha reivindicaram renda suplementar. O auxílio-desemprego foi recebido por 2.700.000; mas, segundo outros cálculos, distintos dos cálculos oficiais do governo, os totais daqueles que necessitavam de emprego, mas haviam sido impedidos, por normas legais, de solicitar o auxílio-desemprego (e, portanto, haviam sido excluídos das estatísticas oficiais dos desempregados) eram o dobro. (Zygmunt Bauman – Livro: O Mal-Estar da Pós-Modernidade) Ed.Zahar – 1997).

Analisando, este quadro humano de violência inimaginável, minha impressão é de que o indivíduo, que mora em país, outrora de grande desenvolvimento econômico é infeliz. As pessoas mais satisfeitas vivem em países subdesenvolvidos. Esta frustração desesperadora (discriminação social – ausência total de inclusão social – ausência de educação – endeusamento do consumo) mostra uma acentuada confusão sobre o que de fato constitui a moralidade da falida sociedade de consumo, que substituiu deliberadamente todos os valores éticos, e mergulhou o mundo em sofrimento extremo...

Em orações, devemos pedir perdão a Deus pelo erro em alienadamente dispensarmos o afeto conosco e com os outros seres humanos, trocando a evolução de nossa personalidade, trocando a evolução de nossas emoções pela violência fratricida. Mas em tempo, estamos despertando dentro de nossos corações a força do valor da vivência em comunidade. Desejamos fazer parte de grupos que valorizam o ser humano, para curarmos a nossa dor de  depressão e solidão, por sermos testemunhas de tanta violência.

Os dilemas com que nos defrontamos são intensificados pelas convulsões culturais e históricas contemporâneas, convulsões estas que tornam inevitável   a imagem negativa que fazemos de nós e de nossos tempos. Precisamos purificar a alma em orações para angariarmos forças, e assim conseguirmos  emergir desta catástrofe social.  É preciso construir mitos pessoais positivos e usá-los como bússola, para nos guiarmos como seres humanos e assim curarmos a violência, que nos cerca por todos os lados. O que temos de mais importante a fazer é reconstruir o amor fraterno e a confiabilidade humana.

Mas o ser humano jamais renuncia fácil, ou simplesmente à sua potência de ser. Lentamente começamos a resgatar os princípios éticos universais, que a sociedade de resumo rejeitou com a finalidade de nos tornar pessoas inseguras, deprimidas, confusas e dóceis à manipulação materialista. Os nossos medos e as nossas ansiedades originam-se de ameaças aos valores sociais, emocionais e morais. Particularmente, para as gerações mais novas é que não existem valores viáveis de cultura, na base dos quais possa ser estabelecida uma relação com o mundo.

A humanidade tem a sua história ética milenar, na qual podemos nos afirmar conscientes como seres humanos, que sabem descobrir-se nesta época, assumindo a responsabilidade de corrigir este desvio histórico, usando a rica sabedoria do passado para iluminar o mundo a nossa volta. A nossa qualidade ética maior é aceitar um certo grau de responsabilidade construtiva com o bem-estar das outras pessoas. Quem é positivo, construtivo, paciente, tolerante, clemente etc... de certa forma reconhece o impacto potencial de suas boas ações, idéias, sugestões sobre os outros seres humanos e pauta sua conduta de acordo com estes valores de vida.

“A meu ver, nossa ênfase excessiva em ganho material reflete a suposição de que aquilo que se pode comprar é capaz de, por si só, nos proporcionar toda a satisfação que esperamos. Entretanto, por natureza, a satisfação que o ganho material nos oferece está limitado aos sentidos. Isto seria ótimo se nós, seres humanos, fôssemos iguais aos animais. Porém, dada a complexidade de nossa espécie – em especial o fato de termos pensamentos, emoções, bem como a capacidade de imaginar e de criticar – é óbvio que nossas necessidades transcendem o que é meramente sensual. A ansiedade, o estresse, a confusão, a insegurança e a depressão que prevalecem entre aqueles cujas necessidades básicas foram satisfeitas são uma clara indicação desse fato. Nossos problemas, tanto aqueles que enfrentamos externamente – como as guerras, os crimes e a violência – quanto os que enfrentamos internamente – nossos sofrimentos emocionais e psicológicos - não podem ser solucionados enquanto não cuidarmos do que foi negligenciado. O descaso pela dimensão interior do homem fez com que os movimentos – democracia – liberalismo – socialismo – tenham deixado de produzir os benefícios, que deveriam ter proporcionado ao mundo, apesar de tantas idéias maravilhosas. Já tivemos experiências demais neste último século para saber que uma abordagem meramente externa não basta. O que proponho é uma revolução espiritual. (Tenzin Gyatso – 14º Dalay Lama  do Tibet – Livro: Uma Ética para o Novo Milênio – Editora Sextante – l999.)


Estudos sociológicos de Civilizações Antigas comprovam que sempre aconteceram guerras sangrentas, cujo principal objetivo era saquear ouro, ouro e ouro. O fascínio pela superioridade em humilhar o seu semelhante com demonstrações ostentatórias de riqueza vem de muito longe até os dias de hoje. Parece que flutua uma energia atrasadíssima, ou seja, excesso material e ausência espiritual.

O que está ocorrendo é um fenômeno de violência extremada, que não deixa dúvidas do coletivismo, da educação de massa, da comunicação de massa, da tecnologia de massa, e outros processos “de massa” que padronizam por baixo, o nível comportamental da mente, e das emoções humanas na modernidade. Se as propostas fossem construtivas e gratificassem os indivíduos, não existiriam as grandes redes prisionais saturadas em todo o mundo. Se as propostas cultivassem e possibilitassem a redescoberta de atitudes, que os levassem a ponderar e pensar com saúde mental e social, ao invés da ênfase sobre uma interminável produtividade, que jamais prioriza uma proposta sequer sobre o valor de ser humano, não estaríamos neste caos de tanto sofrimento existencial.

Entretanto, muitos indivíduos estão valorizando o investimento na sua educação, na sua filosofia pessoal e social igual ou mais do que a sua preparação profissional. Muitos indivíduos estão valorizando o investimento no desenvolvimento de sua dimensão interior, que é o mais nobre objetivo, ou seja, o despertar da realidade de suas potencialidades subjetivas. Harmonicamente galgam os degraus do crescimento da personalidade, em outras palavras priorizam o crescimento da alma.

Não temos outra escolha senão sermos humanos. Sentimos necessidade de comunidade, necessidade de família, necessidade de interdependência, necessidade de camaradagem, necessidade de fraternidade. Somos seres sociais de uma forma fundamental. Cada um de nós, como parte da comunidade humana, tem a responsabilidade de fazer alguma coisa pela humanidade, pelo humanismo em si, porque se seu futuro for bom, glorioso e pacífico, receberemos todos os benefícios.

É vasto o panorama das realidades interiores do homem. O ser humano faz algo de suma importância; ele pode perceber, descobrir significações existenciais. Com sua rica imaginação, pode elaborar os planos e escolher os objetivos. Já aparece a reação construtiva do ser humano, que rejeita ser tratado como objeto de manipulação, mas como pessoa cuja finalidade é expandir uma existência significativa.

Notadamente, a ampliação da consciência pode ajudar a desenvolver a sensibilidade e a profundidade da percepção pessoal e cultural.
Podemos ajudar a nós próprios na redescoberta das fontes de escolha de valores na sabedoria acumulada do homem. Precisamos dar valor a nossa voz interior... Atualmente, temos a oportunidade de praticar a crença em nós mesmos, no potencial ético, e em Deus. Harmonicamente abriremos novas portas em nossa consciência.   

Um comentário:

  1. Olá Regina!
    Falta ao homem resgatar valores como família e Deus. O que também falta é a capacidade de respeitar, amar e perdoar o seu próximo. E tudo isso parece ser tão distante...
    Convido para que leia e comente meu “A Onírica Competição de Armelau” no http://jefhcardoso.blogspot.com/ Espero que curta. Valeu!

    “Que a escrita me sirva como arma contra o silêncio em vida, pois terei a morte inteira para silenciar um dia” (Jefhcardoso)

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